O diagnóstico do câncer já em estado avançado, ainda uma realidade no Brasil, foi o tema central da palestra Tiago Farina Matos, diretor jurídico do Instituto Oncoguia, no primeiro dia do V Fórum Nacional de Políticas de Saúde em Oncologia, realizado e m Brasília/DF. Durante a abertura das discussões sobre como acabar com as filas no SUS de pacientes aguardando diagnóstico e tratamento, Matos lembrou que, no país, 80 por cento dos tumores de pulmão só são descobertos em estágio avançado. “Pacientes com suspeita de câncer no seio já após malograria chegam a esperar mais de 70 dias por uma biopsia, o que é muito tempo”, criticou o executivo ao falar sobre a lei dos 60 dias. Pela lei, o paciente com câncer tem de iniciar o tratamento no SUS em, no máximo, 60 dias, o que foi criticado porque o diagnóstico é muito demorado. Outra crítica feita por Matos é pela falta de equidade no SUS. “Ouve-se muito: ‘meu SUS não é igual ao seu SUS’, com pacientes escolhendo em que unidade quer ser atendido, buscando referências como o Hospital de Barretos ou o Icesp. Precisa regular melhor a distribuição de vagas para acabar com uma espécie de privilégio, montar uma espécie de Waze que informa onde há vaga, que tipo de vaga tem e direciona o paciente. Seria um sistema mais justo”, diz. “Como o Waze recalcula a rota para o motorista, um sistema único para a saúde faria o mesmo para pacientes oncológicos.”

Elaine Maria Gianotti, do DRACS, do Ministério da Saúde, disse que há inúmeras ações tentando reduzir a fila nos tratamentos do SUS, não apenas oncológicos, inclusive distribuindo a oferta de leitos, mas que são muitos os desafios. “Implementar uma política deste nível, nacional, exige regular a participação dos serviços de saúde, melhorar a articulação ente o SUS e a saúde suplementar, melhorar o transporte do paciente de um local para outro, enfim, são muitas ações coordenadas para chegar ao ideal”, explicou Elaine. A ideia é construir um protocolo de acesso ao serviço o que, segundo a executiva do MS, exige que os profissionais que usarão o sistema sejam ativos na construção do modelo para que tenham consciência e sigam este protocolo.

Marisa Madi, Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), falou da experiência em São Paulo de tentar reduzir prazos de atendimento e distribuir melhor os pacientes na rede. “Estamos no meio do processo e, por enquanto, optamos por focar as ações nos pacientes já com diagnóstico feito e, depois, vamos ampliar para os casos de suspeita. O projeto já vinha caminhando quando surgiu a lei dos 60 dias, que não é o ideal, mas é boa no sentido de colocar o tema em debate”, diz. O projeto paulista também conta com uma central para distribuir os pacientes. O retorno para o paciente tem de ser dado em até 5 dias. “A ideia é tirar muito da informalidade, de o médico sair atrás de vaga para seu paciente, ligando para as unidades, agora estamos buscando centralizar isto.” O próximo passo, diz Marisa, é formalizar a participação das unidades na rede, estabelecendo formalmente direitos e deveres, como de ter vagas disponíveis para o sistema.

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