Estudo com participação de brasileiro mostrou que pembrolizumabe é melhor que quimioterapia em primeira linha para o tratamento de câncer de pulmão de não-pequenas células

Estudo apresentado na plenária da reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que apresenta os principais estudos do evento, traz dados da comparação entre a imunoterapia com pembrolizumabe como primeira linha de tratamento para câncer de pulmão de não pequenas células avançado e a terapia padrão com quimioterapia isolada. O ensaio aponta que a imunoterapia acarreta maior sobrevida global e livre de progressão.

O estudo de fase 3, apresentado pelo oncologista brasileiro Gilberto Lopes, do Sylvester Comprehensive Cancer Center da Universidade de Miami, contou com 1.274 pacientes com câncer metastático ou avançado que receberam uma das duas linhas de tratamento. O ensaio incluiu pacientes com carcinoma escamoso e não-escamoso, mas não aqueles com alterações genéticas já tratadas com terapia-alvo, como EGFR e ALK.

Os pacientes tratados com o pembrolizumabe com expressão de PD-L1 mostraram sobrevida maior. Aqueles com expressão da proteína de 1%, tiveram sobrevida mediana de 4 a 8 meses maior que os que receberam quimioterapia. Nos pacientes com mais de 50% de expressão de PDL-1 apresentaram sobrevida de 20 meses com o pembrolizumabe vs. 12 meses com a quimio. Naqueles com 20% ou mais de expressão tiveram sobrevida de 17 meses.

Confira uma entrevista exclusiva com Gilberto Lopes e Clarissa Baldotto

A PD-L1 é uma proteína biomarcadora que prevê a resposta aos inibidores de checkpoint, entre eles o pembrolizumabe.  Tumores com mais expressão de PD-L1 respondem melhor aos tratamentos.

O estudo é o maior já feito para analisar o uso do pembro como primeira opção de tratamento para o câncer de pulmão de não pequenas células, o tipo mais comum desse tumor.

“Esse é um estudo que muda o que já fazemos no dia a dia. Muitos pacientes com câncer de pulmão agora têm uma nova opção de tratamento com melhor eficácia e eficiência e menos efeitos colaterais que a quimioterapia padrão”, disse Gilberto Lopes. “O pembrolizumabe traz mais benefícios que a quimioterapia para dois terços de todas as pessoas com o tipo mais comum de câncer de pulmão.”

Os efeitos colaterais também foram menores com a imunoterapia, de 18% em comparação com 41%. Segundo Lopes, apenas um paciente no braço que recebeu a imunoterapia teve morte relacionada ao tratamento, mas ainda assim é possível que o óbito tenha sido devido a outras causas. “Já aprendemos a manejar a toxicidade da imunoterapia”, comentou o médico em coletiva de imprensa.

Mais testes e novos alvos

Nos EUA menos de 2% dos pacientes com câncer de pulmão fazem o teste para biomarcadores da doença. No Brasil a situação é ainda mais preocupante. Sem o teste não é possível identificar os pacientes que melhor se adequam a cada tratamento.

Outro desafio do estudo é avaliar quais pacientes deveriam receber apenas o pembro e quais deveriam receber o pembro em combinação com a quimioterapia. A resposta varia de acordo com a taxa de expressão do PD-L1. Os três grupos com diferentes níveis de expressão da proteína analisados no estudo não são suficientes para que os pesquisadores prevejam os benefícios da droga para cada pacientes com níveis específicos.

“Ainda precisamos de muito trabalho para selecionar e achar esses pacientes antes de iniciar o tratamento”, comentou Lopes. “Precisamos achar esses pacientes que se beneficiam da quimioterapia sozinha e os que se beneficiam da imunoterapia.”

O médico ressalta ainda que podem haver outros alvos melhores que o PD-L1 para analisar e outro estudo já está em andamento para avaliar o uso da droga adjuvante, após a cirurgia, e em combinação com outras imunoterapias.

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.