Estudos divulgados no ASH com CAR T Cell mostram altas taxas de remissão para linfoma não Hodgkin e de células B

Um dos grandes temas do ASH deste ano é a terapia com CAR T-Cells, que usa células modificadas do próprio sistema imune do paciente contra o câncer. Dois estudos apresentados para imprensa no evento mostraram benefícios da técnica para o tratamento dos linfomas refratários não-Hodgkin agressivo e de células B, com casos de remissão completa das doenças.

A abordagem CAR T-Cells já foi aprovada no EUA para o tratamento da leucemia linfoide aguda (LLA) em pacientes com até 25 anos e resistentes ao tratamento convencional e mais recentemente também para pacientes adultos com linfoma não Hodgkin difuso de células B. As aprovações vieram depois de casos de remissão completa com os tratamentos.

Os estudos com linfoma divulgados no ASH17, ZUMA-1 e JULIET, também mostraram boas respostas com células T modificadas para ter por alvo a proteína CD-19, comum nas células malignas de linfoma.

No ZUMA-1, 108 pacientes com linfoma não-Hodgkin agressivo refratário foram tratados com uma injeção única de CAR T-cell axicabtagene ciloleucel (axi-cel). Destes, 59% ficaram vivos após um ano, sendo que desse grupo 42% mostraram remissão e 40% remissão completa após um ano.

“O ZUMA-1 confirma que as repostas podem ser duráveis e que após 24 meses a recidiva é incomum. Pacientes que ficam em remissão por 6 meses tendem a continuar em remissão”, diz o líder do estudo Sattva S. Neelapu do MD Anderson Cancer Center, na Universidade do Texas.

Os dados impressionam se comparados com a sobrevida dos tratamentos atuais, que é de cerca de 6 meses.

O estudo, conduzido por 22 instituições, é o maior já feito sobre eficácia de uma abordagem CAR T-Cells até então. Das mortes ocorridas no início do ensaio, duas foram atribuídas ao tratamento e outras duas a efeitos adversos típicos da progressão da doença. Entre os efeitos da terapia gênica, estiveram relatos de toxicidade neurológica, neutropenia, anemia e trombocitopenia. Dez pacientes experimentaram efeitos graves, como infecções.

Os pesquisadores analisaram ainda tecidos tumorais anteriores e posteriores ao tratamento para tentar descobrir porque alguns pacientes não responderam e notaram que em um terço deles a proteína CD19 não estava mais presente nas células cancerosas. Também viram que mais de dois terços do tumores apresentavam outra proteína, a PD-L1, que pode ter ajudado as células malignas a persistirem ao inibir a função das células T modificadas.

Um segundo estudo randomizado já está em curso para comparar essa abordagem com o tratamento padrão de segunda linha, que é feito com o transplante autólogo de células-tronco da medula após a falha do tratamento de primeira linha.

Linfoma de células B e desafios de toxicidade

Já o estudo JULIET mostrou que seis meses após receber uma dose única de tisagenlecleucel, 81 pacientes adultos com linfoma de células B tiveram remissão completa por até seis meses e 41 apresentaram taxa de resposta de 37% com 30% atingindo resposta completa e 7% resposta parcial.

“Embora a gente ainda não saiba por que essas remissões são duráveis, o resultado é animador e vai mudar o modo com tratamos hoje os pacientes refratários e com recidiva”, disse o líder do estudo Stephen Schuster da University of Pennsylvania (Penn).

O hematologista Eduardo Rego, do Grupo Oncologia D’Or avalia que um dia a terapia gênica com CAR T-cells possa se tornar o tratamento padrão para os cânceres hematológicos e também de tumores sólidos. “Estamos vendo muitos resultados promissores com essa abordagem e começando a ver a potencialidade para mais doenças”, disse. “Esse pode ser o futuro do tratamento para muitos pacientes.”

O especialista destaca, no entanto, que ainda existem algumas barreiras a serem transpostas com a terapia gênica em termos de segurança. “Existem duas toxicidades bem importantes: a síndrome de liberação de citocinas, que tem a ver com a atividade do linfócito infundido, e a neurotoxicidade com quadros neurológicos”, pontua. “Estamos começando a entender o que causam esses quadros.”

 

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Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.