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Ana Cristina Pinho Mendes Pereira

O desafio de ser a primeira mulher à frente do Inca
Ana Cristina Pinho Mendes Pereira, diretora-geral do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), assumiu
o cargo em setembro de 2016 com o objetivo de fazer mais com menos e enfrentar a austeridade econômica que aflige o setor
da saúde
Por  Regiane de Oliveira
A médica Ana Cristina […]

O desafio de ser a primeira mulher à frente do Inca
Ana Cristina Pinho Mendes Pereira, diretora-geral do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), assumiu
o cargo em setembro de 2016 com o objetivo de fazer mais com menos e enfrentar a austeridade econômica que aflige o setor
da saúde

Por  Regiane de Oliveira

A médica Ana Cristina Pinho Mendes Pereira assumiu a direção-geral do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva  (Inca) em meio a uma polêmica: a saída de Luís Fernando Bouzas, profissional com 33 anos de carreira do Inca, exonerado após ocupar o cargo por apenas 11 meses. Como primeira mulher à frente do Inca, em quase 80 anos da instituição, Ana Cristina sabe que tem o desafio de “fazer mais com menos”, a fim de manter e aprimorar a qualidade dos serviços de uma das mais importantes instituições de prevenção e combate ao câncer do país, em meio a uma realidade de austeridade econômica. Para isso, conta com a experiência de quem escolheu o Inca como instituição para desenvolver sua carreira profissional, em 2010. Em uma entrevista exclusiva à revista Onco&, a médica conta como se deu seu início de carreira, o foco em oncologia e os passos para devolver ao Inca a posição de protagonista na luta contra o câncer no Brasil.

Onco& – Como começou seu interesse pela medicina?
Desde criança, sou fascinada por tudo ligado à área de ciências e ao corpo humano. Os testes vocacionais na adolescência apontaram para a área de saúde, e o convívio com um professor de imunologia da UFF me levou a cursar medicina nessa universidade, com a intenção de ser
pesquisadora na área de imunologia. A ida para o hospital universitário e o início das matérias do ciclo profissional, entretanto, despertaram o interesse pela área clínica. Durante o internato optei pela anestesiologia, após pensar em especialidades como cardiologia, nefrologia, terapia intensiva e anatomia patológica. Informando-me com anestesistas sobre os centros de especialização no Rio, o Inca foi apontado como o melhor deles. Prestei o concurso em 1992, fui aprovada e concluí a residência em 1995. Fui contratada, em 1997, pela Fundação Ary Frauzino, e em 2010 fui aprovada no concurso público específico para o Inca e tornei-me servidora federal.

Onco& – E quanto à oncologia?
Ana Cristina – Quanto à escolha da área oncológica, a verdade é que eu não escolhi exatamente a área, mas sim o Inca como instituição. O interessante é que, com a oncologia, acabei resgatando aquele interesse antigo em imunologia, genética, pesquisa – que têm tudo a ver com câncer. Hoje, a própria especialidade (anestesiologia) está inserida em um contexto muito mais amplo, o da medicina perioperatória, com destaque especial na cirurgia oncológica – em que se começa a considerar a oncoanestesia como uma nova subespecialidade. Existe atualmente um consórcio internacional de instituições ligadas a estudos na área de oncoanestesia, e o Inca é o representante do Brasil.

Onco& – A área médica já há muito tempo tem uma participação grande de mulheres, mas poucas ainda em posição de liderança. Como primeira mulher a chefiar o Inca, quais os desafios que espera encontrar?
Existem evidências de que, à medida que o ganho financeiro de uma determinada profissão vai diminuindo, há uma saída dos homens e entrada das mulheres. Talvez a medicina esteja seguindo esse caminho, talvez seja a vocação da mulher para o ato de “cuidar” ou ainda o maior nível de escolaridade da população feminina. Independentemente disso, as mulheres estão se qualificando e ocupando cada vez mais espaços e aproveitando as oportunidades profissionais que surgem. É uma evolução cultural inevitável da sociedade a aceitação das mulheres em posições de liderança, até com algumas vantagens – as mulheres têm mais facilidade para realizar múltiplas tarefas, o que pode ser muito útil em algumas posições, como na direção-geral do Inca, por exemplo. Como primeira mulher à frente da instituição em quase 80 anos, os desafios com que me deparo são, felizmente, os mesmos com os quais um diretor homem se depararia. Não observei nenhum sinal de resistência ao meu gênero.
Na condição de instituição pública, com um atendimento 100% SUS, o Inca está inserido no contexto econômico atual do país. Este é o desafio principal do instituto: fazer mais com menos, mantendo e aprimorando a qualidade de seus serviços dentro de nossa realidade socioeconômica, preservando os preceitos da austeridade, transparência e eficiência. Nesse cenário, pretendemos retomar o projeto de construção do campus integrado, incrementar a pesquisa clínica aplicada à assistência, fortalecer e expandir parcerias com outras instituições mundiais de referência em oncologia, além de criar o Núcleo de Cuidado Integral (NCI) ao paciente e à força de trabalho. A perspectiva é que, à semelhança de outras instituições no mundo, as terapias complementares oferecidas pelo NCI possam contribuir para o bem-estar do cuidador e do paciente, melhorando as taxas de sucesso do tratamento.

