Um tema que aqueceu os debates na mesa redonda de abertura do V Fórum Nacional de Políticas de Saúde em Oncologia, realizado em Brasília, foi a dificuldade de se estabelecer um debate transversal para políticas de prevenção ao câncer, com referências específicas à obesidade. Patrícia Sampaio Chueiri, representante do Ministério da Saúde, em sua apresentação destacou iniciativas mais amplas do governo no campo da saúde chamando a atenção para acordos com a indústria para redução de açúcar e sódio nos alimentos, como prevenção à obesidade, cada vez mais associada a tipos específicos de câncer. “Assim como já foi feito com o tabagismo, com resultados excelentes, o Ministério está atento à obesidade e atuando de forma preventiva e também com verbas específicas para cirurgias bariátricas”, diz ela. A representante do Ministério ouviu críticas da plateia, na sessão de perguntas, com foco na necessidade de obrigar a produção de alimentos mais saudáveis, por exemplo, taxando o açúcar refinado. Segundo ela, medidas como essa não são simples de serem tomadas. “Não pense que foi fácil um acordo com a indústria para que tirem itens dos alimentos que reduzem o sabor e, portanto, as vendas, mas foi o possível. Além disso, responder ao porque as coisas não caminham diferente exigiria a presença de outros atores, como o ministério da agricultura que entende mais do tema”, afirmou.

O Oncoguia, que organizou o evento, convidou vários ministérios para tornar a discussão mais transversal, dentro da proposta do encontro, mas não conseguiu a participação. “Chamamos os ministérios da agricultura, da educação e do esporte, mas alegaram falta de agenda”, lamentou Luciana Holtz, presidente do Oncoguia que fez questão de destacar a importância da presença da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde nos debates. “Precisamos chamá-los para as discussões, para que ouçam o que temos a dizer e contribuir para melhorar o atendimento ao paciente oncológico.”

A doutora Maira Caleffi, mastologista e presidente da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) foi uma das mais críticas. “A gente vem pedindo uma conversa mais transversal, mas isto não ocorre como deveria. Precisamos nos unir, pressionar para que todos participem e sejam ouvidos. Parece que lá em cima ninguém quer pensar junto”, se queixou ela, que no evento também representou a Union for International Cancer Control (UICC). Maira foi prontamente rebatida pelo presidente do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Luiz Santini. “É com desconforto que ouço as queixas da Dra. Maira, de que não temos articulação. Nós temos sim, mas o tema é complexo. Há interesse dos diversos órgãos públicos no debate. Não e verdade a afirmação da Dra Maira de que as políticas públicas não funcionam”, afirmou Santini. Maira esclareceu sua fala afirmando que, na verdade, algumas políticas públicas realmente não funcionam, apesar de terem origem em boas iniciativas, como as leis 874 e a 876, dos 60 dias, que não dão o resultado esperado. “A ideia do atendimento multidisciplinar também é boa, mas não funciona. Tem de ter, por exemplo, suporte odontológico em alguns casos, mas não há profissionais na rede pública para isto.” E concluiu: “Lá fora o Her-2 metastático é tratado. Aqui no Brasil, os órgãos do governo dizem que não precisa. Mas não há duas ciências.”

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