Uma forte dor óssea que passou do fêmur para o joelho levou Lúcia Fava ao ortopedista. “Ele recomendou fisioterapia”, recorda. Era mais de uma sessão por semana, mas a dor não passava.

Por indicação de um amigo, Lúcia resolveu fazer acupuntura. Outra investida sem sucesso. A dor continuou misteriosa por cinco meses, até o dia em que ela se tornou insuportável. “Eu travei”, conta.

Graças à insistência de um primo médico, ela fez uma série de exames até surgir o diagnóstico de mieloma múltiplo, um tipo de câncer de sangue.

Histórias iguais à de Lúcia são frequentes, conta a hematologista Ana Lúcia Cornacchioni, da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale). “Não é raro haver paciente que leva até dois anos para descobrir a doença”.

O tempo médio entre sintomas e diagnóstico ainda está sendo pesquisado pela entidade, mas os motivos que dificultam aproximar um do outro já são bem conhecidos. “O mieloma costuma atingir pessoas a partir dos 55 anos e acaba sendo confundido com outros problemas da idade”, explica a médica.

A osteoporose (ou osteopenia) é um deles. O mieloma ataca as células plasmáticas da medula óssea, responsáveis pela produção de anticorpos. No processo, é comum haver anemia e perda de massa óssea. “O paciente pode até precisar de reposição de cálcio”, aponta a hematologista.

Com os ossos frágeis, o paciente corre o risco de sofrer fraturas. Este é um sinal que facilmente confunde até médicos experientes, que se concentram no tratamento da disfunção óssea como se fosse algo da idade.

A fratura pode acontecer tanto por traumas pequenos como também por esforço repetido, a chamada fratura por estresse. O ortopedista Sergio Zylbersztejn, da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), confirma que os sintomas podem ser confundidos com uma osteoporose comum e alerta para outros problemas.

“A descalcificação dos ossos leva o cálcio para a circulação periférica e isso é muito perigoso”, afirma. Com os vasos sanguíneos cheios de cálcio, a pessoa corre risco de problemas vasculares, entre eles o infarto.

Outra suspeita que pode acontecer, segundo Zylbersztejn, é por hiperparatireoidismo, doença relacionada ao funcionamento das glândulas paratiróides e que acelera a perda de massa óssea. Para evitar diagnósticos incompletos, Ana Lúcia alerta para um detalhe importante: “Osteoporose quase nunca causa dor.”

A dor costuma ser consequência de uma eventual fratura, nos estágios mais avançados da doença. Quando a descalcificação dos ossos já começa dolorida, isso pode ser um sinal de mieloma. “Uma radiografia pode mostrar lesões nos ossos, que são capazes de provocar fraturas só da pessoa virar na cama enquanto dorme”, afirma Jane Dobbin, chefe do serviço de hematologia do Inca (Instituto Nacional do Câncer).

Tríade do mieloma

Existe uma combinação de três sintomas que favorecem o diagnóstico do mieloma múltiplo. “Dor óssea, anemia difícil de tratar e infecções por repetição (garganta, ouvido, etc)”, enumera a especialista.

Para fechar o diagnóstico, o médico pode pedir um exame de sangue chamado eletroforese de proteína. Existem ainda outros procedimentos, como a biópsia de medula.

Depois do diagnóstico, o tratamento começa com quimioterapia ou transplante de medula óssea. “Eu fiz três transplantes”, conta Lúcia, que vive há 17 anos com a doença, desde 1994.

“Os médicos disseram que teria uma sobrevida de três meses”, recorda. O susto fez ela deixar o emprego, no consultório odontológico do marido, para se dedicar à própria saúde. “As coisas eram diferentes na época, parecia que ninguém sabia lidar com a doença”, conta.

Com o diagnóstico em mãos, Lúcia ligou para seu ortopedista e falou sobre o mieloma. “Ele ficou surpreendido. Disse que nem havia imaginado”, recorda.

Apesar de não ter sofrido nenhuma fratura, Lúcia perdeu massa óssea a ponto de configurar uma osteopenia. O tratamento envolve mudança dos hábitos alimentares e, em alguns casos, até uso de suplementos de cálcio, além de exercícios.

“Hoje faço caminhada, aulas de step, de combate e de pilates”, conta. Isso dá ritmo para sua vida, com a doença sob controle. “Levo uma vida normal. Além dos exercícios, faço viagens”, diz ela, hoje com 64 anos.

O mieloma múltiplo pode ser tratado com um verdadeiro arsenal de medicamentos hoje em dia. “Existem corticóides, radioterapia, quimioterapia e transplante de medula, que aumenta a sobrevida em até 10 anos”, aponta Jane.

Fonte: iG

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