Abordagem que usa sistema imune do próprio paciente já está sendo usada contra leucemia e linfoma e pode progredir para tratar tumores sólidos

A imunoterapia gênica com CAR T Cells foi eleita pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) o grande avanço no tratamento do câncer no último ano. A nomeação faz parte do relatório anual da entidade, que destaca as mais importantes pesquisas clínicas e políticas em saúde de 2017.

A terapia com CAR T Cells usa células do sistema imune do próprio paciente geneticamente modificadas para combater o câncer. Em 2017, esse tipo de abordagem recebeu aprovação para uso clínico pelo FDA, agência de regulação de medicamentos dos EUA, para o tratamento de crianças e jovens com leucemia linfoide aguda (LLA) e para adultos com linfoma difuso de células B. As pesquisas com essa tecnologia avançam no sentido de tratar outras doenças hemato-oncológicas e até mesmo tumores sólidos.

O paciente tratado com CAR T tem suas células T extraídas do sangue, congeladas e então enviadas para laboratório onde são geneticamente modificadas para atacar as células cancerígenas. Os protocolos já aprovados nos EUA modificam a a proteína CD19, presente na superfície de células B do sistema imunológico e alteradas no câncer. As células modificadas são reintroduzidas no paciente por infusão.

A técnica, no entanto, ainda enfrenta o desafio dos altos custos. Hoje, o tratamento vendido pela Novartis custa cerca de 475 mil dólares, o equivalente a 1,5 milhão de reais.
“É incrível ver décadas de esforço em pesquisa culminar nesse novo tipo de tratamento, bem como outras formas de medicina de precisão que ajudam pacientes com câncer avançado”, diz o presidente da ASCO Bruce Johnson. “Apesar de ainda termos que trabalhar para tornar esses tratamentos mais acessíveis e mais toleráveis, o sucesso da terapia com CAR T Cells demonstra o impacto profundo que novos tratamentos podem ter para estender a vida dos pacientes com câncer.”

Imunoterapia para pulmão

Além das CAR T Cells, o relatório da ASCO aponta a imunoterapia para o tratamento do câncer de pulmão como outro grande avanço. O documento estima que as terapias-alvo para a doença já aprovadas no EUA poderiam salvar 250 mil anos de vida de pacientes se todos as cerca de 100 mil pessoas diagnosticados com câncer de pulmão avançado por ano nos EUA recebessem tratamento com imunoterapia.

A terapia-alvo com inibidores de checkpoint tem transformado o tratamento da doença. Desde 2015, medicamentos como o nivolumabe, o pembrolizumabe e o atezolizumabe têm aumentado significativamente a sobrevida, superando a quimioterapia.

O relatório também destaca a tendência atual na oncologia de tratar tumores com base nas alterações genéticas e não na sua localização ou tipo de tecido. Um marco nesse sentido se deu no ano passado com a aprovação do pembrolizumabe pelo FDA para o tratamento de tumores sólidos em geral com as alterações genéticas MMR e MSI-H.

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.