Resultado de estudo apresentado na ASCO vale também para pacientes com receptor de estrogênio positivo

Cerca de 50% das mulheres com câncer de mama têm o desejo de se tornarem mães após o diagnóstico, porém menos de 10% engravidam após o tratamento. Esse número se deve em parte a orientação dos próprios médicos, que até hoje acreditavam que uma gravidez após a doença poderia aumentar o risco de reincidência. Um estudo apresentado na ASCO 2017 faz cair por terra essa ideia e traz conforto a muitas pacientes.

A pesquisa analisou mais de 1.200 mulheres com câncer de mama, das quais cerca de um terço engravidou logo após a descoberta do câncer de mama. A conclusão, depois de 12 anos de follow up, foi de que as mulheres que engravidaram não apresentaram maior risco de volta do câncer do que aquelas que não engravidaram.

“Esses resultado é muito importante visto que muitas mulheres jovens estão adiando cada vez mais a data da primeira gravidez por motivos pessoais. Quando estas mulheres jovens estão diante do tratamento do câncer de mama, a gravidez costuma ser adiada, mas segundo este estudo a decisão de engravidar não aumentaria o risco para elas”, comenta o oncologista clínico Gilberto Amorim, do Grupo Oncologia D’Or.

A amostra incluiu pacientes com tumores positivos para receptores de estrogênio (RE+), que eram consideradas de maior risco. O câncer de mama RE positivo é “alimentado” pelo estrogênio, um hormônio que tem seus níveis elevados durante a gestação. Por isso o medo de que a gravidez pudesse desencadear a volta da doença nessas mulheres.

Possível ação protetora

O estudo mostra ainda que as pacientes RE+ que engravidaram tiveram uma chance 42% menor de morte do que as que não seguiram esse caminho. Os autores do estudo acreditam que a gestação pode ter um papel protetor contra a recidiva nesses casos.

“É possível que isso ocorra por meio do sistema imune ou mecanismos hormonais, mas ainda precisamos de mais pesquisa para dizer com certeza”, disse o principal autor do estudo, Matteo Lambertini, oncologista do Institut Jules Bordet em Bruxelas (Bélgica).

Amorim lembra, no entanto, que as pacientes RE+ ainda podem precisar adiar a gestação durante o tratamento, pois o tratamento adjuvante para evitar a reincidência é recomendado por cinco anos a 10 anos e não pode ser feito durante a gestação. “Tenho discutido com minhas pacientes com este perfil uma pausa no tratamento oral após 5 anos para  então tentar a gravidez”, diz. “Novos estudos estão avaliando este ‘período sabático’ para tentar gerar um filho, vamos esperar mais resultados.”

Um dos estudos em curso que investigam o impacto de uma interrupção do tratamento hormonal adjuvante para permitir a gravidez em mulheres RE positivas é o POSITIVE, cujos primeiros resultados por ser apresentados na no evento do ano que vem. O estudo apresentado na ASCO também não avalia os riscos da gravidez para o bebê, que podem ser maiores em uma gravidez de uma mulher que sobreviveu ao câncer de mama, incluindo maior chance de aborto ou nascimento prematuro.

Por Sofia Moutinho, direto de Chicago

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Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.