Médico assume a presidência do Grupo Oncologia D’Or e comenta sobre seu momento atual, os investimentos e mudanças que podemos esperar sob sua gestão e as perspectivas futuras para a oncologia no Brasil.

Oncologista com carreira de renome internacional, Paulo Hoff assumiu neste ano a liderança do Grupo Oncologia D’Or como presidente da instituição, que é hoje o braço de oncologia da Rede D’Or São Luiz, a maior rede hospitalar do país. A nova empreitada se soma a uma longa lista de feitos em uma trajetória prodígio na medicina, que teve início quando Hoff ingressou na Universidade de Brasília aos 16 anos para se tornar médico. De lá para cá, Hoff, atualmente com 48 anos, se consagrou como oncologista fora do país, no Jackson Memorial Hospital da Universidade de Miami, e, mais tarde, como professor e médico titular do M.D. Anderson e diretor do Grupo de Câncer Colorretal do National Surgical Adjuvant Bowel and Breast Project (NSABP). Após a experiência nos Estados Unidos, ele retornou ao Brasil em 2006, onde passou a conciliar a clínica médica nas redes pública e privada: como diretor do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, cargo que deixou para assumir o novo posto na Oncologia D’Or, e diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), posição que mantém até hoje. Entre seus pacientes, alguns ilustres como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-vice José de Alencar.

Para completar uma atarefada jornada, Hoff mantém também o papel de pesquisador. Já  publicou mais de 200 artigos científicos em revistas internacionais, é autor de 20 livros e participou do desenvolvimento de vários medicamentos e pesquisas que ganharam repercussão internacional. Mais recentemente, esteve à frente do estudo do Icesp que testou a controversa fosfoetanolamina sintética, que vinha sendo recebida como uma “cura milagrosa” para o câncer.
Agora, Hoff tem o desafio de conciliar todas essas atividades com a missão de presidir uma das
maiores redes de oncologia do país, tentando integrar equipes médicas, clínicas e hospitais.

Nesta entrevista, o médico comenta seu momento atual, os investimentos e mudanças que  podemos esperar sob sua gestão e as perspectivas futuras para a oncologia como um todo no Brasil.

Como senhor encara o desafio de presidir o Grupo Oncologia D’Or e quais as  perspectivas para o futuro?

O desafio naturalmente é muito grande, mas encaro com grande empolgação pelo tamanho do trabalho que pode ser desenvolvido, e com grande respeito por um grupo que é, sem dúvida, um dos maiores líderes em oncologia da América Latina. O tamanho da estrutura que já está montada e a magnitude dos investimentos que estão sendo feitos asseguram que a Oncologia D’Or tenha uma relevância muito grande no cenário nacional e internacional. É uma honra muito grande ter sido convidado para liderar esse projeto.

Pode comentar sobre esse projeto? O que podemos esperar em termos de novidades e investimentos?

Trata-se de um projeto nacional ambicioso que prevê alguns investimentos importantes em tecnologia e infraestrutura. Temos prevista a inauguração de pelo menos três hospitais gerais focados no atendimento oncológico: no Rio de Janeiro – na antiga clínica São Vicente, que será modernizada –, em Brasília e em São Paulo. Estarão integradas mais de 35 clínicas que já temos espalhadas pelo Brasil hoje no grupo e clínicas novas que estão por vir. A primeira delas, a OncoStar, será inaugurada neste ano na Av. Juscelino Kubitschek, em São Paulo. Juntos, hospitais e clínicas vão oferecer tudo o que o paciente oncológico necessita, desde a consulta médica, passando por terapia, cirurgia, internação e outras demandas. Isso vai ser expandido depois para outros estados onde a Rede D’Or tem hospitais. Pretendemos espalhar a oncologia.

Os hospitais têm uma sinergia muito boa com as clínicas oncológicas, e isso é ótimo para o paciente. Essa é uma tendência atual. O ambiente ambulatorial sozinho não dá conta da assistência ao paciente oncológico, mas junto com hospitais o atendimento fica completo. Além disso, estamos investindo bastante em tecnologia. São cerca de 150 milhões de reais em novos equipamentos que reduzem o número de sessões em radioterapia e também os efeitos colaterais para o paciente. Um exemplo é o Cyber Knife, um robô de radioterapia inédito no Brasil que possui uma tecnologia mais avançada que a SBRT. Esse robô anda em torno do paciente fazendo a radioterapia. Assim, permite precisão maior do que qualquer radioterapia que temos hoje. É realmente algo muito inovador. Vamos treinar nossos médicos para usar esse equipamento e temos o compromisso de tornar isso acessível.

