Estudo indica que 10 anos de uso de inibidores de aromatase, medicamento disponível no SUS, reduz risco de volta da doença em mulheres na pós-menopausa sem queda na qualidade de vida

O prolongamento de um tratamento já utilizado para câncer de mama pode ser eficaz na redução da recidiva da doença. Um ensaio clínico de fase 3 apresentado hoje na Asco testou a ampliação do uso do inibidor de aromatase letrozol por cinco anos após o tratamento com tamoxifeno em mulheres diagnosticadas com câncer de mama inicial após a menopausa. O resultado foi uma redução de 34% no risco de volta da doença em comparação ao placebo.

O estudo, conduzido pelo Canadian Cancer Trials Group em parceria com a National Clinical Trials Network, dos Estados Unidos, teve a participação de 1.918 pacientes que já haviam sido tratadas por cinco anos com inibidores de aromatase, tanto como tratamento inicial, quanto antes do tamoxifeno. A maioria das mulheres estudadas, 90%, começaram a receber o letrozol seis meses após completar o tratamento anterior.

O líder da pesquisa, Paul Goss, diretor do Breast Cancer Research do Massachusetts General Hospital, em Boston, e professor Harvard Medical School, aponta que o estudo traz dados capazes de provocar mudança imediata nos protocolos de tratamento para esse grupo de pacientes. O pesquisador também ressalta a acessibilidade do tratamento, que é baseado no uso de drogas amplamente disponíveis no mundo todo – inclusive no sistema público de saúde do Brasil.

“Mulheres com esse tipo de câncer de mama enfrentam todos os dias o risco de volta da doença”, diz Goss. “Nosso estudo indica que existe um caminho mais eficaz de tratamento e prevenção disponível em todo o globo. ”

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Paul Goss, líder do estudo.

A sobrevida global entre as pacientes que tomaram placebo e as tratadas com o novo protocolo não foi significativamente diferente. O pesquisador explica que isso se deve à natureza da doença, que tem um desenvolvimento cronicamente lento, impossibilitando que o dado fique evidente no ensaio clínico.

“A maioria das terapias endócrinas para câncer de mama enfrenta essa dificuldade nos ensaios clínicos e por isso mesmo têm sido aprovadas baseadas somente nos resultados de sobrevivência livre de doença”, comentou à revista Onco&.

Toxicidade à prova

O tratamento com inibidores de aromatase possui efeitos colaterais importantes, como calores, sintomas sexuais e dores nas juntas. O ensaio clínico vem acompanhado de um estudo que mediu a toxicidade do tratamento e o seu impacto na qualidade de vida das pacientes por meio de questionários.
Segundo os pesquisadores, a toxicidade do tratamento não é cumulativa e não houve diferença significativa entre os efeitos colaterais e a qualidade vida nas pacientes que receberam o tratamento estendido em comparação com o grupo placebo.

Os resultados, no entanto, dizem respeito a um grupo seleto de pacientes. As participantes escolhidas para o estudo já toleravam a medicação. Em entrevista à revista Onco&, Goss comentou que as fraturas ósseas foram o efeito adverso mais importante entre as participantes do estudo, chegando a afetar quase metade das envolvidas.
O pesquisador conta que seu grupo já planeja agora conduzir em paralelo um estudo para predizer o risco de perda óssea e fraturas nas pacientes com câncer de mama com o objetivo de basear a indicação do tratamento.

O oncologista clínico Anderson Silvestrini, do Grupo Oncologia D’Or, ressalta que por causa dessa toxicidade, o protocolo não é aplicável a todas as pacientes. “Os inibidores provocam grande perda óssea e ressecamento vaginal. A indicação apresentada pelo estudo é relevante e baseada em estudos anteriores que já haviam testado, com bons resultados, 10 anos de tamoxifeno. Mas na prática clínica cabe ao médico avaliar se é adequado ou não a cada paciente. ”

Gilberto Amorim, também da Oncologia D’Or, concorda e ressalta que medidas de acompanhamento podem ser adotadas quando da escolha desse tratamento. “Os ossos podem ser vigiados e tratados”, diz. “O estudo traz uma grande mudança de paradigma e um impacto enorme para uso imediato, com a vantagem de estar disponível no SUS.”

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.