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entrevista

Ricardo Renzo Brentani

Oncologia, pesquisa, casamento e até Deus: nada escapa da análise minuciosa de Ricardo Brentani, diretor-presidente da Fapesp e vencedor da 2a edição do prêmio Octavio Frias de Oliveira.

Mais que luxo, necessidade

Por Lilian Liang

Você pode me perguntar o que quiser, até se eu acredito em Deus.” Foi com esse convite que o oncologista Ricardo Renzo Brentani, diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), deu início à nossa conversa numa tarde de segunda-feira.

Aos 74 anos, Brentani não se esquiva das perguntas difíceis. De riso fácil e sem a aura solene que parece sempre cercar os grandes pesquisadores, esse italiano de Trieste expressa suas opiniões para quem quiser ouvir. Não tem papas na língua nem medo de pisar no calo alheio. Mesmo com jornalistas, não faz cerimônia. Desenvolveu um método: “Quando você não quer que o você falou seja publicado, é só colocar um palavrão no meio”, confessa, dando risada.

Formado em 1962 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Brentani tem um currículo que lhe permite essas pequenas extra vagâncias. Emplacou seu primeiro artigo na Nature, uma das mais conceituadas revistas científicas do mundo, quando ele ainda estava no quarto ano da faculdade, em 1960. Repetiu o feito mais três vezes: em 1964 e 1966, em parceria com sua mulher, e em 1990, com sua filha. Sua lista de artigos publicados é longa. O cientista contabiliza hoje quase 200 artigos em periódicos científicos internacionais, que foram citados cerca de 4,5 mil vezes por outros pesquisadores. Não é pouco.

Entre suas conquistas mais notáveis, duas saltam aos olhos: o desenvolvimento do projeto Genoma Humano do Câncer, financiado pela Fapesp e pelo Instituto Ludwig, que sequenciou 20 tipos de tumores e alçou o Brasil a uma posição de destaque na ciência internacional; e a transformação do Hospital do A.C. Camargo em uma das maiores referências em câncer no país.

A mola que impulsiona tudo isso, segundo Brentani, são o investimento e o incentivo à pesquisa. “A pesquisa deve ser entendida como uma ferramenta de promoção social. Não é um luxo, é uma necessidade do país”, enfatiza. Mesmo no Brasil, onde existem tantas outras prioridades? “A inteligência não tem bandeira. Não há nenhuma razão para não investir em pesquisa de ponta. Sim, os recursos no Brasil são limitados, mas você não vai me dizer que os do Obama não são”, alfineta.

Brentani acrescentou em agosto mais uma invejável linha ao seu extenso currículo: foi vencedor na categoria Personalidade em Destaque da segunda edição do prêmio Octavio Frias de Oliveira, concedido pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) em parceria com o Grupo Folha. “É sempre gratificante ver que as outras pessoas valorizam o que você faz, mas não acho que merecia o prêmio”, conta. “Só fiz o que achava que era minha obrigação fazer.”

De trás da mesa impecavelmente arrumada, Brentani dispara respostas às perguntas polêmicas como um profissional de tiro ao alvo: com destreza, precisão e firmeza. Mas, para desarmá-lo, basta falar da mulher, a química Maria Mitzi (“uma cientista bem melhor que eu, na minha opinião”), com quem está casado há meio século. O segredo para o casamento longevo? “Faço tudo que ela manda. Lá em casa, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Eu tenho muito juízo”, brinca.

Confira a seguir alguns trechos da entrevista.

Onco& – O senhor já vem há algum tempo acompanhando o desenvolvimento da oncologia no Brasil. Como estamos nos saindo?
Ricardo Brentani – Um dos grandes problemas da oncologia é que ela não é ensinada na maioria das escolas médicas do Brasil. Temos mais de 180 faculdades de medicina no país e duvido que 10 tenham um curso de oncologia na graduação. Portanto, o médico se forma sem ter noções básicas de oncologia, sem saber fazer diagnóstico e muito menos a tratar. Não é culpa dele, é culpa da escola que não ensinou. O que acontece nas escolas é que cada cirurgião ensina como “arranca o pedaço” dele. O resto ninguém ensina: se faz quimioterapia antes, depois ou durante; quais as indicações de quimioterapia e radioterapia. Isso ninguém sabe.
Não bastasse isso, metade dessas escolas não tem hospital próprio, portanto o estudante se forma médico sem ter visto o doente. Eu brinco sempre que esses médicos têm um diploma número “00 qualquer coisa” – como o James Bond, com licença para matar. Some-se à falta de hospitais o fato de dois terços das escolas não terem residência médica. Então o aprendizado que o aluno não teve na faculdade e poderia ter na residência não vai acontecer, porque não tem residência disponível para ele.

