Estudo apresentado na ASCO mostra que teste genético para o diagnóstico pode indicar aquelas pacientes que não precisam de quimio após a cirurgia, mas ferramenta não é acessível no Brasil.

 

Sete em cada 10 mulheres com o tipo mais comum de câncer de mama poderiam ser poupadas da quimioterapia após a cirurgia, de acordo com estudo a ser apresentado hoje na plenária da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que reúne os trabalhos de maior impacto do evento. Um teste genético pode ser usado para identificar as pacientes de menor risco que não precisam do tratamento, mas esse teste não está disponível no SUS nem é coberto pelos planos de saúde no Brasil.

O resultado é de um estudo de fase 3, o TailorX, que analisou mais de 10 mil mulheres com câncer de mama receptor hormonal positivo em estágio inicial e sem infiltração no linfonodo da axila. As pacientes foram submetias ao teste genético Oncotype DX® Breast Recurrence Score, que testa a expressão de 21 genes relacionados ao tumor de mama e prediz o risco de recidiva da doença. Cerca de 6.700 mostraram um risco baixo, com um score no teste de 11 a 25.

Essas mulheres de baixo risco foram randomicamente separadas em dois grupos, um que recebeu a hormonioterapia isolada e outro tratado com a hormonioterapia e a quimioterapia padrão. Os pesquisadores queriam investigar qual seria o melhor tratamento para cada faixa de risco apontada pelo teste.

Depois de acompanharem essas pacientes por 7,5 anos, os pesquisadores observaram que as mulheres sem a quimioterapia não tiveram um resultado pior que as demais. A taxa de não recidiva (metástase distante) nos dois grupos foi muito semelhante (94,5% vs. 95%), bem como a sobrevida global (93.9% vs. 93.8%) e a sobrevida livre de progressão (83.3% vs. 84.3%).

“Metade de todos os cânceres de mama são desse tipo, hormônio positivos e HER2 e linfonodo axilal negativo. Nosso estudo mostra que 70% dessas mulheres podem evitar a quimioterapia quando usamos o teste genético, limitando o tratamento mais agressivo para apenas 30% que realmente se beneficiam desse esquema”, comentou em coletiva de imprensa ao líder do estudo, Joseph Sparano do Albert Einstein Cancer Center (EUA).

Até a divulgação desses dados, o tratamento padrão era a quimioterapia associada com a hormonioterapia após a cirurgia. A quimioterapia, no entanto, além de não ter efeito para todas as pacientes, gera muitos efeitos colaterais que diminuem a qualidade de vida das mulheres. Entre os mais comuns estão a nausea, vômitos, fadiga, perda de cabelo, infecções, infertilidade e neuropatia.

O estudo também mostrou que o grupo de mulheres que pode se beneficiar da quimioterapia é composto majoritariamente por pacientes de 50 anos ou menos com um score de 16-25 no teste genético. Além disso, o ensaio indicou que as mulheres com score de 26 ou mais tiveram uma taxa de recidiva de 13%, indicando que são necessárias novas terapias para esse grupo.

Teste caro e inacessível

Os autores do estudo recomendam que qualquer mulher com câncer de mama inicial com 75 anos ou menos deve fazer o teste genético para avaliar seu risco de recidiva e receber o tratamento mais adequado após a cirurgia.  O teste, no entanto, não está disponível no Brasil.

“O Tailor X é daqueles estudos que mudam a prática imediatamente notadamente nos EUA, Europa e outros países desenvolvidos. A informação científica é robusta e definitiva, o teste genômico se junta ao MAMMAPRINT na consistência dos dados para avaliar se há maior ou menor risco de recorrência”, comenta o oncologista clínico Gilberto Amorim, da clínica Oncologia D’Or. “Pena que para a nossa realidade é um exame de exceção em função do custo.”

O médico informa que é possível acessar o teste nos EUA, mas o custo é de cerca de 13.500 reais. “Infelizmente é uma exame para a classe alta”, comenta. “Mas há tratativas e iniciativas preliminares de operadoras brasileiras em bancar o custo do exame, pois pode ser custo efetivo na nossa realidade. Numa conta simples: se de cada 10 pacientes que estão hoje fazendo quimio, sete não precisam, poderiam ser apenas três. Se somarmos o custo de três quimios mais 10 testes, pode ser menor do que o de sete quimios em 10 sem o teste. Portanto conseguiríamos poupar 7/10 das pacientes do impacto físico, psicológico e social da quimioterapia com potencial redução de custos.”

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.