Terapia gênica tem possibilidade de uso contra tumores cerebrais

Um estudo piloto publicado na Science nesta semana mostrou que a infusão da terapia celular CAR T é bem tolerada e pode trazer bons resultados para pacientes com câncer de cérebro glioblastoma. O tratamento, que usa engenharia genética para modificar as células T do sistema imune do paciente, ganhou as manchetes na imprensa recentemente pela possibilidade de ser aprovado contra a leucemia nos EUA e ser a primeira terapia gênica disponível no mercado.

Os resultados do experimento podem contribuir para a expansão do uso da terapia para tumores sólidos. O glioblastoma é uma das formas mais agressivas de tumores cerebrais e hoje não tem tratamento curativo disponível. São tumores invasivos que crescem no sistema nervoso central e os pacientes têm sobrevida média em torno de 15 a 18 meses.

Cerca de 30% desses tumores possuem uma mutação que leva à produção de uma proteína chamada fator de crescimento epidérmico variante III (EGFRvIII). No estudo piloto, os pesquisadores selecionaram 10 pacientes com esse perfil de tumor e modificaram suas células T para ter como alvo essa proteína específica.

O procedimento de engenharia genética é simples: o paciente tratado pelo protocolo tem suas células T extraídas do sangue, congeladas e então enviadas para o laboratório onde são geneticamente modificadas para atacar as células cancerígenas e multiplicadas em cultura. As células modificadas são reintroduzidas no paciente por infusão.

Após uma única infusão, um dos pacientes ficou estável por 18 meses, resposta que permanece até hoje. Outros dois pacientes estão vivos, mas a doença progrediu. Os sete restantes viveram mais do que o esperado sem a terapia.

Sete deles passaram por neurocirurgia, o que permitiu aos pesquisadores examinar as mudanças no microambiente do tumor após a infusão com células CAR T. Eles observaram que uma pequena fração das células originalmente injetadas conseguiu penetrar o tumor, mas as células cancerígenas também começaram a secretar sinais imuno-supressores em resposta, o que pode ser uma barreira para o tratamento.

Desafios ultrapassáveis

Embora a amostra do estudo tenha sido pequena, os cientistas acreditam que foi possível ver benefício clínico para a técnica, que também se mostrou segura. “Esse é um estudo bem inicial, mas ficamos encorajados pelo fato de que as células chegaram no cérebro e reduziram os níveis de antígenos sem toxicidade para os pacientes”, diz o líder do estudo O’Rourke, da Universidade da Pensilvânia. “Podemos pensar no CAR T como uma opção terapêutica para esses pacientes.”

Outra autora do estudo, Marcela Maus, da Universidade da Pensilvânia ressalta que o experimento serviu para identificar as principais barreiras para a terapia, que podem ser vencidas num futuro próximo. “Esse estudo mostrou que existe a necessidade de usarmos como alvo outros antígenos do glioblastoma e tentar vencer essa barreira do ambiente imunossupressor que as células CAR T encontraram”, diz. A pesquisadora menciona que usar drogas imunossupressoras já existem também é um possibilidade para solucionar esse desafio.

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.