Onco& – Qual a saída?
Brentani – O MEC considera um segredo de estado, eu não entendo por que, quais as escolas de medicina que nunca conseguiram que um aluno seu fosse aprovado em algum exame de residência no território nacional. Isso, na minha opinião, deveria ser matéria de primeira página. No ano passado eu dei uma entrevista para a Folha de S. Paulo e o título da matéria era “Pode fechar metade que ninguém percebe”.
Existem hoje 320 mil médicos no Brasil. Segundo a OMS [Organização Mundial da Saúde], o Brasil precisa apenas de 180 mil. Agora, o sindicato dos médicos, do qual eu fui inimigo público número 1, está chegando à conclusão de que é preciso fechar escolas médicas, que há vagas demais, que deveria haver um filtro. Acresça a isso o fato de o crime do erro médico ainda ser muito pouco julgado no Brasil – a gente lê nos jornais, precisa matar seis moças por lipoaspiração antes de alguém tomar alguma providência. Essa é a base do problema.
Se você fala em residência de oncologia especificamente, deve haver cinco ou seis, no máximo, em todo o território nacional. Então não tem onde aprender oncologia. O que eu acho curioso, pois a mortalidade por doenças cardiovasculares está caindo. Os fatores de risco para essas doenças foram perfeitamente identificados há pelo menos 30 anos e houve um empenho muito grande da própria população, que foi alertada pela mídia para evitar fatores de risco: precisa fazer exercício, não pode ter colesterol alto, não pode ter pressão alta, não pode fumar. O Brasil é o país onde a taxa de fumantes caiu mais depressa, e isso, nosso líder máximo vai me perdoar, mas é mérito do José Serra, não do governo do PT. Se eu me lembro bem, antes de o Serra ser ministro da Saúde havia 42% de fumantes na população. Hoje deve ter 16%. Essas prevenções tiveram papel importante na redução do risco de doença cardíaca e, consequentemente, da mortalidade. Aliado a isso houve um desenvolvimento muito grande dos métodos diagnósticos de doença cardíaca, como o cateterismo, e dos métodos de tratamento também. Ninguém ganhou o prêmio Nobel por inventar o stent, mas certamente a implantação quase ambulatorial do stent reduziu a mortalidade significativamente. Em câncer, isso infelizmente ainda não aconteceu. Todo mundo sabe que fumar é ruim e os outros fatores de risco – agora já existe vacina contra hepatite, HPV, provavelmente daqui a 20 anos o câncer de colo do útero e outros sexualmente transmitidos vão diminuir muito –, mas no mais a gente sabe muito pouco. Então você tem aí um quadro muito interessante: educação dos médicos defasada e conscientização da população precária.

Onco& – O quadro não me parece muito animador.
Brentani – Existe também um fato que eu acho alarmante: câncer é doença de velho. Se observarmos a evolução da raça humana na próxima década, o número de habitantes na face da Terra não vai crescer mais do que 20%, mas a pirâmide de distribuição etária vai mudar muito, porque a expectativa média de vida está aumentando e os métodos diagnósticos e a eficiência do tratamento estão melhorando. Portanto, estima-se que nas próximas duas décadas, embora a população não vá crescer mais do que 20%, o número de casos novos de câncer no mundo dobre e o número de pessoas vivas com câncer triplique. E por uma razão mais do que óbvia, 80% dessa casuística vai acontecer no mundo em desenvolvimento, porque embora a economia do mundo desenvolvido esteja muito ruim, todos já chegaram na expectativa média de vida mais alta. É muito mais difícil aumentar a expectativa média de vida de 75 para 76 do que de 40 para 60. Então vamos, no nosso país, enfrentar uma epidemia de câncer na próxima década. Portanto a mortalidade por câncer no Brasil, em função da formação deficiente e da falta de informação da população, vai aumentar muito mais do que deveria. Já existem estudos da IARC [International Agency for Research on Cancer], que é o braço oncológico da OMS, mostrando que hoje no Brasil morre muito mais gente do que deveria. A relação entre a morbidade e a mortalidade por câncer é mais alta do que deveria ser.