Como essas transformações vão impactar os pacientes e o modo como a oncologia é feita hoje no Brasil?

O fator preponderante que me fez aceitar esse convite foi a possibilidade de aplicar um trabalho sério de tamanho nacional e não somente à camada mais premium do mercado, mas também a outros segmentos da sociedade que são tratados pelo Grupo Oncologia D’Or. Liderar a Oncologia D’Or me permite participar da harmonização de condutas e desenvolver um trabalho de qualificação cada vez maior ao atendimento que é dado regionalmente e nacionalmente. A Oncologia D’Or hoje atinge sete estados. Nosso plano é que esse número aumente e queremos que, independentemente da região do Brasil e do segmento da sociedade, o paciente tenha a mesma qualidade e a mesma confiança no tratamento oncológico.

O senhor tem uma vasta experiência como oncologista nos EUA. Como vê a realidade da assistência da oncologia lá e aqui no Brasil? Ainda existem lacunas grandes?

As lacunas hoje são muito menores do que há algumas décadas. Nós tivemos uma aproximação
da qualidade dos serviços de diagnóstico e terapêuticos. Hoje o atendimento do serviço privado brasileiro é, em linhas gerais, muito próximo ao que temos nos EUA e na Europa. A oncologia que é praticada no Brasil no segmento privado não deixa nada a desejar à oncologia praticada no segmento privado nos grandes centros internacionais.

A área que temos que melhorar para nos aproximarmos mais seria o serviço público, que teve avanços mas continua com dificuldades de incorporação de novas tecnologias. Outro ponto que é relevante no Brasil é o diagnóstico precoce. Nós temos um número enorme de pacientes que desenvolvem câncer todos os anos, e infelizmente o perfil é mais tardio que nos EUA e na Europa. E nós sabemos que o resultado do tratamento está diretamente ligado ao tempo do diagnóstico. Então trabalhar com a educação para que o diagnóstico seja feito mais  precocemente é fundamental, para reduzir o custo do tratamento e permitir que nos aproximemos dos 70% de sobrevida em cinco anos, o que é visto nos EUA entre os pacientes
com câncer como um todo.

Essa diferença na detecção precoce entre os grandes centros e o Brasil se deve a que, em sua opinião? Falta de educação da população, formação dos médicos que fazem o primeiro diagnóstico ou falta de ferramentas de rastreio e detecção?

Existem várias razões para isso. Primeiro, as políticas de prevenção são mais disseminadas nos EUA que nos outros países em geral. Nós estamos nos aproximando dessas condutas, mas ainda existem diferenças. Já temos no Brasil uma conscientização da necessidade da  mamografia, do toque retal, do exame de pele, do Papanicolau. Mas ainda temos percentualmente menos pacientes fazendo detecção precoce de câncer colorretal, seja com exame de sangue oculto nas fezes, seja com colonoscopia. Ainda temos menos pacientes com síndromes familiares identificadas que elevariam o seu risco de desenvolver câncer e o desenho
de maneiras alternativas de prevenção.

Além disso, temos uma infraestrutura um pouco menos disseminada do que existe nos EUA.  Um paciente brasileiro precisa de mais tempo do momento em que procura a assistência médica até fazer o diagnóstico. Eu diria que isso não é só pela infraestrutura física menos abrangente, mas também por um aspecto cultural. Nós ainda temos no Brasil uma certa restrição ao diagnóstico do câncer, o que leva algumas pessoas a esperar bastante tempo até procurar um médico desde o momento em que tem a suspeita. Isso nós devemos tentar trabalhar, encorajando as pessoas que têm lesões crescendo, sangramentos inexplicáveis, que apresentem sintomas compatíveis com o desenvolvimento de um tumor, a procurar o auxílio médico o mais precocemente.

Dentro do novo projeto que o senhor assume, existe alguma iniciativa que busque a melhoria desses aspectos que hoje dificultam o diagnóstico precoce?

