Médico destaca o papel dos biossimilares na redução de custos de tratamentos e a mudança na percepção de pacientes sobre a quimioterapia

O Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica (ESMO), que ocorre esta semana em Madrid (Espanha), trouxe alguns avanços interessantes e novos dados sobre o tratamento do câncer de mama e sobre o câncer em geral. Gilberto Amorim, oncologista clínico do Grupo Oncologia D’Or e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), comenta os destaques do evento.

Biossimilares

Um dos destaques na ESMO2017, diria não só em Câncer de Mama, mas certamente para outros tipos de câncer também, como colorretal, pulmão, ovário e linfomas, foram os estudos com biossimilares apresentados (não usamos o termo genérico para drogas biológicas) no câncer de mama.
Estas drogas estão chegando para ficar, incluindo biossimilares de grandes companhias farmacêuticas com vasta experiência em moléculas inovadoras, como a AMGEN e a PFIZER. Mas também de novos players neste mercado, como SAMSUNG, CELLTRION, MYLAN e outras. Em tempos de upscaling costs, com as novas drogas imunoterápicas, essa é uma boa notícia. A expectativa é de que estes biossimilares possam reduzir o custo em 30-40%.

Já existem dados clínicos no cenário HER2 positivo metastático da droga da MYLAN desde o ano passado, mas a novidade da ESMO2017 é a chegada de estudos em cenário potencialmente curativo (neoadjuvância), que para muitos experts é o melhor modelo para estudos com biossimilares, para avaliar a bioequivalência com a droga inovadora.

Estes dados são cada vez mais robustos. Só no ESMO deste ano, até o momento, foram discutidos 4 estudos em câncer de mama inicial com mais de 2.000 pacientes (poster discussion 151,152,153,154 de câncer de mama inicial). Destaco a droga ABP980 da AMGEN (#151PD) e a SB3 da Samsung Bioepis (#153PD) avaliadas em neoadjuvância com mais de 700 pacientes cada, apresentando taxas de resposta patológica completa numericamente (mas não estatisticamente) superiores ao trastuzumabe original e com a segurança estabelecida em termos de cardiotoxicidade e imunogenicidade. A Europa, através da EMA, e os EUA, através do FDA, já estão avaliando algumas destas drogas, em especial trastuzumabe, portanto são esperadas aprovações nos próximos meses. E no Brasil não será diferente até 2018, o que facilitará o acesso.

Existem preocupações ainda com extrapolação de indicações, farmacovigilância, qualidade de manufatura, processo contínuo de distribuição, porém as agências reguladoras estão atentas e é um caminho sem volta.

Preocupação com a quimio

Outro estudo interessante apresentado nesta edição do ESMO traz uma análise do que mais preocupa as pacientes em relação à quimioterapia. O trabalho revela que os fatores psicológicos e sociais do tratamento se tornaram mais significativos para os pacientes do que os efeitos colaterais das drogas, como náuseas e vômito, que sempre estiveram no topo da lista de preocupações em estudos anteriores.

Entre as principais preocupações, a perda de cabelos continua sendo  um estigma forte para as mulheres que realizam quimioterapia, notadamente para o câncer de mama. O estudo aponta que essa é uma das cinco maiores preocupações das mulheres em tratamento (além de insônia, problemas para administrar família, filhos e trabalho, dormências nas extremidades). Outro estudo apresentado nesta ESMO mostra ainda que um número significativo (entre 3-9%) de mulheres mantém uma perda importante de cabelos mesmo após um tempo prolongado do término. Por esses e tantos outros motivos que  novas tecnologias, como a touca resfriadora do couro cabeludo para prevenir a queda de cabelo, são importantes para reduzir este drama.

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.