A edição 2014 do Genitourinary Cancers Symposium (ASCO GU) marcou os dez anos do evento com um número recorde de participantes. Realizado em São Francisco, Califórnia, entre os dias 30 de janeiro e 1 de fevereiro, o encontro reuniu 3,1 mil pessoas, três vezes mais do que os 990 participantes do primeiro simpósio, realizado em 2005. Foram apresentados 630 trabalhos nas áreas de pesquisa, estratégias de prevenção e rastreamento do câncer geniturinário. As apresentações do evento destacaram os avanços e os desafios na pesquisa do câncer geniturinário ao longo desses dez anos, abordando câncer de próstata, bexiga, pênis, uretra e testículos e rins.

Dentre os pontos altos do evento estão os avanços no tratamento de câncer de próstata metastático resistente à castração de campo (mCRPC, na sigla em inglês). Em curto espaço de tempo, o tratamento, que contava com apenas um agente capaz de aumentar a sobrevida global – o docetaxel –, passou para um total de cinco, com o acréscimo de sipuleucel-T, cabazitaxel, abiraterona e enzalutamide. No ano passado, o enzalutamide foi destaque no simpósio com base nos resultados do estudo AFFIRM fundamental, demonstrando que o inibidor melhora a sobrevida global em homens com mCRPC que receberam o tratamento com docetaxel prévio. Este ano, o enzalutamide foi destaque novamente, desta vez com o estudo PREVAIL (fase III de pesquisa), que avalia seu efeito em pacientes com doença metastática, mas que não se submeteram anteriormente a tratamento quimioterápico. Um resultado positivo poderá ampliar a indicação desse inibidor para esses pacientes. (Abstract LBA1^).

O câncer de bexiga continua sendo considerado a “ovelha negra” dentre os tumores de GU, dada a falta de progresso em comparação com outros tipos de câncer. O fenômeno pode ser atribuído a vários fatores, entre eles o fato de pelo menos 30% de todos os pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo recém-diagnosticados não receberem terapia adequada – proporção que aumenta com o avanço da idade – e o subestadiamento clínico, ressaltando a necessidade de um melhor diagnóstico, estadiamento e avaliação de risco. Além disso, Kristian D. Stensland, da Escola de Medicina Icahn, do Monte Sinai, destacou que existem poucos estudos clínicos em câncer de bexiga: levantamento feito por ele, mostra que um quinto dos testes clínicos envolvendo câncer de bexiga, não chegam a ser concluídos, em boa parte por causa da baixa adesão dos pacientes. De acordo com Stensland, há décadas o índice de participação em testes clínicos permanece entre os 3% e 5% dos pacientes adultos e novas estratégias de comunicação são necessárias para elevar esses números.(Abstract 288).

Mas o cenário não é pessimista. Pesquisadores do Grupo de Trabalho em Câncer de Bexiga do The Cancer Genome Atlas (TCGA) analisaram 131 carcinomas uroteliais músculo-invasivos não previamente expostos à quimioterapia citotóxica (Abstract 285), revelando a intrincada combinação de múltiplas alterações moleculares presentes nesta versão potencialmente letal da doença. O trabalho também revelou alvos em potencial, como o HER2, que podem abrir caminho para emprego de opções terapêuticas personalizadas, que vão além da quimioterapia com cisplatina.

Poucos estudos foram apresentados sobre câncer de pênis, uretra e testículos, mas um, nesta última categoria, merece menção. Uma revisão de pacientes de tumores de células germinativas dos testículos de estágio clínico 1 mostrou que o tamanho dos linfonodos medido longitudinalmente – e não axialmente – está correlacionado com maior risco de recidiva no tumor não-seminomatoso (Abstract 363). De acordo com a pesquisa, os pacientes com linfonodos retroperitoneais craniocaudais maiores que 1,5 cm de comprimento são quatro vezes mais propensos a sofrer recidiva da doença que os pacientes com linfonodos de 1,5 cm ou menos.

Tumores renais são extremamente heterogêneos, apresentando uma enorme variedade de mutações únicas num dado paciente. Dada a heterogeneidade do carcinoma de célula renal (RCC, na sigla em inglês), várias palestras foram devotadas ao tema, abordando o tratamento tanto de pacientes com a doença localizada como metastática, além de como as novas informações genéticas estão ajudando a entender melhor a biologia desse câncer. Em apresentação que enfatizou a heterogeneidade interna do carcinoma de célula renal, James M. G. Larkin, do Royal Marsden Hospital, do Reino Unido, mostrou que 65% das mutações identificadas em amostras obtidas de lesão primária ou doença metastática são heterogêneas e não estão presentes em todas as biópsias. Segundo Larkin, o carcinoma renal de células claras passa por um padrão evolutivo ramificado, em que “driver mutations”, como a perda de Von Hippel-Lindau (VHL), alimentam o desenvolvimento inicial do tumor – como se fossem o tronco de uma árvore –, seguidas por distintas mutações subclonais, que ocorrem em diferentes regiões do tumor primário e em diferentes locais de metástase. Larkin defende a ideia de concentrar os esforços terapêuticos nas mutações de base, as “driver mutations, já que estão presentes em todas as células tumorais, mas reconhece que a pressão seletiva pode rapidamente levar à resistência ao tratamento. Como a imunoterapia não constitui uma pressão seletiva fixa, mas uma “reprogramação” do sistema imunológico, essa abordagem pode oferecer uma solução dinâmica para um problema dinâmico.

Ainda na área de pesquisa o International mRCC Database Consortium (IMDC), que atualmente acompanha 3.537 pacientes com carcinoma de célula renal metastático de 25 instituições de todo o mundo, tenta determinar a melhor forma de otimizar as terapias de múltiplos alvos disponíveis hoje. Daniel Heng, do Tom Baker Cancer Center, da Universidade de Calgary, explicou que os pesquisadores do IMDC usaram dados que dividem pacientes por grau de risco para desenvolver um modelo usando dados que permite avaliar o prognóstico do paciente na era da terapia-alvo. O sistema do IMDC atribui um ponto para cada um de seis fatores adversos: Escala de Performance Status (PS) de Karnofsky inferior a 80%; intervalo inferior a um ano entre diagnóstico e tratamento; anemia; trombocitopenia, neutrofilia e hipercalcemia para classificar os pacientes em grupos de baixo risco (sem nenhum fator), risco médio (um ou dois fatores) e alto risco (de três a seis fatores). O modelo se mostrou bastante eficiente para discriminar diferenças de sobrevida nos três grupos, como demonstrado pela média de sobrevida global, de 43,2 meses, 22,5 meses e 7,8 meses, respectivamente. O critério desenvolvido pelo IMDC foi validado externamente e se mostrou mais preciso em relação a outros modelos prognósticos, entre eles o do Memorial Sloan Kettering Cancer Center.

A próxima edição do simpósio está programa para ocorrer entre 26 e 28 de fevereiro de 2015, em Orlando, Flórida.

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