Estudo apresentado na ASCO mostrou resultados positivos com o uso de inibidores de PARP em mulheres com mutação BRCA e tumor triplo-negativo

Um novo ensaio clínico abre caminho para o uso de inibidores de PARP como tratamento de câncer de mama. A droga testada foi a o medicamento oral olaparibe (Lynparza), já prescrito para câncer de ovário e recentemente aprovado para esse fim no Brasil. Os resultados, apresentados na ASCO 2017, foram positivos inclusive para pacientes com tumor triplo-negativo, que hoje têm poucas alternativas de tratamento disponíveis.

O ensaio clínico de fase III, OlympiAD, contou com 300 pacientes com câncer metastático e mutações BRCA, incluindo mulheres com receptores hormonais positivos e triplo negativo (negativo para receptor de estrogênio, progesterona e HER2). Pacientes HER2 negativas não foram incluídas porque já existem tratamentos efetivos para este grupo.

As pacientes tratadas com o inibidor de PARP, em dose menor que a recomendada para o tratamento de câncer de ovário, mostraram redução no risco de progressão de 42% (cerca de 3 meses) em comparação com o grupo controle, que recebeu a terapia padrão com quimioterapia (capecitabina, vinorelbina ou eribulina). Os tumores também mostraram redução de 60% com o olaparibe versus 29% observado com a quimioterapia.

“É encorajador ver que o olaparibe teve esse efeito contra o câncer de mama triplo negativo em mulheres com mutação BRCA”, disse em coletiva de imprensa o líder do estudo Mark Robson, oncologista do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York (EUA). “Esse tipo de câncer de mama é especialmente difícil de tratar e atinge geralmente mulheres mais novas.”

Cerca de 3% dos casos de câncer de mama ocorrem entre pessoas com a mutação BRCA1 ou BRCA2. Essa alteração genética diminui a capacidade da célula de reparar danos ao DNA, que podem gerar o câncer. As enzimas PARP 1 e PARP 2 também atuam no reparo do DNA. No paciente com mutação BRCA e câncer, quando o dano ao material genético ocorre, as PARP atuam de forma negativa, pois “consertam” o DNA das células malignas também, que continuam a se multiplicar favorecendo o crescimento do câncer. Por isso uma droga que inibe as PARP é benéfica para o tratamento da doença.

Robson destaca que o novo protocolo deve ter mais eficiência principalmente se usado para o tratamento de câncer metastático logo que diagnosticado. “O olaparibe melhora a qualidade de vida das pacientes, oferece uma chance de evitar a quimioterapia e seus efeitos colaterais, como queda de cabeço e baixos níveis de glóbulos brancos”, explicou, acrescentando que pode no futuro combinar a droga com agentes imunoterápicos para maior eficiência.

Para o presidente da ASCO Daniel Hayes o estudo é um grande avanço no tratamento do câncer de mama. “Aguardávamos resultados como estes há muito tempo para pacientes triplo-negativas”, disse. “O mais interessante é que agora podemos não só usar tratamento para o câncer de mama baseado em alterações genéticas do tumor, mas também em fatores herdados geneticamente que afetam o desenvolvimento da doença.”

Por Sofia Moutinho, direto de Chicago

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Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.