Pesquisa mostra consistência entre padrões genéticos em amostras de sangue e tecido para cerca de 50 tipos de tumores.

A biopsia líquida pode ter a mesma sensibilidade que a de tecido? Resultados do maior estudo com análise de DNA tumoral circulante já conduzido, apresentado hoje na Asco, indicam que sim. A análise dos dados de tecido e sangue de mais de 15 mil pacientes com cerca de 50 tipos de tumores revelou alta sensibilidade da técnica e padrões altamente similares na distribuição de mutações.

A pesquisa utilizou a biopsia líquida por next generation sequencing (NGS) Guardant360, já disponível comercialmente no Estados Unidos. A análise identificou mutações úteis com biomarcadores associados a drogas-alvo aprovadas para uso pelo FDA em 49% de todos os pacientes participantes do estudo.

A comparação de padrões genéticos entre as amostras de sangue e de tecido foi possível em 398 pacientes, apenas aqueles que tinham resultados disponíveis da biopsia tradicional. Quando as amostras de sangue eram positivas para as mutações EGFR, BRAF, KRAS, ALK, RET, e ROS1, as mesmas mutações eram observadas no tecido em 94% dos casos.

O padrãode distribuição das mutações foi semelhante entre as amostras de tecido e de sangue.

O padrão de distribuição das mutações foi semelhante entre as amostras de tecido e de sangue.

A maioria das mutações foi observada no sangue em níveis baixos, a metade ocorreu com frequência inferior a 0,4% do total de DNA circulante. A acurácia, no entanto, permaneceu alta mesmo nesses níveis baixos. Os autores também compararam essa frequência com as já relatadas em estudos anteriores de padrão genético de tumores realizados com tecido e encontraram valores semelhantes.

A biopsia líquida detectou ainda dentre as amostras a presença da mutação T790M, associada à resistência a drogas usadas contra o câncer de pulmão. Esse tipo de alteração, que pode surgir no decorrer do avanço da doença, não foi identificada pela biopsia tradicional.

“As vantagens da biopsia líquida são inúmeras em relação a biopsia tradicional, embora ainda não possamos descartar a segunda”, disse o líder do estudo, Philip Mack, da Universidade da Califórnia em conferência para imprensa. “Essa tecnologia nos provê a oportunidade única de monitorar os mecanismos de resistência que são importantes para a terapia durante a progressão da doença.”

Hoje a biopsia líquida é mais usada na clínica após o diagnóstico do câncer, para testar mutações específicas que possuem drogas-alvo, mas também pode ser usada para monitorar a progressão da doença e para ter uma ideia mais real da heterogeneidade do tumor, que muitas vezes não é possível com a biopsia tradicional, que analisa apenas um aparte do tumor.
Uma das maiores vantagens da técnica é o fato de não ser invasiva e poder ser usada mesmo quando não é possível realizar a biopsia de tecido, por debilidade dos pacientes ou dificuldade de acesso ao tumor, como nos casos de câncer de cérebro e osso.

Restrições

O oncologista clínico Daniel Herchenhorn, do Grupo Oncologia D’Or, alerta que os resultados positivos não eliminam a necessidade da biopsia de tecido. “É compreensível o entusiasmo com essa nova tecnologia que é mesmo incrível, mas temos que ter em mente que ela não será para todo mundo nem para todos os casos. A biopsia tradicional ainda é necessária.”

Nem todos os pacientes analisados no estudo tiveram quantidade de DNA tumoral circulante suficiente para o teste e os pesquisadores observaram que a capacidade de detectar as mutações variou de acordo com o tipo de câncer. Nos pacientes com glioblastoma, por exemplo, essa detecção foi dificultada devido à barreira hemato-encefálica, que dificulta a passagem do DNA tumoral para a corrente sanguínea.

Mack conta que já está se debruçando sobre esse problema trabalhando para aumentar a sensibilidade do teste em níveis extremamente baixos de DNA.

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