Às vezes, a guerra contra o câncer deve ser uma guerra fria, não quente. Esta é a mensagem do trabalho Prostate Cancer Intervention versus Observation Trial (PIVOT), de Timothy Wilt e colegas, publicado no New England Journal of Medicine em 19 de julho.

Os pesquisadores perguntaram: quando o câncer de próstata localizado é detectado em homens com menos de 75 anos de idade por meio do antígeno prostático específico (PSA), como é a comparação entre a ressecção cirúrgica e a observação vigilante em termos de mortalidade? Os resultados de estudo randomizado, que analisou 731 homens com indicação de cirurgia ou observação, acompanhados por dez anos, em média, mostrou que “entre os homens com doença detectada durante o início da era dos testes de PSA, a prostatectomia radical não reduziu significativamente a mortalidade do câncer de próstata, em comparação com a observação”.

Além disso, sintomas urológicos, tais como incontinência urinária e disfunção erétil foram significativamente mais comuns no grupo de intervenção cirúrgica em 2 anos. O estudo PIVOT não é perfeito. Os pesquisadores ficaram muito aquém de sua meta inicial de 2000 homens randomizados e uma proporção substancial de pacientes em ambos os grupos não foram concordantes com o tratamento atribuído.

No entanto, estes dados, juntamente com o trabalho de Gerald Andriole, Fritz Schröder e seus colegas, publicado anteriormente na mesma revista, devem ser examinados cuidadosamente por qualquer médico que cuide de homens com risco de câncer de próstata.

O diagnóstico de câncer de próstata tem causado muita disputa, em parte alimentada pela história do tratamento do investidor Warren Buffett contra a doença. Enquanto alguns meios de comunicação tratam o anúncio da detecção do câncer de Buffett através de testes de PSA e biópsia de forma acrítica, vozes discordantes são ouvidas. “Se um dos meus residentes biopsia um homem de 81 anos sem metástases gostaria de demiti-lo no local”, twittou Benjamin Davies, Professor de Urologia da Universidade de Pittsburgh. Os residentes de Davies presumivelmente tomaram nota; enquanto isso, em todo o país, eclodiu uma guerra de palavras entre a US Preventive Services Task Force (USPSTF) e a American Urological Association (AUA). Como o The Lancet publicou em junho, a recomendação da USPSTF de abandonar o PSA baseado em triagem foi recebida com indignação pela AUA, que descreveu a decisão como “inadequada e irresponsável”.

Fatos, como John Adams observou, são coisas teimosas. Mas são fatos mais teimosos do que as opiniões dos médicos – e qual é o caminho a seguir? Embora seja possível dizer, sem paixão, que o câncer de próstata é uma doença que mais se morre ‘com’ do que se morre ‘de’, o gênio do PSA agora está fora da garrafa.

Enquanto alguns médicos e pacientes podem estar despreocupados com a presença de um tumor de crescimento lento, não-sintomático, e muito possivelmente, um câncer não-fatal, outros, compreensivelmente, se sentem de forma diferente. Afinal, para alguns, é uma doença agressiva e terminal. Altas expectativas de saúde física em um sistema cada vez mais voltado ao consumo aumenta a pressão sobre os médicos para ajudar os pacientes a tomar as decisões corretas.

Os médicos não são simplesmente os guardiões de uma loja de informações, investigações e tratamentos, mas são também conselheiros. O estudo PIVOT indica a necessidade de melhores métodos de rastreio do câncer de próstata e da compreensão da doença, e fornece evidência para a observação vigilante como uma forma adequada de gestão para alguns, talvez muitos dos pacientes. É também uma oportunidade para médicos e pacientes se perguntarem o que querem da medicina.

Para a maioria, em sua história, a medicina tem sido limitada por aquilo que é possível, mas os rápidos avanços tecnológicos dos últimos 100 anos, em muitas áreas, tem revertido essa situação.

No início do século 21 os médicos se perguntam frequentemente quais investigações e intervenções devem ser feitas. O estudo PIVOT é um lembrete oportuno das imperfeições da medicina – e da vida.

Ao juramento de Hipócrates poderia ser adicionado: Eu não vou solicitar uma investigação a menos que eu esteja certo de que a resposta vai melhorar substancialmente a vida do meu paciente.

Fonte: The Lancet

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