Receptores de órgãos transplantados nos Estados Unidos têm um risco elevado de desenvolver 32 tipos diferentes de câncer, segundo um novo estudo com transplantados que descreve a gama de tumores malignos que podem ocorrer. Pesquisadores do National Cancer Institute (NCI) avaliaram dados médicos de mais de 175.700 pacientes transplantados, representando cerca de 40% de todos os receptores de transplantes de órgãos no país. Os resultados deste estudo foram publicados na edição de 2 de novembro de 2011 do Journal of the American Medical Association.

Em 2010, um total de 28.664 transplantes de órgãos foram realizados no país, entre eles 16.899 transplantes de rins, 6.291 de fígado, 2.333 de coração, e 1.770 transplantes de pulmão.

“Embora o transplante seja uma terapia salva-vidas para pacientes com estágio final da doença em órgãos, ele também coloca os receptores em maior risco de desenvolver câncer, em parte por causa dos medicamentos administrados para suprimir o sistema imunológico e evitar a rejeição do órgão. O risco de câncer entre os pacientes transplantados se assemelha ao de pessoas com infecção por HIV, cujo risco é elevado para os cânceres relacionados com infecção devido à imunossupressão”, disse o autor Eric A. Engels, MD, do Departamento de Infecções e Imunoepidemiologia, Divisão de Epidemiologia e Genética do Câncer do NCI. “Uma compreensão mais clara do padrão de risco de câncer associado ao transplante de órgão pode ajudar os pacientes a ter um futuro melhor, com resultados mais saudáveis​​”.

Sabe-se que pacientes transplantados apresentam maior risco de desenvolver câncer do que a população geral. Mas os estudos anteriores focavam, principalmente, nos pacientes que receberam transplantes de rim, e outros estudos eram pequenos demais para estimar com precisão o risco para outros tipos de câncer menos comuns. A grande abrangência deste estudo e a inclusão de beneficiários de todos os tipos de órgãos permitiu aos pesquisadores fornecer estimativas mais precisas de risco tanto para os cânceres comuns como para os tipos mais raros, utilizando uma amostra representativa da população transplantada dos Estados Unidos.

Engels e seus colegas relacionaram dados do registro de pacientes transplantados dos EUA (de 1987 a 2008) com 13 registros regionais ou estaduais de câncer. Eles observaram um risco duas vezes maior de câncer em geral entre todos os receptores de transplante, semelhante aos resultados de estudos anteriores. Os pesquisadores também observaram um risco aumentado para 32 diferentes tipos de câncer, alguns conhecidos por sua relação com agentes infecciosos (por exemplo, o câncer anal, sarcoma de Kaposi) e outros não relacionados a infecções (melanoma, câncer de tireóide).

Os pesquisadores também descobriram que os cânceres mais comuns entre os pacientes transplantados eram o linfoma não-Hodgkin (14.1% de todos os cânceres em receptores de transplante), câncer de pulmão (12,6%), câncer de fígado (8,7%) e câncer de rim (7,1%). Os autores realizaram análises adicionais destes quatro tipos de câncer e, com base em riscos conhecidos e em seu novo estudo, relataram:

·          O risco de linfoma não-hodgkin é mais de sete vezes maior em receptores de transplante, sendo a maior incidência entre os que receberam transplantes quando crianças ou em idade já avançada. Este câncer é conhecido por estar relacionado à supressão imunológica e infecções com vírus Epstein-Barr. A incidência do linfoma não-Hodgkin foi maior em receptores de transplante de pulmão, intermediária em receptores de fígado e coração, e mais baixa nos receptores de rim.

·         O risco de câncer de pulmão foi maior em receptores de pulmão, com doenças relacionadas ao tabagismo sendo muitas vezes a razão para o transplante. Estudos demostram que entre os receptores de pulmão, a maioria recebeu transplante de um único pulmão. O câncer de pulmão, no entanto, geralmente surge no pulmão remanescente do receptor, ao invés de no transplantado. O risco aumentado para câncer de pulmão também pode estar relacionado a inflamações ou infecções pulmonares crônicas.

·         O risco de câncer de fígado foi elevado somente entre os receptores de fígado. Estudos de câncer mostram que nesse grupo a ocorrência de câncer de fígado pode ser atribuída, em parte, à recorrente infecção de hepatite B ou C no fígado transplantado, ou à diabetes mellitus, que também é comum entre os pacientes transplantados.

·         O risco de câncer de rim é elevado para todos os receptores de órgãos, e existem várias razões para esse alto risco em transplantados. Beneficiários que recebem transplantes de rim têm os rins danificados, frequentemente incluindo múltiplos cistos renais, que podem se tornar cancerosos. No entanto, um risco elevado também foi observado entre os receptores de outros órgãos. Portanto, os pesquisadores sugerem que o risco de câncer de rim pode ser, em parte, devido à exposição a medicamentos imunosupressores, que podem ter efeitos cancerígenos diretos.

“Trabalhos futuros do nosso grupo vão se concentrar em cânceres específicos que ocorrem em taxas mais elevadas entre os receptores de transplantes de órgãos”, disse Engels. “Queremos entender como condições médicas e medicamentos imunossupressores individuais podem contribuir para o risco de câncer. Além disso, esperamos que nossas descobertas estimulem outras pesquisas sobre os mecanismos carcinogênicos associados ao transplante de órgãos”.

Referência: EA Engels et al. Spectrum of Cancer Risk among U.S. Solid Organ Transplant Recipients: The Transplant Cancer Match Study.  JAMA, Nov. 2, 2011.

Fonte: National Cancer Institute (NCI)

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