Onco& – Há muita discussão sobre o custo na saúde e as deficiências de gestão. Afinal, em sua opinião falta dinheiro à saúde ou vivemos um problema de gestão?
Em valores absolutos, o orçamento da saúde é bilionário, mas o valor do dinheiro é sempre relativo. O problema é cultural e de gestão – uma vez que existe a ideia de que o recurso público é infinito. Isso nos leva à questão da gestão de recursos humanos, de remuneração e do modelo de gestão. O modelo público atual, aplicado à área de assistência à saúde é, de modo geral, engessado e precisa se
adaptar às novas demandas da sociedade, a fim de melhorar a qualidade do serviço prestado. Um bom exemplo dessa nova realidade é o crescimento da incidência das doenças crônicas, especialmente o câncer. As instituições envolvidas são de alto custo e devem estar comprometidas com uma maior eficiência, o que passa pela implantação de mecanismos adequados de estímulo à produtividade. Enquanto
não houver um modelo que contemple a performance institucional, nós vamos caminhar pouco.

Onco& – Nos últimos dois anos, muitas críticas foram feitas em relação a um suposto esvaziamento do Inca, que teria perdido sua liderança no combate ao câncer no Brasil ao ser substituído no colegiado gestor do Ministério da Saúde. Como a senhora avalia o papel do Inca na definição de políticas públicas para o câncer no país?
Houve, realmente, certa perda de  liderança na última década, que pode ser atribuída a diferentes fatores, internos e externos. O fato é que o Inca é o braço do Ministério da Saúde na política de atenção oncológica do SUS, e essa ligação com o Ministério da Saúde encontra-se bastante fortalecida, inclusive corroborada pelo Decreto Presidencial 8901/16, assinado em novembro, que, entre outras coisas, ratifica as atribuições do Inca – todas as políticas relacionadas a prevenção, pesquisa, diagnóstico e tratamento do câncer no âmbito do SUS são de competência do instituto.

Onco& – A campanha antitabagismo do Inca fez a taxa de fumantes do país despencar de quase 35% da população, em 1989, para uma prevalência de 10,4%, em 2015, segundo dados do sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico Vigitel. Como melhorar esse resultado?
Apesar das conquistas, o Brasil precisa reduzir para próximo de zero a experimentação de cigarros entre adolescentes, que ainda está no inaceitável patamar de 18,5%. Também precisa reverter a tendência de crescimento do uso de narguilé entre esses jovens, movidos pela ideia errônea de que esse produto não faz mal. Isso pode ser feito intensificando-se campanhas nacionais informativas sobre os riscos dos produtos de tabaco, incluindo o narguilé, e também adotando medidas regulatórias que impeçam o uso de estratégias
de mercado para atrair os jovens para o consumo desses produtos. Os cigarros, por exemplo, são hoje exibidos nos pontos de venda em embalagens bonitas, coloridas e posicionadas sempre ao lado de balas, bombons e chicletes. Não faz sentido um produto que mata dois em cada três consumidores ser exibido dessa forma. Por isso, precisamos aprovar os projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional proibindo a exibição de embalagens de produtos de tabaco em pontos de venda e obrigando a padronização das embalagens com cor e formato não atraentes, como já acontece em vários países.

Onco& – Quais outras medidas podem ajudar no combate ao tabagismo nos próximos anos?
Precisamos avançar na proibição do uso de aditivos aromatizantes usados em cigarros, narguilé e produtos similares, assim como proibir aditivos que aumentam a capacidade de a nicotina causar dependência, como é o caso da amônia e dos açúcares. Os fabricantes  usam essas estratégias para tirar o gosto ruim do tabaco, facilitar a experimentação entre jovens e garantir que a dependência de nicotina se instale logo nas primeiras tragadas. Em 2012, a Anvisa adotou uma medida proibindo o uso de aditivos em produtos de tabaco. No entanto, os fabricantes moveram uma ação de inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) e obtiveram uma liminar suspendendo o efeito da medida. É preciso que o STF julgue o quanto antes essa medida e permita que o Brasil possa avançar na redução da iniciação de jovens no tabagismo. Afinal, o tabagismo é considerado uma doença pediátrica, pois 80% dos fumantes começaram a fumar antes dos 18 anos de idade.

