Uma série de novidades relacionadas aos tratamentos dos cânceres gastrointestinais foi apresentada na última edição do Gastrointestinal Cancers Symposium (ASCO GI), realizada na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, entre os dias 16 e 18 de janeiro. A décima primeira edição do encontro contou com a presença de mais de 3 400 especialistas, como gastroenterologistas, oncologistas, cirurgiões e outros interessados em tomar conhecimento sobre as últimas novidades da área.

O primeiro dia de palestras e apresentações se concentrou nos estudos referentes aos tumores do esôfago e do estômago. Esses temas receberam atenção especial, uma vez que o câncer de esôfago se mantém como um dos três cânceres cuja incidência continua a crescer nos Estados Unidos.

O prognóstico dos pacientes com esse tipo de tumor não costuma ser bom, mas novas técnicas e tratamentos começam, aos poucos, a mudar essa tendência. Exemplo disso são os dados apresentados na palestra de Charles Lightdale, da Columbia University Medical Center. Chamada de “Evolution of Endoscopy in Esophageal Cancer”, a apresentação mostrou o quanto a endoscopia vem mudando dramaticamente o tratamento do câncer de esôfago, não apenas possibilitando o diagnóstico mais precoce da doença, mas também surgindo como uma poderosa ferramenta de testes e uma técnica terapêutica. A ressecção endoscópica agora prevalece como a forma mais difundida de tratamento para qualquer lesão visível sem invasão linfovascular, possibilitando uma ressecção R0 no ambulatório.

Entre as pesquisas apresentadas no primeiro dia do encontro, esteve a que mostrou os resultados do experimento Rainbow, um estudo global, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Os estudos, que envolveram 665 pacientes com adenocarcinomas gástrico avançado e de junção esofagogástrica (GEJ), mostraram que a adição de ramucirumab ao paclitaxel prolongou significativamente a sobrevida global a partir de uma média de 7,36 para 9,63 meses. Rainbow é a segunda pesquisa de fase III de uma terapia à base de ramucirumab para câncer gástrico avançado ou GEJ utilizando o bloqueador de VEGFR-2 no tratamento de segunda linha. O outro estudo, Regard, mostrou que o uso simples de ramucirumab aumentou significativa a sobrevida de 3,8 a 5,2 meses quando combinado ao melhor tratamento. Rainbow é a maior pesquisa de fase III para uma tratamento de segunda linha para adenocarcinoma gástrico avançado e GEJ até hoje.  “Ao final do estudo, houve um delta de 2,3 meses. Não parece muito longo, mas em um tratamento de segunda linha isso é um grande ganho de sobrevida”, afirma o líder da pesquisa, Hansjochen Wilke, da Kliniken Essen-Mitte Center of Palliative Care, na Alemanha. A FDA concedeu ao ramucirumab prioridade na revisão dos status em outubro de 2013, para a inclusão como opção de tratamento de segunda linha para pacientes com câncer gástrico avançado. A decisão final do órgão deve ser divulgada ainda no início de 2014.

O segundo dia de palestras, dedicado aos cânceres no pâncreas, no intestino delgado e no trato hepatobiliar, trouxe tanto resultados positivos como outros não tão animadores. As boas notícias ficaram por conta do estudo clínico de fase II sobre a inclusão de Debiri, combinado com Folfox, no tratamento de câncer colorretal com metástase hepática inoperável. Os testes apontaram para redução dos tumores e uma subsequente ressecção em mais de um terço dos pacientes. Análises dos primeiros resultados mostraram que uma quantidade significativamente maior de pacientes que receberam Debiri tiveram uma resposta positiva ao tratamento em comparação ao grupo de controle, tanto em 2 meses (79% vs 54%), como em 4 meses (91% vs 59%) e 6 meses (83% vs 64%). Além disso, 14 dos pacientes tratados com Debiri (35% do grupo) tiveram ressecção, enquanto no grupo de controle 5 pacientes atingiram esse nível (representando 16% dos participantes).

Os resultados da pesquisa Evolve-1 não foram tão positivos. Segundo o médico Andrew X. Zhu, do Massachusetts General Hospital Cancer Center, que apresentou os resultados do estudo, não houve grande diferença nas taxas de sobrevida entre os pacientes submetidos ao tratamento e o grupo medicado com placebo. Enquanto o primeiro grupo apresentou taxa média de sobrevida de 7,6 meses, o segundo obteve 7,3 meses com o placebo. Evolve-1 é uma pesquisa randomizada, controlada por placebo e de fase III, que reuniu 546 pacientes adultos com carcinoma hepatocelular (HCC) avançado que tiveram a progressão da doença após o tratamento com sorafenibe.

O último dia de palestras e debates se concentrou na discussão das pesquisas relacionadas aos cânceres de cólon e de reto. Um dos destaques foi a palestra de Marc Peeters, do Antwerp University Hospital, na Bélgica, que mostrou que um teste genético mais extenso para as mutações do gene RAS, além da análise de rotina do KRAS exon 2, pode se tornar, em breve, o novo padrão para identificar quais pacientes podem se beneficiar da terapia anti-EGFR para o CRC mestático (mCRC). As pesquisas coordenadas por Peeters corroboram os resultados obtidos por outros estudos clínicos, como o Prime e o Peak em relação à eficácia do panitumumab no tratamento de primeiro linha. Resultados semelhantes para cetuximab como opção de primeira linha também foram apresentados no simpósio, fundamentados na reanálise de dados de Fire-3, Opus e Crystal. “Baseado em todos esses dados que vem sendo descobertos, fica claro que hoje nós precisamos do teste de RAS ao invés do de KRAS exon 2 antes de decidir pelo tratamento anti-EGFR em pacientes com mCRC”, afirmou Peeters.

Outro resultado de destaque no último dia da conferência foi o da pesquisa clínica randomizada de fase III GCR-3, conduzida na Espanha, que pendeu a balança a favor da quimioterapia de indução seguida de quimioradioterapia e, então, cirurgia, ao invés do tratamento padrão de quimioradioterapia seguida de cirurgia e então quimioterapia em pacientes com câncer retal localmente avançado. Fatores como taxas de resposta patológica completa, recidiva locorregional, recorrência distante, sobrevida livre da doença e sobrevida geral se provaram similares entre as duas abordagens em 5 anos, apesar de uma menor toxicidade aguda e uma melhor adesão ao componente dos regimes de quimioterapia ter sido identificada na abordagem de indução. Essas conclusões justificam uma comparação mais rigorosa entre as estratégias tradicional e a de indução em testes clínicos de fase III mais amplos.

A próxima edição do simpósio está programa para acontecer entre 15 e 17 de janeiro de 2015, também em São Francisco.

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