Cirurgião-dentista tem papel fundamental na detecção precoce do câncer de boca e orofaringe e no acompanhamento do paciente em tratamento, minimizando efeitos colaterais.

Por Martha San Juan

A prevenção do câncer de cavidade oral (boca e orofaringe) começa na visita ao cirurgião-dentista. É ele quem primeiro pode detectar sinais como placas esbranquiçadas, lesões avermelhadas e feridas que não cicatrizam na mucosa bucal, gengivas, palato duro, língua e assoalho da boca. Se tiver alguma suspeita, o cirurgião-dentista encaminha o paciente a um colega especializado em estomatologia, área da odontologia cuja finalidade é prevenir, diagnosticar e tratar quais quer doenças que se manifestam na cavidade bucal e no complexo maxilomandibular.

“O cirurgião-dentista sabe até mais do que o médico sobre essas doenças, porque vê boca 24 horas por dia, sabe o padrão de sinais, sintomas e fatores de risco relacionados à etiologia do câncer”, afirma o estomatologista Artur Cerri, coordenador dos cursos de pós-graduação da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD). A APCD realiza atividades periódicas de reciclagem profissional e ensino de oncologia não só no estado de São Paulo, mas em parceria com a associação brasileira, com ênfase na prevenção e na realização do exame clínico detalhado da cavidade bucal para detecção de lesões suspeitas e tumores não sintomáticos.

Até recentemente, o Instituto Nacional deCâncer (Inca) preconizava o autoexame e o rastreamento populacional como medidas para reduzir o número de novos casos de câncer de boca e de orofaringe ou baixar a mortalidade pela doença. “No entanto, vimos que fica difícil para os pacientes detectar precocemente os sinais de lesões potencialmente malignas, principalmente quando não apresentam sintoma”, afirma o cirurgião-dentista Héliton Spindola Antunes, pesquisador da Coordenação da Pesquisa Clínica do Inca. “Quando procuram o profissional, esses pacientes, infelizmente, já estão com o tumor em estado avançado.”

Orientações para antes, durante e depois do tratamento

Atualmente, para a detecção precoce da doença, além dos cuidados com a saúde bucal de rotina, o Inca recomenda procurar de imediato o dentista caso surja uma lesão na boca que não cicatrize em até quinze dias. O diagnóstico é feito com um exame simples, que requer um espelho odontológico, foco de luz e um abaixador de língua. “Todas as partes da mucosa da boca devem ser examinadas”, enfatiza o diretor do Departamento de Estomatologia do A.C.Camargo Center, Fábio de Abreu Alves. “É feita uma investigação minuciosa mesmo em locais de difícil visualização, como a borda posterior da língua e o palato mole.”

Alguns outros tipos de câncer podem ser sinalizados pela boca. Apalpando o pescoço, o cirurgião-dentista pode checar se há gânglios comprometidos e nódulos no pescoço. “Em casos de leucemia, os pacientes podem ter sangramento gengival inexplicado, que, em geral, é associado à presença de petéquias (pequenos pontos vermelhos) na pele, anemia e alterações no exame de sangue, confirmando o diagnóstico”, afirma o oncologista clínico Daniel Herchenhorn, coordenador científico da Oncologia D’Or.

Prevenção

No caso de câncer de boca e de orofaringe, vale ressaltar que o cirurgião-dentista tem um papel importante não só no diagnóstico, mas na prevenção, ao orientar o paciente sobre a higienização e os fatores de risco. O Inca estima quase 15 mil novos casos de câncer de boca para este ano, sendo 11,2 mil em homens e 3,5 mil em mulheres. Mais de 90% são casos de fumantes e consumidores de bebidas alcoólicas. Quando o fumo e o álcool estão associados, o risco de desenvolver a doença é maior. O vírus HPV, transmitido por sexo oral, também está associado ao risco de câncer na boca. Também têm papel na doença a higiene bucal deficiente e a dieta pobre em proteínas, vitaminas e minerais, porém rica em gorduras.

Alguns estudos sugerem ainda que pacientes com periodontite (inflamação crônica das gengivas) têm risco aumentado de câncer, embora esse não seja um consenso médico. “Temos que interpretar esses resultados com cuidado, pois não há evidência científica robusta e a doença geralmente vem associada a fatores de risco mais comuns, como o tabaco”, afirma Héliton Spindola Antunes, do Inca.

No Brasil, 85% dos tumores estão em estágio avançado no momento do diagnóstico – mais de 5 mil pessoas vão a óbito por causa da doença. No entanto, afirma a estomatologista Priscila Vivas, do Centro de Hematologia e Oncologia da Bahia (Cehon), “todo câncer de boca tem chance de cura alta se diagnosticado prematuramente. “Infelizmente, nosso perfil de paciente ainda é tabagista, etilista e demora a buscar atendimento. Recebo pacientes que não vão ao dentista há muitos anos e apresentam vários problemas na boca”

A participação do cirurgião-dentista não para no diagnóstico e continua durante o tratamento do câncer. É fundamental o trabalho colaborativo do dentista e do oncologista para garantir a qualidade de vida do paciente. “O ideal é uma abordagem rápida e radical antes de iniciar o tratamento em todos os casos que requerem invasibilidade, como lesões de cárie, canal, extração de dentes comprometidos, problemas de gengiva, ajustes de prótese, para evitar complicações futuras severas”, afirma a professora de patologia bucal Marina Gallotini, coordenadora do Centro de Atendimento de Pacientes Especiais da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP).

Os efeitos adversos da radioterapia também exigem acompanhamento do dentista. A cirurgiã-dentista Fernanda Fontana Romar, da Clínica São Vicente da Rede D’Or no Rio de Janeiro, explica que a radioterapia, quando realizada em região de cabeça e pescoço, pode levar à destruição das glândulas salivares (xerostomia), levar ao desenvolvimento de cárie e necrose óssea por dificuldade de cicatrização, além de mucosite (afta) de grande impacto entre os pacientes. Outros tratamentos antineoplásicos, com uso de alguns quimioterápicos, e o transplante de medula óssea também podem trazer complicações na cavidade oral.

“Quando indicado, o cirurgião-dentista confecciona o espaçador oral, utilizado no momento da radioterapia, auxiliando o isolamento de determinadas regiões que não necessitam de radiação”, complementa a especialista. “Além disso, o laser odontológico de baixa potência, que apresenta ação analgésica, anti-inflamatória e biomoduladora, é utilizado como prevenção e tratamento da mucosite.”

Martha San Juan França é jornalista e doutora em História da Ciência. É autora do livro “Células-tronco: esses ‘milagres’ merecem fé”, e coautora do livro “Formação & informação científica: jornalismo para iniciados e leigos”.