A hormonioterapia alvo para câncer de próstata pode aumentar o risco de coágulos sanguíneos potencialmente perigosos, sugere um grande estudo realizado nos Estados Unidos.

A análise de dados de mais de 154 mil homens mais velhos com câncer de próstata levou pesquisadores a observarem que aqueles que receberam terapia hormonal tinham o dobro da taxa de coágulos sanguíneos nas veias, artérias e pulmões em comparação com os homens que não receberam esse tratamento.

Dos mais de 58 mil homens que fizeram uso da terapia hormonal, 15% desenvolveram um coágulo de sangue ao longo de cerca de quatro anos, contra 7% dos pacientes que não receberam a terapia. Um coágulo nos vasos sanguíneos pode ser fatal se ele se soltar e for para os pulmões, coração ou cérebro.

Os pesquisadores relataram, na revista Cancer, que os homens que desenvolveram coágulos sanguíneos acabaram no hospital 25% das vezes.

“De maneira nenhuma isso é um risco trivial”, disse o autor principal do estudo, Behfar Ehdaie, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York.

Para os homens que estiverem analisando suas opções de tratamento para o câncer de próstata, Ehdaie disse que o risco de coágulos no sangue – e outros efeitos colaterais – deve ser ponderado em relação aos benefícios. Outros efeitos colaterais da terapia hormonal incluem ganho de peso, desgaste ósseo, ondas de calor e disfunção erétil.

Além disso, os especialistas dizem que para muitos pacientes com câncer de próstata os benefícios da terapia hormonal não são claros.

A abordagem é baseada no fato de a testosterona poder estimular o crescimento do câncer de próstata. Reduzir a produção de hormônio do homem – por remoção cirúrgica dos testículos, ou, com muito mais frequência, medicamentos – pode ser útil.

Mas a terapia hormonal foi originalmente oferecida apenas para homens com câncer de próstata avançado que havia se espalhado para outras partes do corpo. Para eles, o tratamento oferece um alívio dos sintomas que geralmente superam os riscos de efeitos colaterais, disse Vahakn B. Shahinian, da Universidade de Michigan em Ann Arbor.

A terapia hormonal também pode melhorar a sobrevivência quando administrada juntamente com radiação para os homens com câncer de próstata de “alto risco”, ou seja, que pode progredir. (Muitos tumores de próstata são de crescimento lento e podem nunca realmente avançar a ponto de ameaçar a vida do homem.)

“Esses são os dois cenários em que há clara evidência de um benefício”, afirmou Shahinian, que escreveu um editorial publicado com o estudo. “A questão surge quando você olha para outros cenários onde a terapia hormonal é utilizada.”

Nas duas décadas passadas, alguns médicos começaram a dar terapia hormonal como uma terapia de primeira linha para os homens recém-diagnosticados com tumores que ainda estavam confinados à próstata. Isso, apesar do fato de os benefícios para os pacientes não estarem estabelecidos.

Em alguns casos, os homens podem estar com a saúde debilitada, e o tratamento agressivo com radiação pode não ser a decisão mais sábia. Mas o médico e o paciente podem sentir a necessidade de “fazer algo”, disse Shahinian. Assim, terapia hormonal é a escolha. Há também evidências de que motivos financeiros desempenharam um papel, observou Ehdaie.

Em 1999, a terapia hormonal era oferecida a cerca de metade dos pacientes com câncer de próstata. Mas estudos descobriram que, depois de cortes no reembolso médico para a terapia, menos médicos a estão utilizando.

Para Ehdaie e Shahinian, os homens devem discutir exaustivamente os riscos e benefícios dos diferentes tratamentos de câncer de próstata com o seu médico.

Quanto ao motivo da terapia hormonal possibilitar a formação de coágulos sanguíneos, os mecanismos são incertos.

Os resultados atuais não provam que a terapia seja a causa direta dos coágulos de sangue nos homens. A equipe de Ehdaie tentou enumerar outros fatores que poderiam explicar a ligação e notaram que os homens em terapia hormonal tendem a ser mais velhos e com a saúde geral mais debilitada.

Mas mesmo com essas diferenças consideradas, os homens em terapia hormonal tinham uma chance 56% maior de desenvolver um coágulo de sangue. E o risco de coágulos, em geral, subiu ao nível máximo durante o tratamento.

“Não podemos inferir causalidade, mas é uma associação forte”, disse Ehdaie.

É possível, observou ele, que a terapia hormonal aumente o risco de coágulos por causa de seus efeitos negativos sobre o metabolismo, que podem incluir aumento da massa de gordura.

“Acho que a mensagem que deve ser levada é que isso reforça o fato de que a terapia hormonal tem riscos potenciais, e os homens devem ser informados”, disse Shahinian, um consultor do laboratório Amgen, que está buscando aprovação para seu medicamento contra o câncer ósseo, o Xgeva, para tratar certos homens com câncer de próstata avançado.

Para muitos homens com câncer de próstata, não ter nenhum tratamento imediato é uma opção.

De acordo com o National Cancer Institute, cerca de metade dos mais de 190 mil norte-americanos diagnosticados com câncer de próstata em 2009 se enquadraram na categoria “baixo risco” – o que significa que seu câncer tinha poucas chances de progressão.

Eles estão entre os homens que podem optar por abrir mão do tratamento e ter seu câncer monitorado – o que os médicos chama de “vigilância ativa”.

“A espera vigilante pode ser estressante”, observou Shahinian. “Mas os homens devem estar cientes de que ‘fazer algo’ vem com riscos potenciais.”

Fonte: Reuters Health

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