Oncologista lança um olhar delicado sobre o desafio diário de mergulhar no encontro da finitude com o infinito

 

Oncologista com residência pelo
Instituto do Câncer do Ceará;
doutorado em oncologia pelo A.C.
Camargo Cancer Center;
médica da Oncologia D’Or
(Fujiday e OncoStar);
autora do livro ‘Mamãe Tem Câncer’

Não raramente durmo e acordo pensando em um ou outro paciente. Não raramente um ou outro paciente ocupa meus sonhos. É tão profunda a reflexão que a oncologia nos traz, ela nos alcança tão intimamente, que não há como deixar a profissão dentro do consultório e dos hospitais. Nem falo da sequência permanente de duras decisões, mas do desafio de mergulhar no encontro diário da finitude com o infinito.

Sobre a finitude:

Somos todos impregnados de uma fantástica sensação de liberdade, já que crescemos ao sabor das nossas escolhas. Passamos a vida calculando os passos, analisando caminhos, desenhando projetos, construindo o futuro. Escolhemos o sorvete, a profissão, o cônjuge, o momento de ter filhos, o mês das férias, a próxima viagem. E entendemos a felicidade quase como um merecimento de quem injeta virtudes em cada decisão.

No entanto, o câncer chega e se apropria do destino de qualquer um, totalmente despregado do grau de excelência com o qual os dias anteriores foram construídos. Quase metade dos nossos pacientes terá seus olhos nos olhos do inevitável, que anula o poder das escolhas e descortina nossa impotência como indivíduos e como ciência. Independentemente de como apreendemos a morte, e se nos apoiamos em uma espiritualidade religiosa ou laica, testemunhá-la com tanta frequência definitivamente nos transforma. Nos aproxima do essencial e nos protege das ilusões, das distrações. Nos dá sede de sermos nós mesmos, inteiros, em tudo.

Sobre o infinito:

Cada paciente tem uma história única, uma doença única. Tentamos individualizar também
o tratamento. Mas há uma linha invisível que costura os pacientes com câncer, formando uma
só colcha de retalhos. Há em todos a mistura dos mesmos sentimentos. E isso os torna uma nação, com um dialeto próprio, com um significado peculiar a sentimentos universais. Medo, saudade, desespero, culpa, arrependimento. Amor. Na janela preciosa entre o diagnóstico e o desfecho (cura ou morte), a alma desabrocha. É tempo de estreitar afetos verdadeiros, de acertar contas, de encontrar a paz. Para o oncologista, é como conhecer o infinito. Na repetição infinita dos mesmos sentimentos. Mas sobretudo na infinitude que há em cada um deles.

Sobre a empatia:

Morando nessa profundidade, na clareza de que somos todos iguais, é instantâneo nos  transferirmos para a situação dos nossos pacientes. Outro dia entrou em meu consultório uma mulher da minha idade, casada, com filhos pequenos como os meus, feliz. Dias antes tinha
recebido o diagnóstico de câncer de mama metastático. Iniciamos o tratamento. Em pouco
tempo, a doença invadiu o lar: a rotina mudou. Nos dias de quimioterapia, ela já não ia buscar os filhos na escola. Em outros, não conseguia participar das refeições. O cabelo caiu. E,  entre tantas angústias, claramente a maior preocupação eram os filhos.

Mas como explicar tudo pra eles? Como dividir más notícias com quem só queremos dividir felicidade? Qual a dose certa de realidade para as crianças? Que limiar elas são capazes de ouvir sem se desorganizar? No dia que eu mesma me fiz essas perguntas, nasceu o livrinho ‘Mamãe Tem Câncer’. Claro que ele apenas é um símbolo. Poderia ser: “Papai tem câncer”, “Meu filho tem câncer”, “Vovó tem câncer”, “Meu irmão tem câncer”. Poderia se passar em uma família de pais separados, de filhos adotados, de pessoas dos palácios ou das favelas, enfim. A mensagem central é que o câncer é sempre uma doença da família inteira. E o conselho que fica é um atalho para a serenidade: precisamos de transparência. Entre médicos e pacientes, pacientes e familiares. Porque, por mais dura que seja, a verdade é o que nos prepara para enfrentar o que precisamos enfrentar. E o que dá aos que se amam uma força que supera a da morte: a força da eternidade.

A soma de tudo que vivi na minha profissão grita diariamente em meus ouvidos:

O que sou eu no tempo que tenho?

E sinto uma humilde e profunda paz quando minha alma responde: sou verdade.

Confira uma entrevista com a oncologista sobre o livrinho “Mamãe tem Câncer”.


*Texto publicado na revista Onco& 39 (Julho-Agosto-Setembro)
Acesse a edição completa aqui.

Oncologista com residência pelo Instituto do Câncer do Ceará; doutorado em oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center; médica da Oncologia D’Or (Fujiday e OncoStar); autora do livro ‘Mamãe Tem Câncer’.