Essa mudança de cultura passa por vários aspectos. Desde educacionais, para a população em geral, até aspectos relacionados mais à prática médica. Precisamos preparar mais os nossos clínicos gerais, ginecologistas, dermatologistas e qualquer médico que tenha contato mais frequente com seus pacientes, para educá-los e para que sejam capazes de fazer esses diagnósticos precocemente. Quando falamos na Rede D’Or, ficamos empolgados com essa possibilidade em relação à educação e a expandir o atendimento precoce porque temos um corpo clínico enorme, distribuído por estados brasileiros. Nos hospitais temos unidades com pronto-socorros muito movimentados.

Essas unidades certamente são um local onde muitos pacientes vão fazer o primeiro diagnóstico de tumor, e se nós estivermos internamente capacitados para reconhecer esses casos suspeitos, seguir com o diagnóstico de uma maneira acelerada e encaminhar os pacientes para um tratamento adequado, vamos ter um impacto positivo na curabilidade dos tumores. Acho que é uma das grandes vantagens estratégicas de ter uma rede de oncologia que está intimamente associada a uma rede hospitalar que tem um foco também em atendimento emergencial.

Falamos muito de processos que podem ser melhorados com mudanças simples de organização. Mas e em relação aos custos?As novas drogas e tecnologias na área de oncologia ficam cada vez mais caras. Podemos ser otimistas nesse cenário?

Existe uma realidade de uma inflação médica muito acima da usual, e a evolução econômica vista no mundo inteiro mostra uma participação cada vez maior do setor de saúde no Produto Interno Bruto (PIB) dos países. Isso ger a um pouco de preocupação. Nos EUA, por exemplo, onde essa preocupação é maior, chegamos ao ponto de que praticamente um quinto do PIB se relaciona à indústria da saúde. Isso pode ser visto de duas maneiras. A maneira que não é positiva é de que temos cada vez mais recursos comprometidos com a saúde. Mas, na realidade, se olharmos historicamente, os setores econômicos têm ciclos. E talvez o que estejamos vendo agora seja um ciclo no qual a saúde passa a ter uma importância maior para indivíduos e a sociedade como um todo, e a participação crescente no PIB é um reflexo dessa importância. Esse aumento não é necessariamente ruim. Agora, temos realmente situações em que o aumento do custo individual dos tratamentos e instrumentos de diagnóstico torna o acesso  difícil, e aí é problemático. Se o indivíduo, que é parte dessa sociedade, não consegue
ter o benefício de um avanço da área médica, isso é muito ruim e demanda atenção da sociedade.

Falando especificamente da oncologia, a incorporação de novas tecnologias tem tido inflação até maior que a inflação médica geral. Mas o impacto da oncologia no custo total do tratamento de todas as doenças ainda é pequeno, ao contrário do que se imagina. Hoje não representa mais que 5% a 10%, dependendo da situação, do desembolso total dos gestores de saúde. O que assusta então não é o total, mas a individualidade de alguns tratamentos e procedimentos diagnósticos que estão ficando extremamente caros.

Respondendo mais diretamente, acredito que o futuro vai trazer modificações importantes nessa relação. Mas eu confio no mercado e acredito que parte dessas situações mais inusitadas de custo vai ser corrigida pelo mercado. Quando tivermos concorrência e mais indústrias oferecendo procedimentos similares e tratamentos que têm a mesma linha de atuação no paciente, o natural é que comece a haver uma redução dos custos. Já assistimos no passado a situações que pareciam insanáveis em relação a custo médico e que acabaram se tornando  corriqueiras. Nos anos 1990, quando houve a introdução da laparoscopia, por exemplo, o procedimento era caro, para poucos.

Hoje esse tipo de cirurgia é algo absolutamente normal mesmo em hospitais públicos. Depois tivemos vários outros exemplos de incorporação de tecnologias na mesma linha, em que o custo inicial foi considerado impossível e depois houve uma reorganização de custos que passou a ser razoável. Os custos realmente aumentaram bastante, mas em termos de consumo de recursos de saúde não houve ainda uma explosão. Acredito que a sociedade se organizará, a partir de iniciativas dos governos, da indústria e de entidades representativas de pacientes e médicos, para que haja um controle desse excesso que pode acontecer em alguns casos.

