A boa ou má nutrição está ligada à proteção contra o câncer ou ao desenvolvimento da doença. Conheça os principais componentes dietéticos ligados ao risco do câncer.

 

Já dizia o ditado que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Em outro contexto, diversos estudos avaliaram a possibilidade de que certos componentes dietéticos ou nutrientes estejam associados com aumento ou redução no risco de câncer. Células cancerosas e modelos animais analisados em laboratório disponibilizaram algumas evidências disso. No entanto, com poucas exceções, estudos em populações humanas ainda não demonstraram de forma definitiva que um componente dietético possa causar ou proteger contra as neoplasias. Algumas vezes os resultados de estudos epidemiológicos que comparam os hábitos alimentares de grupos populacionais com e sem câncer indicaram que aqueles sem a doença diferem na ingestão de um componente específico.

O coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP (Nupens), professor Carlos Monteiro, foi coautor de um estudo publicado neste ano com resultados da coorte francesa Nutrinet Santé, que verificou pela primeira vez a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados (aqueles de formulação industrial prontos para consumo, como salgadinhos de pacote, refrigerantes e fast-foods) e o desenvolvimento de câncer.

“Observou-se que, a cada 10% de aumento no consumo de alimentos ultraprocessados, o risco de câncer de mama aumentou em 11%. Esses resultados foram vistos independentemente do peso corporal”, relata a nutricionista Isabela Fleury Sattamini, doutoranda de nutrição em Saúde Pública pela USP e integrante do grupo de pesquisa de Monteiro. Até então, as autoridades internacionais em pesquisa em câncer já haviam demonstrado a relação entre sobrepeso e obesidade e o risco aumentado para 13 tipos de câncer. Da mesma forma, já está reconhecida a relação entre o consumo de alimentos ultraprocessados e o ganho de peso corporal excessivo.

“As recomendações de prevenção do câncer do Instituto Nacional de Câncer (Inca) incluem manter peso corporal saudável e evitar alimentos ultraprocessados”, ressalta Sattamini. Com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a relação entre alimentação e o desenvolvimento de doenças crônicas, entre elas o câncer, o Nupens está prestes a lançar a sua própria coorte brasileira para investigar o tema, a Nutrinet Brasil, que será disponibilizada por aplicativo de celular aos participantes.

Tipos de câncer x alimentação

A alimentação é um fator importante para a prevenção do câncer. Os tumores de maior incidência na população (mama, próstata e intestino) estão relacionado a hábitos alimentares. A obesidade, cuja maior causa é a má alimentação, está relacionada ao risco aumentado para cânceres de orofaringe, esôfago, estômago, pâncreas, vesícula biliar, fígado, mama, ovário, endométrio, próstata e rins. Os principais mecanismos da relação entre excesso de peso corporal e câncer dizem respeito ao estado inflamatório, à regulação hormonal e ao metabolismo da insulina.

A relação do risco aumentado para câncer de estômago e excesso de sal também é reconhecida. Os alimentos processados geralmente possuem um teor elevado de sal. O consumo acima de 5 gramas por dia pode danificar o revestimento do estômago, promovendo inflamação e atrofia da mucosa gástrica. Tais danos na mucosa podem aumentar a colonização por Helicobacter pylori. Nos portadores dessa bactéria, o risco para o câncer de estômago é superior.

Segundo a nutricionista da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do Inca, Luciana Grucci Maya, o consumo de carnes processadas, popularmente conhecidas como embutidos, é fortemente relacionado com o desenvolvimento de câncer de intestino. Essas carnes são aquelas produzidas por meio de cura, defumação, secagem, salga, fermentação ou outro processo usado para melhorar sabor e tempo de conservação. A presença de nitritos e nitratos – utilizados como conservantes e para conferir a cor rosada desses produtos – e a grande concentração de sal e de alguns compostos produzidos durante a sua fabricação, como as aminas heterocíclicas e os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, podem explicar a relação das carnes processadas com o aumento do risco de neoplasias.

Maya destaca que o consumo excessivo de carne vermelha, em quantidades maiores que 500 gramas por semana, aumenta o risco de câncer de intestino. As carnes vermelhas são importantes fontes de proteína, vitamina B12, ferro e zinco, mas quando consumidas em demasia podem levar à formação de compostos N-nitrosos e de formas alcenais citotóxicas oriundas da peroxidação lipídica. Especificamente para o câncer de mama, a obesidade parece ser um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento e o prognóstico negativo da doença. A oncologista Jurema Telles de Oliveira Lima, da clínica Neoh, em Recife, menciona uma meta-análise relativamente recente de 82 estudos que incluiu mais de 200 mil pacientes.

Confira uma entrevista sobre a relação entre café e câncer

“O estudo demonstrou um aumento de 75% de mortalidade em mulheres na pré-menopausa e de 34% na mortalidade na pós-menopausa em mulheres que eram obesas no momento do diagnóstico de câncer de mama, em comparação com pacientes que estavam com peso normal no diagnóstico”, comenta a médica.

Por ser um processo inflamatório crônico, a obesidade é também uma via de ativação de crescimento tumoral. A via de resistência à insulina e o fator de crescimento semelhante à insulina (IGF) são vias reconhecidas de proliferação celular de tecidos normais e também tumorais, diminuindo a apoptose das células tumorais, promovendo ainda a angiogênese tumoral e, com isso, estimulando a carcinogênese.

Lima menciona ainda um estudo perspectivo envolvendo 1,5 mil pacientes oncológicas com mais de 60 anos em Recife, entre 2015-2018, das quais 20% eram portadoras de câncer de mama. “Na admissão, cerca de 40% das pacientes estavam com sobrepeso/obesidade e 42% foram consideradas sedentárias, e este grupo de pacientes tinha cerca de sete vezes mais risco de morrer ou necessitar de hospitalização precocemente, independentemente do tipo tumoral, do estadiamento e da idade, quando comparado aos pacientes com o peso adequado ou fisicamente ativos.”


*Reportagem publicada na revista Onco& 39 (Julho-Agosto-Setembro)
Acesse a edição completa aqui.

 

 

Daniela Barros

Jornalista e tradutora especializada em Jornalismo Médico e Científico, pós-graduada em Jornalismo Social pelo COGEAE – PUC – SP.