Apesar da tecnologia e sofisticação cada vez maiores dos exames médicos, diagnósticos errados de câncer, entre eles os falsos positivos ou falsos negativos, não são tão difíceis de acontecer. Para Riad Younes, chefe de cirurgia oncológica do Hospital São José, em São Paulo, os erros na interpretação dos dados têm várias explicações. “Uma é inerente ao próprio exame. No Hospital São José, por exemplo, percebemos limitações e erros no PET-CT (teste de imagem nuclear). O PET-CT é sofisticado, mas quando avaliamos se um câncer de pulmão se espalhou ou não, por exemplo, um quarto das vezes é falso positivo, e três quartos são câncer. O ideal é tomar muito cuidado com exames, pois todos têm suas limitações”, afirma Younes.

Em sua opinião, nenhuma área da medicina está livre de diagnósticos errados ou do falso positivo. Esse tipo de erro pode ocorrer em qualquer exame, e é ainda mais comum em casos de câncer. Por isso, ele acredita ser preciso treinar os médicos para que eles possam identificar melhor cada caso. “Aí entra a interpretação e a experiência de quem está analisando o resultado. A interpretação é feita por um oncologista, um cirurgião ou um radiologista, que pega o resultado e faz o prognóstico”.

Interpretação e experiência também foram os motivos de erros apontados pelo patologista Fernando Augusto Soares, diretor de anatomia patológica do Hospital A. C. Camargo, em São Paulo. Segundo ele, existem alguns fatores que podem influenciar no resultado. “O exame anatomopatológico é sempre interpretativo, então está sujeito a erros de interpretação. E essa interpretação depende da sua repetição, da experiência do patologista em analisar aquele material em particular. Porque você pode ser um patologista muito experiente, mas morar em uma zona endêmica de lepra, e ver pouco câncer de mama ou linfoma, por exemplo. Além disso, como em qualquer profissão, existem pessoas treinadas e outras não tão bem treinadas, laboratórios bem equipados, outros nem tanto. A junção desses três fatores pode levar a esse tipo de discordância”, diz.

Por isso, Soares acredita que os exames feitos em hospitais especializados, e não em laboratórios, podem ter resultados mais seguros, justamente pela maior experiência em casos semelhantes. “Existem mais de cem tipos de tumor. Para alguém que não trabalha em um centro especializado de câncer, a chance de se deparar com um tumor raro é mínima. De conhecer esse tumor raro, menor ainda. Esse aspecto faz com que quem tem volume sempre tenha mais experiência nesse sentido. A gente recebe uma média de 60 biópsias por dia. Algumas doenças são comuns, a gente resolve rapidamente. Outras, no entanto, vão precisar de uma reunião, de opiniões diferentes. Somos onze patologistas no hospital”, ressalta.

 

Outro aspecto criticado pelo patologista é a “dependência” das diretrizes no diagnóstico e tratamento. “O meu medo sobre a questão dos guidelines é que o sujeito da outra ponta, que não acompanha a literatura médica, pode seguir apenas o que está escrito lá, sem questionar. E se o guideline não for inteligentemente lido, se o médico fica na zona de conforto e lê aquilo como bíblia, sem fazer uma leitura crítica, isso atrasa a medicina em vinte anos. É preciso saber ler. Mas muita gente não sabe, usa aquilo como uma verdade definitiva e enterra a discussão”, diz.

 

Para Younes, em casos de dúvidas em um diagnóstico, os médicos devem procurar outros profissionais mais experientes. “Hoje em dia a medicina avançou muito. O médico generalista, que resolve tudo, não existe mais. O oncologista clínico precisa do oncologista cirúrgico para ajudá-lo a decidir o melhor tratamento, aquele que pode dar o melhor resultado”, diz.