Prêmio foi para dois pesquisadores cujos estudos possibilitaram o desenvolvimento de terapias contra o câncer ao estimular o sistema imune do próprio paciente

 

O prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia desse ano foi concedido ao americano James P. Allison e ao japonês Tasuku Honjo, independentemente, por suas descobertas na terapia contra o câncer pela inibição da regulação negativa do sistema imune. As pesquisas de ambos permitiram o desenvolvimento da atual imunoterapia, considerada uma revolução no tratamento oncológico e usada contra diversos tipos de tumores.

A imunoterapia se usa do sistema imune dos próprios pacientes para combater a doença. Nos anos 1990, James P. Allison estudou a proteína CTLA-4q das células T, que funciona como um “freio” do sistema imune, e desenvolveu uma nova abordagem de tratamento do câncer. Outros cientistas também abordaram a proteína, mas a ideia de Allison se destacou. Ele desenvolveu um anti-corpo que se ligava à proteína CTLA-4q e impedia sua função. A partir daí, foi possível desenvolver estratégias para retirar o “freio” das células T e liberar o sistema imune para atacar o câncer.

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O japonês Tasuku Honjo e o americano James P. Allison ganharam o Nobel de Medicina de 2018.

Seu primeiro experimento bem-sucedido foi conduzido em 1994, curando camundongos com câncer tratados com esses anticorpos. Em 2010, um importante estudo clínico mostrou o potencial da abordagem em pacientes com melanoma quando pessoas ficaram curadas e sem sinais da doença.

Alguns anos antes, em 1992, Tasuku Honjo, Universiade de Kyoto, no Japão, descobriu também nas células T a proteína PD-1 e, depois de estudar sua função, observou que ela também freava a defesa do organismo, por meio de outros mecanismos.

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Em pesquisas com animais, o bloqueio da PD-1 se mostrou promissor contra o câncer e abriu caminho para o seu uso. Em 2010, um estudo demonstrou a eficácia e a segurança de seu uso no tratamento de pacientes com diferentes tipos de câncer.

“Por mais de cem anos cientistas tentaram engajar o sistema imune na luta contra o câncer”, lembrou o Instituto Karolinska em comunicado à imprensa. “Mas até as descobertas dos dois laureados, o progresso nos desenvolvimentos clínicos tinha sido modesto. Sabemos agora que estes tratamentos mudaram fundamentalmente os prognósticos para certos grupos de pacientes com câncer.”

Revolução no tratamento

Ambas as linhas de pesquisa possibilitaram o desenvolvimento da chamada imunoterapia com inibidores de checkpoint. A mais promissora é a com inibidores de PD-1, que já se mostraram eficazes no tratamento de câncer de pulmão, rim, linfoma e melanoma.

“É graças a esses estudos que hoje temos vários medicamentos que promovem resultados nunca antes vistos no combate ao câncer”, comenta o oncologista Lucianno Santos, da Acreditar, clínica da oncologia D’Or em Brasília. “Nos últimos anos temos visto centenas de estudos com novos imunoterápicos sozinhos e em associação com quimioterapia (já aprovada em vários países e no Brasil), com terapia alvo e com mais de um imunoterápico, na tentativa de melhorar os resultados e aumentar a sobrevida dos pacientes.”

Desafios a vencer

Hoje um dos principais desafios da imunoterapia é identificar porque ela funciona para alguns pacientes e outros não e torná-la eficaz para todos. O controle dos efeitos colaterais também é uma realidade.

“Enquanto no caso do melanoma a proporção de beneficiados é muito alta, no câncer de intestino ela é de cerca de 5%”, pontua o oncologista Paulo Hoff, diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e presidente da Oncologia D’Or.

Já Santos é otimista em relação ao futuro da abordagem. “A imunoterapia é uma realidade. Esperamos que com novas pesquisas consigamos atingir mais tipos tumores e tonar a tecnologia mais barata e acessível para todos os pacientes.”

Nobel contra o câncer

Vários estudos sobre o câncer já renderam o Nobel a seus pesquisadores, incluindo técnicas de cirurgia e radioterapia. Em 1966 o prêmio foi para Charles Huggins por desenvolver métodos de terapia hormonal contra o câncer de próstata.  Em 1988, para Elion e Hitchins por avanços na quimioterapia e em 1990 para Donall Thomas pelo transplante de medula óssea.

 

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.