Onco& – Dinheiro resolve o problema?
Brentani – O problema não é dinheiro. Vamos começar pelo começo: para câncer de colo do útero, por exemplo, já existe uma vacina que funciona. Primeiro: por que, ao invés de desperdiçar dinheiro com besteira, o governo não compra vacina para distribuir para a população carente? Qual é a população em risco para câncer de colo do útero? São as meninas de 10 a 15 anos de idade com uma condição de vida precária. São essas pessoas que deveriam ser vacinadas. “A vacina custa caro” é o argumento. Bom, então vamos negociar.
Em segundo lugar, a vacina só vai baratear. Quando a vacina contra hepatite foi lançada, era muito cara. Hoje ela está disponível até na África. Então precisa querer. Quanto está sendo gasto com campanhas inúteis… Quando a gente fala de campanha contra câncer de colo do útero, o que o governo imagina é fazer Papanicolau em todo mundo. Mas não é ético fazer o diagnóstico em alguém que não vai poder ser tratado depois. Se sabe que não vai conseguir tratar, não procure fazer o diagnóstico. Todo o enfoque da campanha de prevenção de câncer de colo do útero está errado. Nos grandes centros as mulheres de 60 anos fazem um Papanicolau a cada seis meses – isso é tolice, é jogar dinheiro fora. É preciso identificar quem é a população sob risco, e essa população tem que ser atendida e fazer o Papanicolau. Existem estudos que mostram claramente que o risco de câncer de colo do útero cai pela metade nas mulheres que fizeram um Papanicolau na vida. Acho que não preciso dizer mais nada, certo?

Onco& – O senhor falou da questão dos sobreviventes de câncer. Já chegamos a essa discussão ou ainda temos de resolver problemas básicos, como formar os médicos?
Brentani – Sim, a primeira questão é a formação profissional. O câncer é hoje a segunda causa de morte por doença. Nas escolas que têm oncologia na graduação, o curso não dura mais do que duas, quatro semanas, num curso de seis anos. Isso é ridículo. Sempre teremos que passar por essa etapa primeiro.
Mas lógico que é preciso pensar no problema, porque resolver depois que ele apareceu é muito ruim. Existe algo que se chama prevenção, que vale também para a saúde pública. Sempre digo que prevenir não é só melhor do que remediar, mas é mais barato também.
Então, se você antecipa o diagnóstico, o tratamento de um estadiamento inicial é sempre mais barato e mais eficiente do que o tratamento de um estadiamento avançado. Mas, de novo, você tem que ter certeza de que é capaz de fazer o diagnóstico e tratar adequadamente. Um hospital como o A.C. Camargo está virando superespecialista, porque uma fração crescente dos pacientes só nos procura porque não deu certo em outro lugar. É uma pena, porque câncer não é igual a unha encravada, que tira e acabou. Não é sempre que dá para resolver.
Hoje conhecemos a causa de 75% dos tumores humanos – cigarro, 35%; álcool, 15%; vírus, 10%; outros fatores ambientais, como dieta, sol, 5%; sobram 10% de hereditário. Então é preciso ter pesquisa para descobrir a causa dos outros 25%, e tem que ter muito mais prevenção do que se tem hoje. As operadoras de saúde têm uma relutância muito grande em custear prevenção, o que é uma estupidez. O Brasil ainda não se livrou da mentalidade inflacionária. Ninguém pensa que, se eu prevenir hoje toda a minha carteira, daqui a dez anos vou ter uma sinistralidade mais baixa. Quero lucrar o máximo hoje, amanhã é outro dia. É como os políticos: ninguém pensa em cinco anos, porque o mandato deles é de quatro. Então não tem esgoto, água encanada, luz, porque não vai dar para inaugurar durante o mandato.

