Resultados preliminares de estudo apresentado na Asco 2016 apontam para novas indicações de drogas de terapia-alvo para quatro mutações conhecidas

 

E se fosse possível tratar pacientes com base em suas mutações genéticas e não no tipo de tumor que eles apresentam? Esse cenário ainda está distante segundo especialistas, mas essa mudança de paradigma começa a ganhar força com um novo estudo clínico de fase 3 cujos dados preliminares foram apresentados hoje na Asco 2016.

Batizado de My Pathway, o estudo busca identificar novas indicações para drogas-alvo voltadas a mutações já associadas a alguns tipos de cânceres. Para isso, os pesquisadores vêm avaliando a resposta de pacientes com 12 diferentes tipos de câncer ao tratamento com drogas-alvo para as mutações EGFR, HER2, BRAF e Hh – que hoje são alvo no tratamento de câncer de pulmão, mama, melanoma e carcinoma basocelular (pele), respectivamente.
A ideia por trás do estudo parte do fato de que esses biomarcadores, apesar de mais associados a esses tipos específicos de câncer, também estão presentes em outros cânceres e os pacientes podem ter resposta positiva aos tratamentos já disponíveis específicos para essas mutações.

O estudo clínico teve início em 2015 com 129 pacientes com alterações HER2, BRAF, Hn e EGFR. Todos receberam drogas-alvo específicas para suas mutações. Pacientes com HER2 foram tratados com uma combinação de trastuzumabe (Herceptin) e pertuzumabe (Perjeta); aquelas com mutações BRAF receberam vemurafenibe (Zelboraf), o grupo com Hn recebeu vismodegibe (Erivedge) e os com EGFR tratados com erlotinibe (Tarceva). Somente participaram do estudo pacientes com tumores sem indicação para essas drogas.

Desse total, 29 pacientes apresentaram resposta objetiva. Os resultados mais promissores foram observados em pacientes com mutações HER2 – 7 de 20 com câncer colorretal, 3 de 8 com câncer de bexiga e 3 de 6 com câncer biliar. Nesses, o tumor reduziu em 30% ou mais. Os pacientes com câncer biliar chegaram a ter 100% de benefício clínico e de bexiga 63%.

“É muito cedo tirar conclusões, mas os resultados são muito encorajadores para os pacientes com câncer de bexiga e biliar”, aponta o líder da pesquisa John D. Hainsworth, do Sarah Cannon Research Institute (EUA). “Respostas acima de 50% são um sinal muito forte de que o tratamento tem resultado positivo. É um indicativo inicial de que pacientes podem se beneficiar de drogas que hoje são usadas para outros tipos de câncer.”
O estudo inaugura um modelo de teste clínico que parte da mutação e não do tipo de tumor para selecionar os pacientes. “Mostramos que esse modelo de estudo clinico é válido, selecionando os pacientes de acordo com a mutação que eles têm”, afirma o pesquisador. “Esse tipo de estudo vai ajudar mais pacientes a ter benefício da medicina de precisão.”

Os resultados preliminares já influenciaram os próximos passos do estudo. O pesquisador conta que estão expandindo o recrutamento de pacientes com HER2 e BRAF. Entre os indivíduos com BRAF, um com câncer de cabeça e pescoço teve reposta de 100% ao tratamento e três, com câncer de ovário, de 75%.
O objetivo é analisar ao todo 500 pacientes. Os grupos com maiores benefícios serão analisados mais a fundo. Os pesquisadores pretendem ainda incorporar novas terapias-alvo, como o cobimetinibe, um inibidor MEK, que será associado ao vemurafenibe para pacientes com BRAF mutado.

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