O rastreamento de rotina de câncer de próstata não salva vidas suficientes para justificar a exposição de homens a riscos de morte, incontinência e impotência, disse um painel dos EUA em uma crítica no relatório de defensores dos pacientes.

Um projeto de relatório, divulgado pela Força Tarefa de Serviços de Prevenção do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, faz uma recomendação contrária aos chamados testes de PSA para homens que não têm sintomas “altamente suspeitos de câncer de próstata”.

A recomendação, se adotada após um período de comentários públicos, pode levar as seguradoras a parar de pagar por exames de sangue de medição do PSA, uma proteína que, em níveis elevados, é associada ao câncer de próstata. Os resultados também chamam a atenção sobre pesquisa de eficácia comparativa, um trabalho que avalia os benefícios de vários tratamentos médicos. A pesquisa gerou críticas durante o debate sobre a lei de cuidados de saúde norte-americana quando o mesmo painel em 2009 recomendou que as mulheres deviam começar o rastreio do câncer de mama regularmente aos 50 anos, e não aos 40.

O teste de PSA “não distingue o câncer que nunca vai fazer a diferença na vida de um homem de cânceres que vão fazer a diferença, levando muitos homens a se submeterem a tratamentos agressivos que não precisam”, disse Virginia Moyer, presidente do painel.

“Então você passa de um homem que se sente bem e que potencialmente faz parte da maioria que nunca teria sabido que tinha esta doença, para um sujeito que usa fraldas para adultos”, disse Moyer, professora de pediatria do Baylor College of Medicine, em Houston. “Isso não é insignificante.”

Recomendação diminuída

O projeto de relatório mudaria a atual avaliação inconclusiva do painel do exame de PSA para uma recomendação de que os testes não fornecem nenhum benefício ou podem fazer mais mal do que bem em homens sem sintomas do câncer de próstata, “independentemente da idade, raça ou histórico familiar”.

Segundo o relatório, o painel não avaliou o uso do teste de PSA em homens que apresentam sintomas de câncer de próstata, já foram diagnosticados ou tratados com a doença.

Os achados da força-tarefa são baseadas em “evidências desatualizadas” e podem condenar “milhares de homens a morrer este ano,” disse Skip Lockwood, diretor executivo da ZERO – Projeto para o Fim do Câncer de Próstata, grupo de advocacy de pacientes com base em Washington.

“A decisão sobre a melhor forma de testar e tratar o câncer de próstata deve ser feita entre um homem e seu médico”, disse Lockwood. “Esta decisão vem de um painel que não inclui nem mesmo um urologista ou oncologista.”

Depreciando o teste

De acordo com a Associação Americana de Urologia em Linthicum, Maryland, as recomendações podem fazer mais mal do que bem para os homens em situação de risco para a doença. “Até que haja um teste melhor e mais difundido para esta doença potencialmente devastadora, a USPSTF – por desacreditar o teste – está prestando um grande desserviço ao universo de homens que podem se beneficiar do teste de PSA”, afirmou Sushil Lacy, presidente da associação urológica.

Como a doença é de crescimento lento na maioria dos homens, a triagem para câncer de próstata tem sido objeto de controvérsia por anos. Em 2009, um estudo europeu de 182 mil homens descobriu que 48 homens eram diagnosticados e tratados para cada morte por câncer de próstata evitada. O tratamento do câncer de próstata pode causar efeitos secundários como incontinência e impotência, entre outros.

De acordo com o National Cancer Institute, estima-se que 217.730 novos casos de câncer de próstata tenham sido diagnosticados nos EUA em 2010 e a doença deve matar cerca de 32 mil pacientes.

Nova ameaça

Estudos surgidos nos últimos dois anos revelaram uma porcentagem pequena, mas crescente, de homens que foram submetidos à rotina de testes de agulha de biópsia que se tornam graves e morreram de infecções bacterianas.

Estudos em três países mostraram que as complicações infecciosas, incluindo a sepsia de biópsias de próstata, mais do que dobraram em menos de uma década. Nove em cada 10 mil homens cujos testes foram negativos morreram dentro de um mês, disseram os pesquisadores de Toronto em março de 2010 no Journal of Urology.

“O rastreamento por PSA não está apenas super-diagnosticando e super-tratando, mas agora está causando esse aumento nas infecções”, afirmou Richard J. Ablin, cientista que descobriu o PSA em 1970. “Toda a base do teste é falha porque não há nenhum nível de PSA que seja diagnóstico de câncer de próstata, porque não é específico para o câncer de próstata.”

Ablin, professor e pesquisador de patologia da University of Arizona College of Medicine, em Tucson, escreveu em março de 2010 um artigo de opinião no New York Times dizendo que “a popularidade do teste levou a um desastre extremamente caro de saúde pública.”

“Benefício mínimo”

Pesquisas sobre testes de PSA indicam que há “um benefício mínimo em termos de diminuição de mortes por câncer, não há benefício em termos de diminuição de mortalidade total, e há danos muito significativos”, disse Moyer, presidente do painel dos EUA.

Cerca de 300 a cada 1.000 homens tratados para a doença vão sofrer de incontinência urinária, impotência, ou ambos, além de algumas complicações intestinais, ela disse.
Cerca de um em cada 200 homens que obtiveram uma biópsia da próstata por causa de sua pontuação de PSA vai desenvolver uma infecção grave ou terá dificuldade para urinar, disseram pesquisadores numa revisão científica que levou às recomendações da força-tarefa. A revisão foi publicada na revista Annals of Internal Medicine.

Um em cada oito homens terá um “falso-positivo”, em que os resultados sugerem um tumor que não está lá, disseram os pesquisadores. Outros homens serão diagnosticados e tratados para cânceres de baixo risco, que não teriam prejudicado sua saúde ou encurtado as suas vidas, mesmo sem tratamento ou detecção.

Disfunção erétil

De acordo com a revisão, entre os que recebem tratamento, um em cada três que se submetem a cirurgia e um em cada sete que recebem radiação irão desenvolver disfunção erétil.

As recomendações do painel podem dissuadir os pacientes a consultar seus médicos para decidir se eles se beneficiariam de testes de PSA, disse Dan Zenka, porta-voz para a Fundação de Câncer de Próstata, em Santa Monica, Califórnia. Zenka foi diagnosticado com câncer de próstata no ano passado, aos 51 anos, depois de ter realizado exames PSA de rastreamento desde os 40 anos de idade.

“Não posso imaginar, se eu não tivesse feito a leitura do PSA, onde eu estaria hoje”, disse. “Da minha perspectiva, o PSA salvou a minha vida e vai continuar a salvá-la conforme medimos a minha resposta ao tratamento e nos atentamos para a recorrência.”

A recomendação do painel mostra que os médicos precisam de uma maneira de aplicar o teste em pacientes que podem se beneficiar mais do rastreamento, disse Christopher Logothetis, presidente do departamento de oncologia geniturinária no MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas.

“A questão é, será que passamos de um extremo – fazer o rastreamento de todos com PSA, mesmo em idades avançadas – a não medir o PSA em ninguém, porque nós estamos usando as informações de forma incorreta?”, disse Logothetis em uma entrevista.

Fonte: Business Week

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