Combinado com quimioterapia, procedimento mostrou bom resultado em pequeno ensaio clínico

Médicos do Johns Hopkins Kimmel Cancer Center relatam ter tratado com sucesso 16 pacientes com uma forma rara de problema da medula óssea, a anemia aplástica, por meio de transplantes de medula parcialmente compatíveis seguidos de quimioterapia. Passado um ano dos procedimentos, os pacientes não mostram mais sinais da doença. O resultado é especialmente animador para o Brasil, onde as possibilidades de tratamento para a doença são reduzidas.

Diagnosticada em uma em cada 250 mil pessoas, a anemia aplástica ocorre quando a medula deixa de produzir plaquetas, hemácias e glóbulos brancos. O tratamento de primeira linha a imunossupressão baseada na combinação da globulina antitimocítica de cavalo (não mais disponível no Brasil) e da ciclosporina, mas cerca de 40% dos pacientes tratados deste modo não conseguem controle da doença.

A segunda linha de tratamento é o transplante de medula óssea totalmente compatível. No entanto, apenas cerca de 25% dos pacientes encontram um doador, restando aos demais enfrentar transfusões de sangue frequentes que os deixam suscetíveis a infecções  e hemorragias potencialmente fatais.

No estudo, 16 pacientes que não apresentavam resposta ao tratamento com imunosupressores nem tinham doadores completamente compatíveis foram submetidos ao transplante, depois de receber um coquetel de drogas para suprimir o sistema imune e prevenir a rejeição.

Três dias após o procedimento, eles receberam altas doses de quimioterapia com ciclofosfamida e permaneceram tomando medicações imunosupressoras por pouco menos de um ano.

Algumas semanas após o transplante, testes já mostraram que os pacientes voltaram a produzir células sanguíneas em níveis normais.

“Nossos resultados sugerem um amplo potencial de tratamento”, diz o líder da pesquisa, o oncologista Robert Brodsky. “Sucesso com transplantes de medula com compatibilidade parcial abrem uma nova opção de tratamento para praticamente todos os pacientes com esta condição.

Mesmo irmãos só têm 25% de chance de serem totalmente compatíveis para o transplante. “Agora, uma terapia que só servia para 25% dos pacientes vai servir para quase 95%”, ressalta o médico.

O hematologista Elias Hallack Atta, da Oncologia D’Or, destaca a importância do estudo para o cenário brasileiro. “Com o uso de doadores haploidênticos, podemos oferecer uma chance de tratamento a quase todos os pacientes refratários ao tratamento inicial e sem a perspectiva de encontrar um doador não aparentado totalmente compatível. Isto é particularmente importante no Brasil, onde não dispomos da globulina antitimocitária de cavalo para o tratamento em primeira linha”, diz.

Os resultados do estudo americano podem ainda servir de base para ampliar o tratamento de outras doenças hematológicas. “A plataforma desenvolvida pelos pesquisadores de Johns Hopkins permite o acesso ao transplante de células-tronco hematopoiéticas para muitos pacientes com leucemias e linfomas que não dispõem de doadores compatíveis”, comenta Atta. “Desta forma, muitos pacientes que não poderiam se beneficiar do transplante devido à indisponibilidade de um doador totalmente compatível, podem agora se beneficiar do transplante haploidêntico, aumentando assim as suas chances de cura.”

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.