Onco& – Programas de rastreamento de câncer de pulmão são considerados por muitos especialistas um potencial avanço na política de prevenção. Qual a sua avaliação em relação ao rastreamento e quais são as possibilidades de implementação no SUS?
O Inca não possui um posicionamento institucional sobre rastreamento de câncer de pulmão, entretanto é importante fazer  alguns  sclarecimentos. O termo “rastreamento” de câncer significa submeter um indivíduo (ou populações) sem sinais e sintomas da doença,  istematicamente, a testes que possam detectar a presença de câncer em fase inicial ou até mesmo em uma fase pré-maligna. O objetivo do rastreamento do câncer é, prioritariamente, reduzir a mortalidade e a morbidade relacionada à doença. O rastreamento é indicado para determinados tipos de câncer, como os de colo do útero, de mama e de cólon e reto. Já para outros cânceres a indicação (ou não indicação) é objeto de intenso debate e investigações científicas. Contrariando o senso comum, todo rastreamento causa algum dano (ou malefício), alguns causam algum benefício, e muito poucos causam mais benefícios do que danos. A contabilidade ou balanço entre benefícios e danos é apurada por meio de estudos científicos, em especial os ensaios clínicos randomizados. Alguns ensaios clínicos randomizados estudaram o rastreamento do câncer de pulmão com testes como raios-x, citologia de escarro e tomografia computadorizada de baixa dose (LDCT – Low Dose Computer Tomography). Apenas um estudo mostrou qualidade suficiente para análise, e foi realizado utilizando-se LDCT em uma população restrita de fumantes adultos de alto risco. Apesar da redução de 20% da mortalidade (benefício), o percentual de testes falso-positivos chegava a 95% (dano). Estudos de modelagem epidemiológica apontam valores de 10% sobre diagnóstico e morte por câncer de pulmão induzido pela radiação do exame em menos de 1% (outros possíveis danos). São necessários estudos para verificar a aplicabilidade (viabilidade) e a efetividade desse método no Brasil. Até lá, como estratégia de saúde pública, é mais indicado manter as ações de prevenção e cessação do tabagismo e a oferta de tratamento especializado para os tumores sintomáticos.

Onco& – As análises de custo-efetividade dos tratamentos vêm aumentando no Brasil, especialmente em função das novas terapias que estão surgindo para o tratamento do câncer. Como o Inca absorve essas ferramentas?
O Inca tem um núcleo de avaliação de tecnologia em saúde que tem implementado alguns projetos na área de custo-efetividade. O instituto
também tem contribuído com a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) com vistas a pareceres para a incorporação de novas terapias ou procedimentos na área oncológica no SUS.

Onco& – A pesquisa sobre câncer tem sofrido bastante com os cortes de custos na área da saúde. Como o Inca está se adaptando a essa nova realidade?
Ana Cristina – Os grupos de pesquisa do Inca têm buscado associações entre os diferentes grupos de pesquisa, dando maior robustez e competitividade aos projetos a serem submetidos às agências de fomento. As parcerias internacionais também têm permitido auxiliar na captação de recursos para a pesquisa em câncer no Inca.

Onco& – Como a senhora avalia o papel do Inca na formação de oncologistas?
Ana Cristina – O Inca é, sem dúvida alguma, o maior centro formador de recursos humanos em oncologia da América Latina. Anualmente, temos mais de 300 médicos cursando nossos programas de formação em oncologia, além de mais de 100 profissionais das outras categorias, bem como dezenas de técnicos. Essa tradição na formação de recursos humanos na área da oncologia atende o Brasil como um todo, pois temos alunos oriundos de todos os estados da federação, o que contribui muito para a nucleação do desenvolvimento da
atenção oncológica no país.

Onco& – Quais os principais desafios da formação nos dias de hoje?
Ana Cristina – A formação de um oncologista hoje em dia é longa e custosa, levando à formação de um profissional com elevado grau de especialização, mas também com grande conhecimento de áreas que são fundamentais, como bases farmacológicas para o tratamento oncológico, a genética e, mais recentemente, a imunologia. Estamos falando de uma formação que pode levar até 13 anos como um todo,  desde a graduação, e que necessita de um parque tecnológico moderno, bem como de um ambiente no qual a pesquisa esteja fortemente inseridano contexto da formação desse profissional, a fim de que ele possa acompanhar as inovações da área. Infelizmente, os profissionais vêm da graduação com pouco conhecimento sobre a oncologia como um todo, uma vez que ainda formamos, na graduação, profissionais na área da saúde mais preparados para lidar com o Brasil do passado do que com os principais problemas de saúde com os quais irão se deparar na população, que são as doenças crônicas não transmissíveis. O câncer em especial, além de ser caro tanto no diagnóstico
quanto no tratamento, requer um cuidado permanente e multidisciplinar. Temos que lembrar sempre que o câncer será a primeira causa de morte no Brasil na próxima década, e precisamos não somente formar mais profissionais na área como também difundir na graduação o ensino em cancerologia. Além disso, precisamos de mais centros especializados de formação em oncologia, a fim de atender, com a logística necessária, a transição epidemiológica que estamos enfrentando, tanto em termos profissionais como de centros de referência,
incorporação tecnológica e independência na produção de soluções nacionais na área, sempre que possível.

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Onco& Ano VII – Ed. 35

Capa:
Câncer em idosos, tratamento na medida e no tempo certos
Entrevista:
Martha Regina de Oliveira, diretora da ANS, discorre sobre o OncoRede, projeto que busca reduzir a fragmentação do cuidado nos serviços oncológicos
Panorama:
Mudanças nas regras prometem dar mais agilidade na pesquisa clínica
Do bem:
Suporte multiprofissional ajuda a melhorar a autoestima de pacientes
 

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