Há  anos, Robert A. Holt, pesquisador de genômica na British Columbia Cancer Agency, se faz uma pergunta sobre câncer do cólon. Será que a doença pode ser causada, ou agravado, por uma infecção bacteriana?

Ele já sabia que os tumores de fígado, estômago e colo do útero eram relacionados a micróbios. E se há algum lugar no corpo onde há uma infinidade deles, esse lugar é o cólon: nessa região, as células microbianas superam as células humanas em uma relação de, pelo menos, nove por um.

As novas ferramentas de análise genômica ofereceram a oportunidade de procurar uma conexão. Trabalhando independentemente, Holt e outro grupo de pesquisadores descobriram algo completamente inesperado e surpreendente: uma espécie de bactéria que nunca foi particularmente prevalente no cólon parece ter uma afinidade perturbadora para os cânceres de cólon.

Os dois grupos de pesquisa descobriram a ligação através da análise de material genético de amostras de tumor. Eles, então, subtraíram os genes humanos a partir da mistura, e o que restou foram genes de micróbios.

A análise desses genes microbianos mostrou que um tipo de bactéria, fusobacterium, era abundante nos tumores, embora normalmente não esteja entre as espécies mais proeminentes no intestino. E as bactérias não estavam apenas rondando as células cancerosas. Holt descobriu, em experimentos subsequentes, que eles realmente estavam se infiltrando nas células tumorais – “o que é meio assustador”, ele disse. A habilidade de invadir as células muitas vezes é o que distingue um micróbio causador da doença de um inofensivo.

Claro, isso não prova que as fusobactérias estão causando os tumores. Elas podem apenas achar que as células cancerosas são um bom lugar para se viver.

Ao investigar mais, Holt e seus colegas descobriram que as bactérias foram especialmente prevalentes em pacientes cujo câncer se espalhou além do cólon.

A descoberta poderia ter sido uma anomalia. Mas, sem conhecimento dos resultados de Holt, Matthew Meyerson e seus colegas do Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, descobriram a mesma coisa. E enquanto pacientes de Holt eram do Canadá, os de Meyerson eram dos Estados Unidos, Vietnã e Barcelona. Todos tinham a bactéria em maior abundância em seus tumores do que em células do cólon normal.

Os dois estudos foram publicados este mês no Genome Research online.

Em seu estudo, Holt e sua equipe começaram olhando o RNA, que reflete genes ativos, de 11 pacientes com câncer de cólon. As células de câncer de cólon tinham, em média, 79 vezes mais fusobactérias do que as células normais.

Em seguida, os pesquisadores procuraram as bactérias em mais 88 tumores e em células adjacentes não-neoplásicas do cólon, usando sondas para genes de fusobactérias. Com esse método mais sensível, eles encontraram uma média de 415 vezes mais fusobactérias nas células tumorais do que nas células normais.

Meyerson e sua equipe fizeram experimentos similares, mas olharam para o DNA ao invés do RNA. Eles começaram com nove pacientes, encontrando sequências de DNA de fusobactérias principalmente no tecido neoplásico. Eles então olharam para as células de mais 95 pacientes, buscando especificamente as sequências de genes de fusobactérias. Novamente, encontraram as bactérias nas células neoplásicas.

“Eu não sei a que conclusão chegar”, disse Meyerson. “As bactérias estão ao redor do tumor, mas não tenho idéia se elas estimulam ou causam câncer.”

Os resultados são, no mínimo, provocativos, disseram microbiologistas e especialistas em câncer de cólon. David Relman, especialista em micróbios da Universidade de Stanford, disse que ficou especialmente impressionado com o fato de dois laboratórios independentes, utilizando amostras de diferentes partes do mundo, encontrarem a mesma coisa. “Eu olho para isso e penso, ‘Sim, pode haver uma associação real,” ele disse.

Se as fusobactérias predispõem seres humanos ao câncer de cólon, um dia os pesquisadores serão capazes de conceber uma vacina contra o câncer de cólon, como a vacina HPV que protege contra o câncer cervical. Fusobactérias eram conhecidas antes disso, é claro, mas eram vistas ​​como micróbios que vivem principalmente na boca – muitas vezes na placa, sendo associadas a doenças periodontais. Mas há também relatos recentes associando-as com colite ulcerativa e doença de Crohn. Ambas, especialmente a colite ulcerativa, aumentam o risco de câncer de cólon.

Mas, se as bactérias estão ligadas ao câncer de cólon, a questão é: como? Uma possibilidade, segundo os pesquisadores, é a inflamação. Fusobactérias provocam inflamações, e o câncer está ligado à inflamação.

Isso não significa, necessariamente, que fusobactérias causam câncer, observou Relman. Os próprios tumores podem causar inflamação, e algumas bactérias são rápidas para aproveitar e invadir os tecidos danificados.

“Quando você cria condições inflamatórias, você seleciona certos organismos,” disse Relman. “Quase não importa como você cria a inflamação. Há organismos que são profissionalmente adaptados às condições inflamatórias.” Em outras palavras, as bactérias que são encontradas entre as células inflamatórias podem “estar lá simplesmente a passeio”, disse.

O que resta é uma descoberta intrigante, e muito mais trabalho para entender o que está acontecendo. Holt está analisando os pólipos, nódulos pequenos na parede do cólon. Cânceres de cólon se desenvolvem a partir de pólipos, embora a maioria dos pólipos seja inofensiva.

“A ideia é que, se vemos infecções nas lesões em estágio inicial, talvez seja um dos fatores que permite seu progresso”, disse Holt. “Ele não fornece um mecanismo ou prova nada, mas é consistente”.

Já Meyerson analisará modelos animais de câncer de cólon para descobrir se as bactérias podem acelerar o desenvolvimento do câncer ou até mesmo causá-lo.

Mas ambos os pesquisadores continuam cautelosos. “Com um agente infeccioso neste tipo de pesquisa, você nunca sabe, ao menos nos estágios iniciais, se o que encontrou é significativo ou se é uma pista falsa”, disse Holt.

Meyerson concorda. “Ainda é difícil saber sua real importância”, disse. “Pode ser realmente importante, mas, obviamente, também tem o potencial para levar a lugar algum.”

Fonte: The New York Times

revista-onco

Oncologia para todas as especialidades.