Ensaio clínico de larga escala mostrou que uma alimentação com menos gordura e mais fibras aumentou a sobrevida de pacientes com câncer de mama

Estudo publicado no Jama Oncology reforça a ideia de que uma dieta restrita em gorduras é benéfica contra o câncer. A pesquisa, a maior já feita sobre o tema, revelou que mulheres em tratamento de câncer de mama que mantiveram uma alimentação com menos gordura e mais vegetais tiveram risco de morte 22% menor, uma taxa comparável a dos melhores medicamentos contra a doença.

O ensaio foi uma análise feita a partir de um recorte de um estudo maior, o Women’s Health Initiative Dietary Modification, que acompanha por décadas os efeitos de uma dieta de baixa gordura em mais de 48 mil mulheres pós-menopausa. Cerca de 19 mil participantes estavam sob uma dieta com 20% de redução do consumo de gorduras e mais frutas, verduras e grãos.

Do total de voluntários, os pesquisadores olharam para os dados das mulheres diagnosticadas com câncer durante o estudo. Os casos de câncer de mama foram 8% menos frequentes nas mulheres com a dieta de baixa gordura. Além disso, elas apresentaram uma sobrevida maior. As análises foram feitas 8,5 anos após o diagnóstico e novamente 11,5 anos depois.

Enquanto pesquisas anteriores analisaram os efeitos da dieta pré-diagnóstico, o estudo trouxe uma ideia de como a alimentação impacta no prognóstico da doença. “O que vemos é um efeito notável”, diz Rowan Chlebowski, um dos autores do estudo, “A intervenção dietética após o diagnóstico de câncer de mama foi mais importante do que a intervenção dietética realizadas antes.”

Os resultados indicam que o tratamento do câncer deve levar em consideração a nutrição das pacientes. “Só com a dieta vemos um resultado melhor que muito remédio”, diz o oncologista clínico Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or. “É um resultado semelhante aos esquemas com antracíclicos e taxanes quando comparados com antracíclicos isolados ou mesmo à adição de inibidores da aromatase em relação ao tamoxifeno, sendo que nesses casos da dieta a sobrevida é global e nos outros tratamentos é livre de recorrência.”

Dieta protetora

A nutricionista Lucia Sampaio lembra que existem múltiplas evidências de que a alimentação está diretamente associada tanto ao aumento quanto à diminuição do risco de câncer e de recidivas.

“Especificamente com relação à gordura, análises descrevem que o excesso de gorduras saturadas, trans, hidrogenadas, esterificadas (modificadas industrialmente), provenientes de alimentos como carnes vermelhas, carnes processadas, embutidos em geral, margarinas, biscoitos recheados, sorvetes, dentre outros, está relacionado ao risco de alguns tipos de câncer”, pontua. “Essa gordura tem um caráter inflamatório, que provoca aumento das substâncias pró-inflamatórias no corpo e a inibição das anti-inflamatórias, podendo assim prejudicar o sistema imunológico e estimular o desenvolvimento carcinogênico.”

A especialista destaca que uma alimentação com alto teor de gordura pode provocar ganho de peso e levar consequentemente ao à obesidade ao excesso de peso, situação que leva ao aumento do hormônio feminino estriol, que pode aumentar o risco para a formação do tumor de mama, especialmente após a menopausa.

Por outro lado, consumir frutas e verduras protege contra o câncer de mama e outros. “O consumo desses alimentos é um fator protetor no desenvolvimento da doença”, diz Lucia. “Por serem fontes de vitaminas e minerais antioxidantes e também por possuírem fibras e fitoquímicos que têm grande influência nas nossas defesas imunológicas.”

Acompanhamento nutricional

A nutricionista lembra, no entanto, que nem todas as gorduras são ruins. Existem também as gorduras boas: mono-insturadas (das oleaginosas) e poli-insaturadas (dos óleos vegetais e peixes de água fria).

“Diversos trabalhos mostram a eficácia e a segurança do uso de ômega-3, um ácido graxo essencial poli-insaturado, para minimizar a inflamação do câncer, por atuar na cascata inflamatória estimulada pelo tumor, minimizando alguns efeitos que são induzidos pelas células cancerosas”, explica. “O paciente oncológico deve ter muito cuidado com as informações que lê e deve ser acompanhado por um nutricionista especialista para receber a orientação nutricional individualizada e se informar com segurança sobre a quantidade e qualidade dos alimentos adequados a ele.

 

 

 

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.