Alectinibe possibilitou maior sobrevida, menos efeitos colaterais e grande redução de metástases cerebrais. Mas ainda não está disponível no Brasil.

Resultados de um estudo apresentado na ASCO 2017 mudam a prática médica no tratamento de câncer de pulmão não-pequenas células para pacientes com mutação ALK positiva. O ensaio clínico comparou a droga padrão crizotinibe (Xaalkori) com um inibidor de ALK mais recente, o alectinibe (Alecensa), ainda não aprovado no Brasil. Este último possibilitou uma sobrevida livre de progressão de 15 meses a mais, com menos efeitos colaterais e redução de metástase cerebral, passando a ser a recomendação de terapia.

O estudo, ALEX, contou com 303 pacientes com estágios IIIB ou IV que não tinham recebido terapia sistemática para doença. O alectinibe reduziu o risco de progressão e morte em 53%. A sobrevida livre de progressão foi de 25,7 meses em comparação com 10,4 do crizotinibe.

“Ninguém imaginava que seria possível ter um resultado tão significativo”, comentou em coletiva de imprensa a autora principal do trabalho Alice Shaw

diretora de oncologia torácica no Massachusetts General Hospital Cancer Center , em Boston. “A maioria das terapias alvo para pulmão têm em média 12 meses de sobrevida.”

Cerca de 5% dos pacientes com câncer de pulmão não-pequenas células são positivos para a fusão ALK. O crizonitibe foi o primeiro medicamento lançado para esse grupo e aprovado em 2011 nos EUA pelo FDA. Embora grande parte dos pacientes tenha uma resposta inicial positiva com a droga, ela tem muita penetração na barreira hematoencefálica, ou seja, não tem ação no cérebro, um local de frequente metástase para esse tipo de câncer.

No ensaio, o alectinibe se mostrou mais efetivo em prevenir as metástases cerebrais que o crizotinibe. Depois de 12 meses a incidência das metástases no cérebro nos pacientes que receberam a droga foi de 9% contra 41% no tratamento padrão.

O medicamento também gerou menos efeitos colaterais, em  41% dos pacientes vs. 50% com o crizotinibe. Entre os efeitos mais comuns estão a fadiga, a constipação e dores musculares tratamento padrão é conhecido por  causar problemas severos como disfunções hepáticas e gastrointestinais.

“Temos visto muitos estudos em câncer de pulmão que trazem resultados incrementais, mas este vai muito além. A redução do risco de metástase é incrível e a torabilidade alta também. Antes disso o maior evento que tínhamos visto no campo foi o estudo que comparou o crizotinibe com a quimioterapia”, comentou o oncologista Michael Sabel, especialista da ASCO.

O oncologista Carlos Gil Ferreira, do Grupo Oncologia D’Or, lembra que a droga, no entanto, não foi aprovada no Brasil e ainda pode ter um longo caminho pela frente até que isso ocorra. “O estudo traz uma mudança imediata na prática clínica, mas, infelizmente, no Brasil isso não vai ocorrer”, diz.

Por Sofia Moutinho, direto de Chicago

asco2017 receba

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.