Segundo um novo estudo realizado por pesquisadores do Dana-Farber Cancer Institute e publicado na edição de fevereiro do Annals of Internal Medicine, a grande maioria dos pacientes com câncer de pulmão ou colorretal incuráveis conversa com um médico sobre as suas opções de cuidados no fim da vida, mas muitas vezes não o fazem até o momento final da sua doença.

Os pesquisadores observaram que essas conversas tardias tendem a ocorrer principalmente sob condições de estresse – quando os pacientes foram internados em um hospital de cuidados intensivos. Além disso, o médico que conversa sobre cuidados no fim da vida muitas vezes é um médico do hospital, ao invés do oncologista que tratou o paciente durante grande parte da sua doença.

Os autores sugerem que, juntas, essas circunstâncias podem privar os pacientes da oportunidade de reflexão e deliberação que teria sido possível anteriormente, se a conversa tivesse ocorrido em condições menos difíceis e confusas.

“Estudos anteriores demonstraram que os pacientes que discutem suas preferências de cuidados no fim de vida com um médico são mais propensos a escolher cuidados paliativos com foco no conforto ao invés de medidas agressivas, e recebem cuidados de acordo com seus desejos”, diz o autor do estudo, Jennifer Mack, do Dana-Farber/Children’s Hospital Cancer Center. “Mas os estudos não têm olhado para o “timing” destas discussões, ou onde e com quem elas ocorrem.”

O novo estudo, que envolveu 2.155 pacientes com estádio IV (altamente avançado) de câncer de pulmão ou câncer colorretal, observou que 73% dos pacientes tiveram uma conversa sobre cuidados no fim de vida com um médico, segundo registros médicos ou entrevistas com o paciente ou companheiro. Entre os cerca de mil pacientes que faleceram e cujos registros documentam uma discussão sobre cuidados no fim da vida com um médico, o tempo médio dessas discussões foi de apenas 33 dias antes da morte.

Outras descobertas dizem respeito ao local onde as discussões ocorreram e ao tipo de médico envolvido. Das mais de mil discussões sobre cuidados no fim da vida em registros médicos, 55% ocorreram no hospital. Os oncologistas tiveram a conversa sobre cuidados no fim da vida com apenas 27% de seus pacientes em estado terminal.

Os dados para o estudo foram fornecidos pelo Cancer Outcomes Research and Surveillance Consortium (CanCORS), um estudo baseado em múltiplas regiões, populações e sistemas de saúde que envolveu mais de 10 mil pacientes com câncer pulmonar ou colorretal. Os pesquisadores entrevistaram os pacientes em dois momentos e analisaram ​​os registros médicos 15 meses após o diagnóstico.

“É encorajador ver que um percentual tão elevado de pacientes tiveram conversas sobre cuidados no fim da vida com um médico”, afirma Mack. “Há uma preocupação, porém, que muitas dessas conversas estão acontecendo tarde na trajetória da doença.”

Estudos anteriores haviam estimado que menos de 40% dos pacientes com câncer avançado tiveram discussões sobre cuidados no fim da vida. Mack teoriza que este valor mais baixo pode refletir que os estudos anteriores não registraram conversas sobre o fim da vida que aconteceram pouco antes da morte dos pacientes.

Outras pesquisas têm sugerido que os médicos podem atrasar as discussões em fim de vida de cuidados devido a uma relutância natural para abordar o assunto, ou porque entram em conflito com imagem do médico de resolver problemas e dar esperança. Apesar de tais motivações serem compreensíveis, Mack diz, elas podem trabalhar em detrimento dos pacientes se as conversas forem adiadas por muito tempo.

Mack e seus colegas estão planejando estudos futuros para examinar a qualidade e o conteúdo das conversas sobre cuidados no fim da vida e, em seguida, examinar se tais negociações tivessem acontecido no início do curso da doença poderiam ter beneficiado os pacientes.

O autor sênior do estudo é Jane Weeks, MD, MSc, do Dana-Farber. Os co-autores são Angel Cronin, MS, e Nathan Taback, PhD, do Dana-Farber; Haiden Huskamp, PhD, e Nancy Keating, MD, MPH, da Harvard Medical School; JenniferMalin, MD, PhD, da University of California, em Los Angeles, e Earle Craig, MD,MSc, do Ontario Institute for Cancer Research.

O estudo foi financiado por doações do National Cancer Institute, U.S. Department of Veterans Affairs, American Cancer SocietyNational Palliative Care Research Center.

 

Fonte: Dana-Farber Cancer Institute

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