O livro infantil traz de modo delicado história sobre relação de duas crianças com o diagnóstico do câncer na família

Como contar paras as crianças sobre um diagnóstico de câncer? Sobretudo se a doença tiver atingido alguém bem próximo, como a própria mãe? Como as crianças recebem esse tipo de notícia? O dilema enfrentado por muitas família é o tema do livrinho infantil “Mamãe Tem Câncer” da oncologista Ana Carolina Gifoni, da clínica Fujiday/Oncologia D’Or.
Com sensibilidade e de modo lúdico, a médica conta a história das famílias de Jano e Spero, dois meninos que se conhecem na escola desde o início da educação infantil e que têm em comum, além da amizade, o fato de que suas mães descobrem um câncer. A inspiração do livro veio do cotidiano da prática clínica, onde Ana carolina pôde perceber que a relação entre a mãe-paciente e os filhos merece especial atenção por parte dos profissionais e demais adultos envolvidos.

O livro toca em temas como transformações e sintomas da doença e medo da perda e da morte, enfatizando a importância do amor, da amizade, da sinceridade, das palavras e do silêncio. As ilustrações ficam por conta de Klévisson Viana e a renda das vendas é destinada a instituições que tratam de forma beneficente o câncer, como Santa Casa de Misericórdia e Grupo de Educação e Estudos Oncológicos (GEEON).

Confira uma entrevista com a autora:

Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Escrever sempre foi meu jeito de elaborar e organizar os meus sentimentos. Um dia cheguei em casa bem angustiada com a história de uma paciente e aí nasceram Jano, Spero, suas famílias e suas dores – as dores de quem convive com o câncer. Mostrei o texto pro meu esposo, que também é oncologista, e ele achou que a historia deveria chegar aos pacientes. A ideia de virar um livrinho foi dele.

Como médica, a senhora deve lidar com situações como esta diariamente, mas a experiência da própria paciente é diferente da do médico. Você já experimentou alguma situação parecida na esfera familiar que tenha te servido de inspiração para o livro?

Não. Não tenho uma história relevante de câncer na família. Mas te digo que por mais que haja um treinamento para nos mantermos emocionalmente inteiros e capazes de decisões racionais, a relação médico-paciente também é embebida de empatia. O oncologista tem o privilégio de olhar pra vida com as liçōes do câncer sem precisar ter tido a doença em si ou em seus familiares. Os nossos pacientes são assim uma inspiração para uma vida com mais significado e até para um livrinho.

Como você costuma orientar seus pacientes com filhos sobre o modo de comunicar sobre a doença?

A doença de que estamos falando é sempre da família toda, como ilustra a capa do livro. Não podemos achar que é diferente se os filhos são pequenos. As crianças sentem tudo, só não conseguem nomear. Defendo uma transparência absoluta e equilibrada.  Acredito que com verdade o desafio do câncer pode significar uma experiência humana profunda e cheia de amor.

Escrever para crianças é bem desafiante, foi sua primeira vez? Como foi esse processo? Que tipo de ajuda você teve?

Acho que as belíssimas ilustrações do Klevisson Viana fizeram a ponte entre o texto e o universo infantil. Mas eu vejo o livrinho como algo para ser lido em família. Com tempo para pausas e conversas pelas páginas. Ele é uma ferramenta para descortinar delicadamente uma realidade que pode ser traumática e iniciar um diálogo em torno do câncer, do medo, da terminalidade. Creio que possa servir também de instrumento de reflexão para adultos especialistas das mais diversas áreas (pediatras, psicólogos, oncologistas, filósofos, sociólogos).

Qual é a principal mensagem do livro?

Jano foi um deus grego das mudanças e transições. Simboliza essencialmente a capacidade de adaptação a novas realidades. Na história de Jano a principal mensagem é de resiliência. A história de Spero tece os inseparáveis fios do medo e da esperança. O medo da morte e a esperança da vida. Spero nos mostra que fica menos difícil conduzir o jogo desses sentimentos quando chega a verdade. E nos ensina que a esperança pode ser (e há de ser cada vez mais) vencedora nas histórias de câncer.

Como você vê o papel social do médico de comunicar?

Vejo como uma grande responsabilidade. Mas a comunicação do médico com o paciente, os familiares e a sociedade sofre intervenções culturais. Os tabus tentam nos desviar de palavras como câncer e morte. É papel social do médico facilitar um encontro  mais lúcido e sereno com os sentimentos fundamentais que cercam o adoecer e o morrer.

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.