É provável que o mero nome da jararacuçu (Bothrops jararacussu) cause arrepios em quem teme serpentes. O veneno do réptil, contudo, pode se revelar uma arma valiosa contra o câncer. Os indícios, obtidos em laboratório, ainda são preliminares. Uma proteína isolada na peçonha da jararacuçu parece capaz de se ligar a células tumorais e forçá-las ao suicídio, por exemplo.

Os resultados vêm do trabalho de duas pesquisadoras da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), cujo próximo desafio é entender, em detalhes, a interação da proteína do veneno com as células do câncer. “Ninguém ainda entrou na célula para ver como a molécula faz isso, onde ela se liga”, disse à Folha a bióloga Selene Esposito, que investiga o tema junto com Andréa Novais Moreno.

A dupla tem em comum o interesse pelo grupo de proteínas ao qual pertence a BJcuL (apelido da molécula de veneno). São as lectinas, cuja estrutura e função sugerem uma série de aplicações médicas, diz Esposito.

Reconhece e gruda

“Elas são basicamente moléculas de reconhecimento”, conta a bióloga. O mais comum é que as lectinas estejam localizadas na superfície celular, embora também seja possível encontrá-las no interior das células. De um jeito ou de outro, o papel das lectinas costuma ser o de reconhecer certos tipos de moléculas de açúcar e se ligar a elas, desencadeando sinais específicos, como a ativação do sistema imunológico (de defesa) do corpo.

Era razoável imaginar que as lectinas poderiam agir contra o câncer porque há anomalias nas moléculas de açúcar produzidas pelos tumores. Justamente por serem sensíveis a açúcares, as lectinas poderiam reconhecer a mudança e sabotar o câncer. É justamente isso que a dupla da PUC-PR tem visto ao estudar alguns tipos de lectinas, como uma molécula produzida pela jaca e a BJcuL (sigla que significa “lectina de Bothrops jararacussu”).

Primeiro, a proteína do veneno consegue estimular várias facetas do sistema imunológico. O mais interessante, porém, veio com o efeito da substância contra células de câncer do estômago e de tumores do cólon (intestino grosso). Nesses casos, a BJcuL induz a apoptose, ou morte celular programada.

Além disso, a lectina também afeta a integridade da membrana que envolve a célula tumoral, ou causa danos a seu núcleo, o centro de comando celular, onde está aninhado o DNA. A esperança é que a especificidade da ligação da lectina com as células de câncer impeça efeitos colaterais, como os da quimioterapia tradicional. Mas serão necessários muitos testes antes do possível uso em pacientes.

Fonte: Folha de S. Paulo

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