Estudo mostra que células cancerosas conseguem sair dos linfonodos e invadir a corrente sanguínea

Pesquisadores e médicos têm debatido se as células cancerosas infiltradas nos linfonodos podem se espalhar pelo organismo e criar metástases distantes dos órgãos de origem da doença. Uma nova pesquisa publicada na Science reforça essa ideia, mostrando, em experimentos com animais, que as células de tumor são capazes de sair dos linfonodos e invadir os vasos sanguíneos próximos, atingindo a corrente sanguínea e colonizando outras partes do corpo.

O estudo usou modelos de camundongos com câncer de mama, melanoma e sarcoma. Os pesquisadores manipularam as células de tumor implantadas nos animais para que elas passassem a expressar uma proteína fotossensível chamada dendra 2.

Essa substância é verde fluorescente e fica vermelha quando exposta a uma luz especial. Eles submeteram apenas os linfonodos a esta luz e desta maneira eles puderam rastrear o caminho das células tumorais pelo organismo dos animais.

Eles observaram que uma parcela das células que infiltraram os linfonodos invadiu os vasos sanguíneos do entorno, entrando na corrente sanguínea e colonizando o pulmão. Isso sugere que as metástases nos linfonodos podem ser fonte de metástases distantes também em humanos.

O debate sobre o papel da metástase dos linfonodos na progressão da doença está em andamento. Alguns especialistas argumentam que metástases localizadas de linfonodos têm potencial para se espalhar para órgãos distantes e que por isso deveriam ser tratadas para prevenir a metátese de órgãos distantes.

Esse debate ficou ainda mais em alta com estudos clínicos recentes que sugerem que a remoção completa dos linfonodos, além do linfonodo sentinela, não traz benefícios terapêuticos para os pacientes que receberam radioterapia adjuvante e terapias sistêmicas. Por outro lado, outros estudos mostram que a radioterapia local dos linfonodos melhora o prognóstico dos pacientes com câncer de mama inicial.

No experimento, os pesquisadores também compararam a evolução do câncer nos animais que tiveram todos os linfonodos removidos em comparação com os que tiveram apenas o sentinela retirado. Eles observaram mais metáteses nos animais que não tiveram todos retirados.

Os autores do estudo acreditam que há duas hipóteses para explicar as rotas de saída das células cancerosas dos linfonodos e o seu espalhamento: diretamente pelos nodos ou pelos vasos sanguíneos que os cercam.

Os cientistas também observaram linfonodos com lesões metastáticas de 19 pacientes com câncer de cabeça e pescoço. Do mesmo modo que o observado nos camundongos, eles encontraram células de câncer isoladas dentro dos vasos sanguíneos de 6 dos pacientes.

O cirurgião oncológico Felipe Braga comenta que a pesquisa ajuda no entendimento da metástase e pode basear novas estratégias de condução dos casos de câncer. “A melhor compreensão destes mecanismos de disseminação da doença pode levar a melhores estratégias de diagnóstico e estadiamento dos pacientes, e, como consequência, melhora nas estratégias terapêuticas, sejam cirúrgicas ou sistêmicas”, diz.

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.