Apesar do aumento do número de prossionais, pesquisa demográfica expõe desigualdade na distribuição geográfica de especialidades pelo país.

Por Renata Fontanetto 

De um lado, distribuição desigual de médicos por região. Do outro, aumento do número de profissionais jovens e do sexo feminino. Esses são alguns dos destaques da Demografia Médica no Brasil 2018, estudo que mapeou características da população médica no país. Os mais de 452 mil profissionais atuantes presenciam realidades conflitantes, como a discrepância entre grandes centros e interior: as 27 capitais concentram 55,1% da força médica, mas abrigam menos de um quarto da população. A pesquisa foi conduzida pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

O estudo revela um aumento de quase 100 mil no número de médicos desde 2010. Segundo os autores, a expansão se deve à abertura de novas escolas médicas. Em artigo de 2015 publicado na Human Resources for Health, os médicos Mário Scheffer, da USP, e Mario Dal Poz, da Uerj, autores também da demografia, comentam que o Programa Mais Médicos contribuiu para a expansão dos cursos de graduação pelo país.

Em 2014, havia 241 cursos; em 2017, segundo a Demografia Médica deste ano, 289. A maioria dos cursos é privada. As vagas em escolas particulares representam 65% do total ofertado anualmente. A relação entre público e privado também pode ser observada sob outros ângulos. Segundo Aline Guilloux, veterinária e pesquisadora assistente do estudo, a crise financeira representa precarização das relações de trabalho no sistema público e um possível aumento de pacientes no SUS.

“A tendência é que os médicos migrem para o setor privado mais rapidamente. Por outro lado, imaginamos que a alternativa de pessoas desempregadas que antes tinham plano de saúde seja o SUS. A demanda aumenta, os tempos de espera aumentam e a população mais vulnerável pode ter ainda mais dificuldade de acesso ao sistema”, explica a pesquisadora.

A falta de médicos em determinadas regiões é outro cenário apontado pelo estudo. A maioria está no Sudeste. A região tem taxa de 2,8 médicos por mil habitantes, contra 1,1 no Norte. A tendência de concentração nas capitais também é apontada no estudo. As capitais das 27 unidades da federação reúnem 23,8% da população e 55,1% dos médicos. Mais da metade dos registros de médicos em atividade se concentra nas capitais, onde mora menos de um quarto da população do país. A razão das 27 capitais é de 5,07 médicos por mil habitantes. No interior, esse índice é de 1,28, ou seja, 3,9 vezes menor.

“Experiências de outros países apontam que não há solução única ou duradoura para esse fenômeno, sendo recomendada a associação de medidas regulatórias e incentivos financeiros”, ressalta a pesquisa. Em estudo de junho de 2012, o Conselho Federal de Medicina e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo já haviam alertado que a meta do então governo de – 2,5 médicos por mil habitantes –não se apoiava em fundamentação científica. Sem políticas claras de formação e estímulo à educação adequada, os novos médicos se concentrariam onde já há muitos.

Mais jovens e mulheres

O fato de 43% das vagas de graduação estarem nas capitais é outro dado que pode contribuir para a concentração de médicos nessas localidades, além das condições de trabalho e qualidade de vida. Segundo a pesquisa, “é baixa a influência de escolas do interior em fixar os médicos, depois de formados, no local onde estudaram”. A entrada de novos profissionais ocasionou outro fenômeno: a redução da média de idade, que agora é de 45 anos. Entre as cinco áreas com menor média de idade – de 42,6 a 44,2 anos –, duas tratam do câncer: cirurgia oncológica e oncologia clínica, recentemente formalizadas como especialidades distintas.

Além disso, as mulheres já são maioria entre os recém-formados e entre aqueles com menos de 35 anos. “O que é preocupante é que ainda há diferença salarial entre homens e mulheres mesmo quando se trata de profissionais com o mesmo tipo de especialidade, carga horária e tempo de prática”, esclarece Aline Guilloux.

Quem trata do câncer

Atualmente, há 59 especialidades reconhecidas no país. Nunca houve tantos médicos com títulos de especialistas – são mais de 280 mil. Isso se deve ao aumento do número de programas de residência médica. Destes, 3.583 são oncologistas clínicos, e a expectativa é que esse número aumente.

“Vários municípios estão iniciando serviços de oncologia, então dentro de dez anos teremos cerca de 10 mil oncologistas clínicos no país, o que é considerado um bom número”, avalia o médico Sérgio Simon, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

A concentração de especialidades no Sul e no Sudeste do país, no entanto, também é uma realidade na oncologia. No Sudeste, estão concentrados 46,5% dos oncologistas do país. Do total de profissionais, quase um terço (1.037) está no estado de São Paulo. Já estados como Tocantins, Amapá, Acre e Roraima têm apenas 16, 10, 6 e 5 profissionais, respectivamente.

Um estudo publicado em 2017 no Brazilian Journal of Oncology analisou as perspectivas para 2020 na oncologia médica e destaca que o Centro-Oeste parece ser a região mais crítica do país em cuidados dessa especialidade. Na projeção feita pelo estudo, o Centro-Oeste é o único que apresentou crescimento (68,9%) no número de novos pacientes com câncer por médico oncologista: de 341 em 2014 para 576 em 2020. Isso se deve à tendência do aumento da incidência de câncer na população combinada com a baixa  oferta de residência em oncologia na região. Mesmo com o aumento de 100% em vagas de treinamento entre 2006 e 2014, o número permanece aquém da demanda.

A má distribuição desses números contrasta com a realidade de que o câncer vai se tornar a primeira causa de morte no país até 2030. Simon ressalta a necessidade de uma redistribuição de profissionais para as regiões desassistidas.

“Precisamos atrair médicos para estados como Roraima, Acre e Piauí, mas as condições de trabalho são precárias. O sistema público precisa melhorar e capacitar melhor os profissionais. Não adianta formar um radioterapeuta e enviá-lo a municípios onde não há equipamentos de radioterapia”, defende o médico.

A oncologia é uma área que dialoga com outros campos, já que o tratamento do câncer é multidisciplinar. O quantitativo de profissionais nas especialidades médicas ligadas à oncologia não é a única questão a ser endereçada, no entanto. Hoje, de acordo com Simon, o acesso aos serviços de saúde na esfera privada é mais fácil, o que garante melhor sobrevida ao paciente tratado nesse sistema.

“Os tratamentos pagos pelo SUS são antiquados. É preciso ter uma gestão mais focada e gastar em tratamentos melhores. A SBOC está trabalhando com o Ministério da Saúde para tentar eliminar obstáculos na aquisição de drogas novas e mais eficazes”, explica o médico. A seu ver, pensando no futuro, duas áreas são prioritárias: o diagnóstico e a prevenção da doença.

 *Reportagem publicada na edição 40 da Revista Onco&

ERRATA: a figura 2 foi corrigida para atualizar os números referentes à especialidade de mastologia.

Renata Fontanetto

Renata Fontanetto é especializada em ciência, tecnologia e saúde pela Fiocruz, onde atualmente trabalha como jornalista e divulgadora científica. Foi bolsista do Berlin Science Communication Award (2017) e da Escola Internacional de Jornalismo Científico, na Itália (2015). Escreve sobre gênero e ciência para o site Cientistas Feministas.