Além dos custos, que outros desafios o senhor pontua como mais importantes no futuro
da oncologia?

A medicina que é praticada hoje ainda não é como se espera que seja em poucos anos. Vamos ter cada vez mais uma individualização dos tratamentos. Essa individualização não é simples nem barata, mas o resultado final é um tratamento mais efetivo e de valor maior. Costumo usar um exemplo de dois inibidores de EGFR, cetuximabe e panitumumabe, que eram utilizados
para 100% dos pacientes com adenocarcinoma de cólon com doença metastática. Produtos disponíveis hoje no mercado, anticorpos monoclonais com atividade razoável, que se justificavam. Eles tinham um custo elevado e todos os pacientes eram candidatos a usá-los. Ao longo dos últimos dez anos, porém, houve a identificação de alterações moleculares de células cancerosas que levavam à resistência ao medicamento.

Hoje esses produtos podem beneficiar cerca de 40% dos pacientes, e os 60% restantes, que identificamos por exames moleculares, terão um critério de exclusão. Em termos de sociedade, o custo dos remédios não mudou, mas o que é despendido pelas fontes pagadoras caiu 60% e não houve nenhum decréscimo de benefício aos pacientes, porque os que não são tratados não teriam benefício de maneira alguma.

Essa é a realidade que a personificação da medicina, embora cara, pode trazer. Teremos a possibilidade de usarmos o que funciona para quem precisa, em vez de usar tudo para todos. O que esperamos para o futuro é que cada vez mais a decisão seja baseada em alterações  moleculares.

As novas tecnologias e métodos como a telemedicina estão ganhando cada vez mais importância. Como conciliar o uso desse tipo de tecnologia com um atendimento humanizado e próximo do paciente?

Temos hoje capacidades tecnológicas  impensáveis até poucos anos atrás. O advento da internet e a sofisticação dos sistemas de comunicação permitem quase que telepresença. Existem certas normativas dos conselhos regionais de medicina codificando como pode ser feita essa relação via telemedicina. Eu acho que a telemedicina nesse momento ainda é muito mais uma ferramenta de aprimoramento de condutas médicas do que de atendimento direto ao paciente, pelas próprias limitações do CRM. Temos a possibilidade de usarmos essas ferramentas na Rede D’Or para criarmos um sistema de troca de informações entre as diferentes unidades, permitindo que mesmo oncologistas que trabalham nas menores unidades, nos locais mais distantes, tenham acesso muito rápido a grandes especialistas da área, das nossas diversas unidades, e possam oferecer a seus pacientes a expertise não só do médico local, mas do médico a distância.

É possível que no futuro isso evolua, mas nesse momento enxergo como ferramenta para preparação do atendimento médico local. E dessa maneira você não perde em termos de humanização, porque o médico local continua sendo o médico do paciente, tendo a  responsabilidade e a relação direta, que é tão importante. Existe na medicina uma máxima de que a mão do médico encostando no paciente é um dos fatores que levam à sua melhora. Isso quer dizer que o exame físico e a formação de uma relação entre médico e paciente são fundamentais. A telemedicina ainda não permite nisso.

Como é pessoalmente para o senhor conciliar o atendimento de pacientes com esse papel de gestor e idealizador de um grande projeto, além do seu trabalho como professor e seu envolvimento com pesquisa?

Isso é algo que à primeira vista pode parecer bastante complexo, mas o médico tem em sua formação uma forte influência da área educacional e de pesquisa. Faz parte da medicina prestar
serviços como educador e pesquisador. O que eu preciso neste momento, na realidade, é concatenar os horários, porque eu continuo como professor universitário. Mas vejo com bastante naturalidade. Mantenho uma agenda pesada como médico, mas isso não me impede de estar participando de uma maneira muito ativa da evolução e do aprimoramento da gestão da Rede D’Or e Oncologia D’Or.

Tenho a felicidade de ter pessoas comigo que já estavam na Oncologia D’Or e de outras que se untaram a nós recentemente que tornam a minha tarefabem mais simples. A grande   competência do corpo administrativo da Oncologia D’Or faz com que essa tarefa se torne bem mais factível. É um desafio enorme, mas estou muito feliz. Tenho dormido pouco, mas gosto de desafios.

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.