As coisas não andavam muito bem para a redatora publicitária Mirela Janotti. Ela tinha acabado de terminar um casamento, perdeu o emprego e, quando achava que a situação não tinha como piorar, descobriu que estava com câncer. Apesar do impacto da notícia, não se intimidou e decidiu viver mais um pouco. “Nem que fosse só para voltar a comer um hambúrguer com bacon e tomar uma cervejinha”. Fez mais do que isso: transformou a sua experiência com a doença em um relato leve e divertido.

Confira um trecho do livro “Força na Peruca – Tragédias e Comédias de um Câncer”, lançado em 2007, pela Editora Matrix.

“Segundo os otimistas, tudo de ruim que acontece na vida da gente tem um lado bom. Se o casamento terminou, pode ser a oportunidade de conhecer alguém melhor. Se você perdeu o emprego, quem sabe não vem uma proposta com mais dinheiro?
Mas, e se essas duas coisas acontecerem ao mesmo tempo? E se, para piorar, você descobrir que está com aquela doença? Aquela doença que antigamente não era nem pronunciada. Como o grande vilão de Harry Potter. Aquele que não deve ser nomeado. Haja falta de sorte. Pois comigo foi assim.
Nem o mais otimista dos meus amigos achou um lado bom quando eu disse que estava com câncer. Eles já tinham me consolado na minha separação. Já tinham ouvido meus lamentos por ter perdido um ótimo emprego. Mas que proveito eu poderia tirar de um câncer? Morrer, talvez. E depois tentar a sorte em uma próxima reencarnação. Nascer em um corpo novo, sem nenhum tumor. De preferência, na pele de alguém mais afortunado. Uma Angelina Jolie, por exemplo. Como admiro aquela mulher. Linda, famosa, bem-sucedida, livre de preconceitos e, ainda por cima, casada com um deus grego.”
“Passei alguns dias após a notícia esperando pela morte. Rezava para morrer dormindo e já acordar Angelina Jolie. Mas tudo o que eu via quando abria os olhos era a minha empregada Rosângela segurando uma bandeja com suco de beterraba. Minha mãe decidiu que quem tinha câncer deveria tomar muito suco de beterraba. Eu fechava os olhos e pedia mais meia hora, só que antes era obrigada a engolir o suco porque senão ‘perdia a vitamina’.”

“Anoitecia, amanhecia e, em vez do Brad Pitt ao meu lado na cama, a mesma Rosângela, com o mesmo suco de beterraba. Descobri então que eu não morreria só com a força do pensamento. Dia após dia eu ficava mais vitaminada, com uma feira inteira na hora das refeições: espinafre, escarola, couve, caldo de músculo, fígado, sopa de lentilhas. Decidi viver mais um pouco, nem que fosse só para voltar a comer um hambúrguer com bacon e tomar uma cervejinha.”

“Passaram-se duas cirurgias, veio a quimioterapia, e por mais incrível que pareça, fui descobrindo coisas bacanas no câncer.
Minha grande amiga Mônica Tritone me disse: ‘Se Deus te der uma folha de papel, agradeça. Diga: nossa, que máximo, eu tenho uma folha de papel’. Então, quando não tive mais meus seios, comprei outros novinhos e concluí que os artificiais eram muito mais durinhos e sensuais do que os originais de fábrica. Mostrava meus peitos novos para todo mundo. Para a família, os médicos, as enfermeiras, os amigos, o guarda da rua, o taxista.”

Para a publicitária, sua careca “era o maior style”.

“Quando não tive mais meus cabelos, comprei uma peruca loira que me deixava parecendo uma garota de programa e, talvez por isso mesmo, fazia sucesso com o sexo oposto. Na verdade, fazia mais sucesso com os míopes porque brilhava além do necessário e, dependendo da iluminação do ambiente, eu ganhava uns ares de travesti. A peruca tinha outro inconveniente: esquentava e tinha que estar sempre muito bem fixada, quase esmagando o crânio, porque senão balançava e saía do lugar.
Não cheguei a usá-la mais do que umas três ou quatro vezes, e o que acabou mesmo fazendo a minha cabeça foram os lenços. De seda, de malha, estampados, lisos, curtos, compridos. Gastei mais dinheiro com lenços do que se tivesse ido ao cabeleireiro para fazer tinturas ou chapinhas. Um dia eu saía de muçulmana, no outro de cigana, pirata, portuguesa, hippie-chic ou, então, vendedora de acarajé. Era o maior style.”

“Com o tempo, eu também aprendi a tirar proveito de algumas situações. Furava a fila do cinema dizendo com cara de coitada ao atendente: ‘Não posso ficar muito tempo em pé por causa da quimioterapia’. Imediatamente eu era acomodada no melhor lugar da sala, com direito a pipoca delivery.
Ia para a balada e jogava a mesma conversa: ‘Faço quimioterapia, senhor’. E, logo que o hostess virava as costas, eu pedia ao garçom da minha mesa vip : ‘uma caipirinha de lima-da-pérsia, por favor.’
Também pude comprar um carro bacana ao preço de um popular por ficar isenta dos impostos. Sim, alguns portadores de câncer não pagam IPI, nem IPVA. Meus amigos morriam de inveja.
Por último, voltando à história da folha de papel, escrevi este livro que, graças a você que comprou, ainda pode me render uns bons trocados.”

“Depois que o susto passou, que percebi que não iria morrer de imediato, voltei a prospectar outros quesitos. Queria um bom emprego, comecei a desejar roupas novas, e o príncipe encantado voltou a fazer parte dos meus planos. Na verdade, não precisava nem ser um príncipe, podia ser um sapo mesmo, porque careca e desprovida de sobrancelhas e cílios, eu estava, digamos assim, em promoção.”

A publicitária após o tratamento

Para saber mais sobre Mirela Janotti, acesse: http://mirelajanotti-forcanaperuca.blogspot.com/

 

Força na Peruca

184 páginas

Autora: Mirela Janotti

Matrix Editora

Preço: R$ 29, 90

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