Onco& – Diante de um quadro tão difícil, a pesquisa em câncer deve ser prioridade para países em desenvolvimento como o Brasil?
Brentani – A inteligência não tem bandeira. Não há nenhuma razão para não investir em pesquisa de ponta. Sim, os recursos no Brasil são limitados, mas você não vai me dizer que os do Obama não são. Esse argumento já peca pela raiz.
Além de tudo, é muito importante que se diga que desde o primeiro dia, do primeiro mandato do FHC, o investimento em ciência no Brasil nunca mais deixou de existir. O investimento das agências federais era espasmódico – um dia tinha dinheiro, outro não. Essa inconstância, associada a uma inflação galopante, tinha uma consequência muito ruim na qualidade e no volume da ciência brasileira. Isso não existe mais. O país gasta hoje seguramente 1,5% do PIB em pesquisa. No estado de São Paulo esse volume é ainda maior. Não é muito dinheiro, outros países investem mais que isso. No entanto, esses países têm uma comunidade científica grande; a nossa ainda é relativamente pequena. A estrutura acadêmica é complicada, há uma remuneração baixa e pouco incentivo para comercialização da sua invenção. O Brasil patenteia 100 vezes menos do que a Coreia do Sul, por exemplo.
Seja como for, o investimento das agências de governo e, principalmente, da Fapesp no estado de São Paulo, é significativo. Nenhum pesquisador brasileiro tem mais a desculpa de que não produz porque não tem dinheiro. Isso não é verdade.
A pesquisa deve ser entendida como uma ferramenta de promoção social. Não é um luxo, é uma necessidade do país. Se a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] não fizesse pesquisa, a gente não teria o domínio mundial de soja que temos hoje. Temos vários exemplos. Então está muito claro hoje que a ciência é uma prioridade de governo e merece ser apoiada – talvez não tão claro neste governo federal.

Onco& – Onde o Brasil se encaixa no cenário mundial de pesquisa em oncologia?
Brentani – A oncologia brasileira hoje deve representar entre 0,5% e 1% da ciência oncológica do mundo. Dá para melhorar muito. Segundo a Capes, o A.C. Camargo é responsável por 60% da ciência oncológica do Brasil. Não deveria ser assim, as outras instituições devem investir mais. É preciso haver mais pesquisa em oncologia no país – e a desculpa de que não tem dinheiro não cola mais.

Onco& – Muito se critica o ambiente burocrático que dificulta a pesquisa no Brasil.
Brentani – É o ambiente burocrático das instituições acadêmicas. É muito fácil culpar a Anvisa, a Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa], a alfândega, mas muita coisa se perde dentro da própria instituição: é o seu serviço de compras que não colocou o pedido na Anvisa, não providenciou a documentação na alfândega. Por isso a Fapesp, há muitos anos, resolveu ser responsável pelas importações inerentes a todos os auxílios custeados por ela para a comunidade científica do estado de São Paulo.
Não estou dizendo que não existem problemas, todo mundo tem problemas. Só para dar um exemplo: tem um amigo meu, que agora está em Miami, que é o pioneiro em pesquisa da doença da vaca louca. Ele é suíço e trabalhava na Suíça. Mas na Suíça aos 65 anos de idade você é obrigado a se aposentar, e aposentado não pode mais ter emprego nenhum na Suíça. Portanto ele foi impedido de dirigir o laboratório. Como ele ainda estava com a corda toda, resolveu se mudar para a Inglaterra.
Lá ele ficou um ano e meio no Imperial College, esperando que a comissão nacional da rainha o autorizasse a usar os camundongos transgênicos que ele mesmo havia desenvolvido. Cansado de esperar, ele foi trabalhar em Miami.
Então toda comunidade científica tem problemas: a brasileira, a suíça, a inglesa, todo mundo tem problema. Mas você nunca vai encontrar alguém que diga: meu problema é que eu sou burro, que eu sou vagabundo. O problema foi sempre um outro que criou.

