O vírus zika, conhecido por ter causado uma epidemia de microcefalia em bebês de mães infectadas durante a gravidez, pode ser uma alternativa no tratamento do glioblastoma, tipo mais comum e agressivo de tumor cerebral em adultos.

A descobertaé de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF-Unicamp) e foi publicada em um artigo no Journal of Mass Spectrometry.

Em fetos, o vírus zika ataca as células que darão origem ao córtex cerebral. Estudos anteriores mostram que essas células, chamadas progenitoras neurais, quando infectadas pelo vírus Zika apresentam taxas aumentadas de mortalidade e anormalidades morfológicas.

Partindo dessa capacidade do vírus de afetar o cérebro, os pesquisadores brasileiros decidiram testar o patógeno no tumor gilobastoma. Infectaram células humanas do tumor e registraram suas imagens para identificar alterações metabólicas.

Os resultados das análises indicaram que as células de glioblastoma infectadas foram afetadas, com  a formação de sincícios – células multinucleadas, em que a membrana celular engloba vários núcleos —  e morte celular.

os pesquisadores também usaram espectrometria de massa por ionização por dessorção a laser (MALDI-MSI). para analisar os metabólitos produzidos pelo tumor.Após a infecção, as células cancerosas passaram a produzir glicosídeos cardíacos, especialmente a digoxina.

Estudo anteriores, realizados in vitro por pesquisadores no exterior, demonstraram que essa molécula é capaz de diminuir a taxa de multiplicação e aumentar a morte de células de melanoma – o tipo mais agressivo de câncer de pele –, de mama e neuroblastoma – um tumor que costuma afetar principalmente pacientes com até 15 anos de idade.

Como foi demonstrado que glicosídeos cardíacos, como a digoxina, induzem a morte de células cancerosas, os pesquisadores da Unicamp estimam que a infecção pelo Zika desencadeou a síntese da molécula em células de glioblastoma. E que esse fenômeno provavelmente é um dos gatilhos que desencadeiam a morte de células neuronais.

Com base nessas constatações, os pesquisadores sugerem que o Zika possa ser geneticamente modificado com o intuito de eliminar os efeitos da infecção e deixar apenas as partículas virais responsáveis pela síntese da digoxina. Dessa forma, o vírus poderia ser uma alternativa para o tratamento do glioblastoma, que apresenta alta resistência a quimioterápicos.

*Adaptado da Agência Fapesp

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.