Mulheres submetidas a radioterapia para câncer de mama antes do uso generalizado de quimioterapia tinham risco maior de mortalidade por doenças cardiovasculares devido à exposição do coração à radiação, observaram pesquisadores.

Entre um coorte de quase cinco mil mulheres que sobreviveram por pelo menos cinco anos após o tratamento, aquelas submetidas a radiação tinham um risco de mortalidade associado a causas cardíacas 1,76 vezes maior que aquelas que nunca haviam recebido radiação, segundo Floren de Vathaire, PhD, do Instituto Gustave Roussy em Villejui, na França, e colegas.

Essas pacientes também tinham riscos de mortalidade associados a causas vasculares que eram 1,33 vezes maior, pesquisadores relataram no Journal of the American College of Cardiology.

Sabe-se há duas décadas que sobreviventes de câncer de mama submetidas a radioterapia têm risco de complicações cardiovasculares tardias, mas poucos estudos forneciam acompanhamento de longo prazo detalhado.

Num esforço para esclarecer a extensão do risco, Bouillon e colegas analisaram dados de 4.456 mulheres que inicialmente sobreviveram ao câncer depois do tratamento no Institut Gustave Roussy entre 1954 e 1984.

A idade médida das pacientes na época do tratamento era de 55 anos. A maioria tinha doença no estágio II ou III, enquanto menos de 1,5% tinha estágio IV.

Dois terços foram submetidas a radioterapia e 6% também receberam quimioterapia, que geralmente era uma combinação de metotrexato, ciclofosfamida e fluorouracil.

A ressecção de linfonodos foi feita em 88%. Entre as mulheres com comprometimento de linfonodos, quase 90% receberam radiação, comparadas a apenas cerca de 40% daquelas sem envolvimento nodal.

O seguimento médio foi de 28 anos, em cujo período houve 2.637 mortes, 421 de causas cardiovasculares.

Entre as mulheres com comprometimento linfonodal ou câncer de mama interno e que tinham probabilidade de terem sido irradiadas nos linfonodos da cadeia mamária interna, o risco de morte por causas cardíacas era 1,3 vezes maiores que aquelas que foram irradiadas apenas na parede torácica ou na mama.

Riscos cardíacos ainda mais altos também foram observados em mulheres submetidas a radioterapia na mama esquerda, sendo 1,77 vezes maior que mulheres que não receberam radiação.

Em contraste, aquelas que receberam radiação na mama direita tiveram apenas um risco aumentado pouco significativo em 1.31 vezes.

Além disso, depois de controlar para múltiplos fatores, incluindo idade, estágio do diagnóstico e quimioterapia, o risco para doença cardíaca era 1,28 vezes maior entre aquelas que receberam quimioterapia para um tumor no lado esquerdo comparado àquelas que tiveram um tumor do lado direito.

A duração do seguimento também foi relacionado a risco aumentado, indo de 0,64 entre cinco e dez anos depois do tratamento para 1,80 depois de 20 anos.

“Em nosso coorte, o risco excessivo de morte devido a radioterapia foi de 56% e 76% para todas as doenças cardiovasculares e doenças cardíacas, respectivamente”, escreveram Bouillon e colegas.

Limitações do estudo incluem possível base de seleção, já que a radioterapia poderia ter sido escolhida dependendo de fatores como idade e prognóstico, e falta de precisão no relato das mortes.

Além disso, os pesquisadores não conseguiram determinar a influência da quimioterapia na mortalidade devido a números baixos.

Num editorial, Ronald M. Witteles, médico da Stanford University, na Califórnia, observou: “O estudo representa um importante ganho para a literatura, devido à longa duração do seguimento e seu foco na contribuição da radioterapia para os linfonodos mamários internos.”

Particularmente convincente eram os dados sobre mortes de doenças como falência cardíaca ou doença vascular, que são “as mais plausíveis de influência por radiação”, de acordo com Witteles.

Apesar dessa evidência da mortalidade cardiovascular, a radiação claramente melhorou o prognóstico em câncer de mama, e avanços na técnica nas décadas recentes provavelmente aliviaram alguns riscos.

Mas hoje, clínicos e pacientes ainda enfrentam decisões difíceis sem o completo conhecimento dos riscos e benefícios de longo prazo.

“Radioterapia claramente não deve ser descartada – mas considerando os dados, devemos abordar a questão com os olhos bem abertos”, disse.

Fonte: <a href=”http://www.medpagetoday.com/Oncology/BreastCancer/24396?utm_content=GroupCL&amp;utm_medium=email&amp;impressionId=1295425625481&amp;utm_campaign=DailyHeadlines&amp;utm_source=mSpoke&amp;userid=305438″ target=”_blank”>MedPage Today</a>

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