Estudo inicial com CAR T-cells pode abrir caminho para o tratamento da doença, hoje incurável

Depois de ser aprovada para o tratamento de leucemia LLA e linfoma de não Hodgkin difuso de grandes células B, a terapia gênica com CAR T-cell continua em franca expansão com vários resultados positivos sendo divulgados no ASH 2017, maior evento médico de hematologia, que ocorre esta semana em Atlanta (EUA). Uma das novidades é uma pesquisa inicial que testou a abordagem para o tratamento de mieloma múltiplo, doença que hoje não tem cura.

A terapia CAR T-cell usa células T do sistema imune do próprio paciente, modificadas geneticamente para combater o câncer. No ensaio clínico de fase 1, 21 pacientes com a doença que receberam uma infusão das células modificadas tiveram uma resposta global de 86% após terem fracassado com o tratamento padrão em média sete vezes. Objetivo dessa fase da pesquisa foi determinar uma dose tolerável para o tratamento.

Para 18 pacientes que receberam doses maiores, a taxa de resposta foi ainda maior, de 94%, com alguns efeitos adversos não severos. Desses, 10 atingiram remissão completa, o que não é possível hoje com o tratamento padrão. Depois de um follow-up de 40 semanas, a sobrevida livre de progressão não pôde ser estabelecida e quarto pacientes tiveram piora do quadro. A média de idade dos participantes foi de 58 anos.

Apesar de ser um estudo inicial, os pesquisadores estão animados com os resultados preliminares. “Estamos felizes com esses resultados porque trata-se de pacientes para quem todas as terapias anteriores falharam”, disse à imprensa o líder do estudo James N. Kochenderfer, do Center for Cancer Research do National Cancer Institute (EUA).

Abordagem promissora

Além de não ter cura, o mieloma múltiplo, tipo de câncer que tem origem nas células do plasma da medula óssea, hoje é tratado com abordagens associadas a efeitos colaterais significativos.

“O tratamento com CAR T-cell é completamente diferente de tudo que temos hoje”, disse o pesquisador. “Temos pacientes que obtiveram uma resposta concreta por um ano sem tratamento adicional e com efeitos adversos toleráveis.”

A abordagem CAR T-cell usada no estudo teve por alvo a proteína BCMA, encontrada nas células cancerosas e nos plasmócitos normais do plasma.

Entre os efeitos colaterais mais comuns, estiveram sintomas neurológicos e baixa dosagem de células sanguíneas. Dezoito pacientes foram tratados com doses ativas de CAR-T e dois morreram de outras causas não relacionadas ao mieloma durante o estudo.

O hematologista Edvan Crusoe, da clínica Cehon, na Bahia, acredita que são de extrema importância os estudos com CAR T-cell para mieloma. “Estamos transformando a forma de transplante com esse tipo de terapia e permitindo obter respostas para pacientes que já não tinham como tratar”, comentou. “Esperamos que os estudos sigam em desenvolvimento e que em curto espaço de tempo tenhamos essa terapia disponível.”

Como funcionam as CAR T-cells

O paciente tratado com CAR-T tem suas células T extraídas do sangue, congeladas e então enviadas para laboratório onde são geneticamente modificadas para atacar as células cancerígenas. Os protocolos já aprovados nos EUA, para o tratamento da leucemia, modificam a a proteína CD19, presente na superfície de células B do sistema imunológico e alteradas na doença. As células modificadas são reintroduzidas no paciente por infusão.

 

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Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.