Tecnologia de base de dados usada para transações comerciais de Bitcoins promete revolucionar o setor ao agilizar a troca de informações de pacientes de modo privado e seguro

Por Regiane de Oliveira

Uma pessoa passa mal e vai para um hospital. Sem condições de explicar seu histórico médico,  se torna uma fonte pouco confiável para os profissionais que prestam os primeiros socorros. Como é a primeira vez que ela vai àquele hospital, não há dados para amparar o  tratamento,nem mesmo o plano de saúde conta com um prontuário compartilhado para ajudar. Esse cenário é recorrente, em maior ou menor grau de emergência, em todo o mundo. Mas uma nova tecnologia pode mudar esse quadro. Trata-se do blockchain.

É possível que você já tenha ouvido dele associado à criptomoeda Bitcoin. Ambos têm ganhado a atenção da mídia de tecnologia e finanças, e agora conquistam também espaço na saúde pela promessa de colocar o  paciente no centro do ecossistema de assistência médica, aumentando a segurança e a privacidade dos dados. O blockchain surgiu com o Bitcoin em 2008 e foi mencionado pela primeira vez no artigo “Bitcoin: A Peerto-Peer Electronic Cash System”, de Satoshi Nakamoto, pseudônimo de quem criou a moeda virtual.

Trata-se de uma ferramenta para transferir de forma segura criptomoedas, sem necessidade de um intermediário, como um banco, por exemplo, para validar a informação. Funciona como uma base de dados descentralizada, com entradas e saídas de valores, compartilhados em nuvem. Essa base é sincronizada com milhares de servidores capazes de registrar cópias dessas operações criptografas em blocos, de forma pública.

Essa tecnologia abre um novo horizonte para o armazenamento e o compartilhamento de informações clínicas de pacientes, pesquisas clínicas, prontuários eletrônicos, gerenciamento de inventários de produtos compartilhados, modelos de remuneração, controle de epidemias, entre outros.

“O paciente passa a ser o dono da informação que transitaria entre os diversos atores: clínicas, hospitais, médicos, laboratórios, pesquisa médica”, afirma Marcela Ribeiro Gonçalves, cofundadora da Blockchain Brazil Org e integrante do grupo Mulheres no Blockchain. O blockchain representa uma quebra do modelo tradicional de negócio da saúde, em que cada um dos atores é dono da informação do paciente. “As empresas estão presas a tecnologias que mantêm seu poder de reter informação e resistem a mudar a forma de se relacionar com o paciente. No blockchain, as empresas de saúde continuarão sendo prestadoras de serviço, mas com um novo orquestrador de informação”, afirma Gonçalves.

Iniciativas em curso

Vários pesquisadores têm explorado as potencialidades dessa tecnologia. A advogada Anne Chang é uma delas. Ela é coautora do paper “Blockchain and HealthIT : Algorithms, Privacy and Data“, premiado pelo governo dos EUA no Blockchain Challenge por discutir o potencial dessa tecnologia para desenvolver sistemas melhores para testes clínicos. “É possível dar mais transparência, poupar recursos, criar preditivo e empoderar o paciente. O projeto começou pela indústria farmacêutica, com foco em criar um repositório confiável com informação anônima. Por exemplo, saber das um milhão de mulheres que usam determinado medicamento, qual teve quais efeitos colaterais”, afirma Chang.

Pesquisas que hoje são feitas de forma restrita, com um pequeno número de participantes, poderão se tornar mais amplas e facilitar a busca por tratamentos mais baratos e eficientes, explica a especialista. Instituições públicas e privadas de todo o mundo têm investido nessa tecnologia. Nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA) fez uma parceria com a IBM para pesquisar aplicações do blockchain para o intercâmbio de dados de saúde, com foco inicial em oncologia. “Integrar informações pode dar um ganho absurdo do ponto de vista monetário para o governo”, afirma Gonçalves.

A também norte-americana Nebula Genomics promete utilizar a tecnologia para eliminar o intermediário e capacitar as pessoas a possuir seus dados genômicos pessoais. Eles acreditam que o blockchain poderá reduzir os custos de sequenciamento e aumentar os dados genômicos.

Já a Medicalchain, sediada em Londres, está construindo uma plataforma descentralizada baseada em blockchain para armazenar com segurança registros de saúde e compartilhá-los com médicos, hospitais, laboratórios e empresas farmacêuticas autorizadas pelos pacientes.

Projetos brasileiros

No Brasil, as iniciativas na área da saúde avançam mais lentamente, em parte porque aqui, pela legislação, empresas são proibidas de compartilhar informações médicas de clientes. Um dos projetos em andamento pretende usar o blockchain para incentivar a doação de medula óssea. “A ideia é criar uma plataforma na qual as instituições de saúde possam cruzar informações com pessoas elegíveis para doação”, explica a economista e idealizadora Samira Lopes, também integrante do grupo Mulheres no Blockchain.

Uma vez que a pessoa se disponibilizar para a doação, será recompensada em criptomoedas. Outros projetos com potencial de impacto social são o Foldingcoin e o Curecoin, que remuneram com criptomoedas quem doar a capacidade de processamento de seu computador para apoiar pesquisas em Alzheimer, câncer e zika vírus. O estudo dessas doenças envolve grande quantidade de dados. Juntando vários computadores em rede, a capacidade de processamento se torna maior. “Várias iniciativas estão em andamento fora do Brasil, e se as empresas não correrem as mudanças virão a rebote”, alerta Gonçalves.


*Reportagem publicada na revista Onco& 39 (Julho-Agosto-Setembro)
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