Onco& – Existe incentivo à pesquisa por aqui?
Brentani – Eu digo sempre uma coisa: no Brasil a gente não precisa ser bom. A gente vira estável quando defende o doutorado. Você faz concurso público para entrar na universidade, passa no concurso, vira estável. Qual é o requisito para passar no concurso? Tem que ter grau de doutor. Então vai trabalhar para quê? O problema é que não se tem a pressão que se tem nos EUA para ser bom. Nos EUA você ganha um salário pequeno, o tenure, e complementa isso com seu auxílio à pesquisa. Então se você não consegue ganhar o auxílio à pesquisa você está fulminado, para não usar outra palavra. Então tem que ser bom – senão vai ser outra coisa, não dá para ser cientista, porque você tem que garantir o feijão das crianças.
Aí olhamos para a universidade pública brasileira. Todo mundo diz que a USP é a melhor universidade pública do Brasil. Mas quando se analisa a fração dos docentes da USP que produzem cientificamente não dá 25%. Os outros 75% fazem o quê? Isso quem me disse foi um ex-reitor da USP, não fui eu que inventei. Então trabalhar para quê? E tem o reverso da medalha: se eu publico na Nature, eu ganho alguma bonificação, muda meu salário, ganho uma secretária? Não. Então para que publicar?
Na universidade privada, a razão para não fazer é a mesma: é porque também não precisa fazer. Pegue uma universidade que não tem nenhum curso que tirou C no ENEM, só D. Acontece alguma coisa para aquela universidade? Não. Então para que fazer força? Não falta trouxa. Naquela entrevista da Folha, o repórter me perguntou por que essas escolas de medicina prosperam. E foi exatamente isso que eu disse: porque não falta trouxa. Essas coisas é que atrasam a ciência.
Apesar disso, o Brasil hoje é o 13o produtor de ciência no mundo. Se você pensar em termos de impacto médio das publicações, as publicações brasileiras pareiam com as da Argentina, do Chile. Se pegar o estado de São Paulo em particular, a produção por cientista pareia com Espanha, Portugal, Canadá.

Onco& – Que lições podemos tirar do sucesso do A.C. Camargo?
Brentani – A primeira lição, óbvia, é que o A.C. Camargo é um instituto de ensino e pesquisa. Ele de fato faz pesquisa. É o único hospital privado que é um dos institutos de ciência e tecnologia do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. É o único hospital privado que é um dos CEPIDs [Centro de Pesquisa,
Inovação e Difusão] da Fapesp, que tem pós-graduação para mestrado e doutorado credenciada no MEC. O que isso trouxe para o hospital? Um corpo clínico de peso, com boa parte engajada por vocação no ensino e na pesquisa. Isso tem, necessariamente, uma repercussão na qualidade da medicina e traz uma imagem favorável do hospital. É um modelo que funciona, por isso que o Sírio [Hospital Sírio-Libanês] e o Einstein [Hospital Israelita Albert Einstein] criaram seus institutos de ensino e pesquisa. A lição é esta: ensino e pesquisa são importantes porque melhoram a qualidade da medicina que se pratica. E melhorar a qualidade da medicina que se pratica é importante porque dá dinheiro. [A atriz] Marlene Dietrich dizia que há muitas outras coisas na vida além do dinheiro, mas todas custam caro. (risos)
Acho que o que foi muito importante foi a implantação dessa filosofia de uma instituição de ensino e pesquisa, e isso me permitiu atrair bons garotos, como eu os chamo, e criar um corpo clínico com essa vocação.

Onco& – O que significa ter recebido o prêmio Octavio Frias de Oliveira, na categoria Personalidade em Destaque?
Brentani – É sempre gratificante ver que as outras pessoas valorizam o que você faz. Mas, na hora em que recebi o prêmio, disse que achava que não merecia, porque eu só havia feito o que achava que era minha obrigação fazer. “Ah, mas você fez bem-feito”, alguns dizem. Sim, mas a obrigação é fazer bem-feito. Eu sou um privilegiado, porque o que faço me diverte. Meu pai me dizia que eu era vagabundo, porque trabalho é só o que enche o saco. Eu adoro o que faço e isso não me desobriga de fazer bem-feito. Outro dia estava conversando com um amigo, dizendo que eu estava ficando velho. Ele perguntou: “Mas você ainda fica bravo quando a revista recusa um artigo seu ou só seus alunos ficam?”. Respondi que sim. “Ah, então você não está velho!”

Onco& – Já que o senhor deu a deixa: acredita em Deus?
Brentani – (risos) Não muito. Eu acho que era muito mais fácil acreditar em Deus quando se dizia que tinha trovoada porque Deus estava bravo. Quando apareceu uma explicação científica para a trovoada ficou mais complicado. Eu acredito numa força superior que criou o universo, mas não acho que ele está demais preocupado com uns seres vivos, num planeta de quinta categoria, girando em em volta de uma estrela mixa como o Sol. Deve ter mais coisa aí.


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