A International Myeloma Foundation aproveitou a realização do Hemo 2012, o maior encontro anual da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, para lançar no Rio de Janeiro a campanha Time to Live, em mais um esforço de demonstrar a difícil realidade dos pacientes de mieloma múltiplo no Brasil. A principal crítica de médicos e pacientes é sobre a posição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que tem se mantido contrária a incorporação de novos agentes terapêuticos, limitando os recursos disponíveis para o tratamento da doença.

Mundialmente, dois estudos amplamente reconhecidos pela comunidade científica (MM09 e MM010) embasaram as principais agências reguladoras na decisão de aprovar a lenalidomida (Revlimide) para o tratamento do MM. O medicamento é empregado em cerca de 80 países, mas é negado aos pacientes brasileiros, assim como o bortezomibe, agente também aprovado pelo FDA e pelas agências européias para o tratamento da doença.

“É impossível compreender a posição da Anvisa”, critica a médica Vânia Hungria, hematologista e professora da Santa Casa de São Paulo, para quem a decisão da agência reguladora penaliza duramente os pacientes. Há quatro anos o pedido de registro da lenalidomida tem sido negado pela Anvisa. “É uma barreira que impede o acesso a um medicamento com taxas de resposta elevadas e com menor perfil de toxicidade. O pior é que pacientes refratários aos agentes disponíveis ficam sem opção de tratamento”, critica a hematologista .

Para demonstrar o leque de possibilidades terapêuticas que vem permitindo significativo aumento de sobrevida aos pacientes de MM, o Time to Live também contou com a presença de Paul Richardson, diretor clínico do “Centro de Mieloma Múltiple Lipper Jerome”, do Dana Farber Cancer Institute. Richardson enfatizou que a combinação de drogas é a chave da moderna abordagem do mieloma múltiplo, um câncer da medula óssea que afeta certos tipos de glóbulos brancos chamados de plasmócitos. Os atuais regimes de tratamento combinam diferentes agentes, em um planejamento terapêutico onde e a incorporação de um moderno imunomodulador é essencial, principalmente em pacientes refratários ao regime com a talidomida. No entanto, a talidomida é a única droga aprovada no Brasil e pacientes que falham ao tratamento perdem os benefícios de uma alternativa terapêutica.

A oncologia mundial assiste a uma verdadeira revolução com a chegada de novos e promissores agentes terapêuticos, mas universalizar o acesso aos benefícios dessa inovação permanece como um grande desafio. A falta de sensibilidade da Anvisa continua prejudicando milhares de pacientes de MM no Brasil.

Também presente ao encontro, Ângelo Maiolino criticou a posição da Anvisa, sustentando que “não existe a menor dúvida de que as novas drogas como bortezomibe e lenalidomida mudaram a realidade do mieloma múltiplo no mundo e, certamente, ajudariam os doentes brasileiros a viver mais e melhor”. Maiolino é uma das grandes autoridades no assunto, autor de vários estudos sobre mieloma múltiplo publicados em importantes periódicos científicos.

O mieloma múltiplo é a segunda doença oncohematológica em incidência no mundo. Segundo a IMF, há mais de 700 mil novos casos por ano. No Brasil, não há estatísticas oficiais, mas o especialista calcula 10 mil novos casos/ano.

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