No projeto DE PEITO ABERTO, o casal Vera Golik, jornalista, e Hugo Lenzi, fotógrafo e sociólogo, transformaram a vivência que tiveram com o câncer na família em uma obra que demonstra a importância do humanismo nas relações para levar à superação. Confira algumas das imagens presentes na exposição e no livro, e conheça essas mulheres que venceram o câncer e tiveram a coragem e desprendimento de compartilhar suas histórias.

No retrato, a essência

Juliana Fincatti Moreira, advogada, 27 anos

“Esta frase – no retrato, a essência – resume o que senti com Juliana, a primeira fotografada do projeto. Tinha lido o resumo da entrevista inicial: “Juliana, 27 anos, ainda fazendo a “quimio”. Estava noiva e congelou os óvulos para garantir a maternidade…”Muito pouco para saber como retratá-la.

Encontrei uma moça morena, com os cabelos curtos, negros e encaracolados. Um olhar triste, uma atitude defendida. Pedi que me contasse mais, e enquanto conversávamos ela me mostrou uma foto dela recente. Difícil acreditar que aquela moça magra, loira, de cabelos lisos e longos e de olhos verdes era quem estava na minha frente. Sorrindo ao ver meu espanto, ela disse: ‘Sim, sou eu. Ou melhor, era eu, 15 dias antes de começar a quimioterapia. Fiquei inchada de cortisona e os cabelos nasceram escuros e encaracolados. Mudou até a cor dos meus olhos, ficaram castanhos. Eu me olho no espelho e não me reconheço…..Naquela hora, vi o quanto nosso trabalho poderia ajudar a resgatar a identidade e a autoestima da mulher que perdia suas referências com a doença. A conversa se estendeu, o gelo foi quebrado. Durante as fotos, passamos a buscar, juntos, a essência da Juliana. E ela se revelou: forte, linda, uma verdadeira vencedora.”

Hugo Lenzi

Mônica Galvão, 47 anos, psicóloga clínica

“Durante o furacão, muita gente me falou para eu me tratar em São Paulo, mas resolvi ficar em Brasília, perto dos amigos e da minha filha. Acertei. O apoio deles me ajudou a vencer…

…As minhas filhas foram fantásticas. …Sinto muita gratidão por todos os meus amigos. Sabia que podia contar com eles, mas não imaginava o quanto. Foi uma linda descoberta! Uma amiga ficou ao meu lado em todas as quimioterapias e me fazia rir. Um dia, apareceu fantasiada de palhaça, em outro, de bruxa. Fazia farra com todo mundo. Mudava a energia do espaço não só para mim. Até hoje passo pela clínica e o pessoal me pergunta sobre ela…

A grande lição da doença foi aprender a confiar….Nas pessoas e na vida.”

Sueli Cabral Duarte, banqueteira, 45 anos

“Precisa de muita coragem e vontade para encarar cada etapa. Não é nada fácil. Mas, se você quiser muito, transforma a situação. Eu queria muito. E ainda quero.”

Uma das histórias que Sueli nos contou é até hoje um marco em nossas palestras e em nossos diálogos do projeto por todo o Brasil. Quando ela soube da doença, Lys tinha 3 anos e meio e ainda mamava. Sim, ela nos mostrou uma foto tirada antes de tudo acontecer, com a pequena Lys mamando em pé, pendurada em seu peito. Ao saber da doença, chegou a difícil hora de reunir os filhos para contar o que estava acontecendo e o que viria pela frente. Com todo o cuidado e toda sabedoria, Sueli disse: “A mamãe está doente, mas não é para vocês ficarem preocupados. É verdade, vou ter que tirar o peitinho…”. Nessa hora, eles ficaram quietos e olharam assustados, mas ela continuou. “Não se assustem, depois vou ficar boa e colocar outro, tá?”. Com a rapidez e a pureza que só as crianças têm, Lys franziu a testa e respondeu, sem pensar: Então, mamãe, será que o novo pode vir com chocolate?”.

Alessandra de Freitas Barbosa Sandoval, 34 anos, pedagoga

Alessandra fez a masectomia em outubro de 2004. Ela sentiu a dor de não ter recebido o apoio do marido, mas encontrou respaldo no amor incondicional das filhas e no suporte total da família e dos amigos.

“No início do tratamento, ainda estávamos juntos, e ele tinha crises de choro e vergonha de ser visto comigo em público. Ficou ausente o mais que pôde. Deu apoio financeiro e só. Fiquei perdida, tendo que encontrar forças para enfrentar o câncer sozinha. Mas tinha a responsabilidade de passar valores para minhas filhas e fui em frente. Venci os preconceitos, cuidei da aparência, não parei nem um minuto para reclamar”.

Ficamos tremendamente chocados com o fato de um companheiro abandonar a mulher em um momento em que o apoio é tão importante. E nos chocou mais ainda saber que ele é médico e, portanto, que teoricamente deveria saber lidar com isso melhor do que a maioria das pessoas. Infelizmente, depois, percebemos que o abandono é muito mais comum do que se imagina. Sua história serviu de alerta e conscientizou muitas pessoas em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, é muito bom ver como Alessandra está bem agora.

Gisela Amaral, 66 anos, casada com o empresário Ricardo Amaral, o “Rei da Noite”

“Ao receber a notícia, senti uma grande alegria. Podia parecer estranho, mas sempre pensei: ‘se algo assim for acontecer na minha família, que seja comigo, não com os meus filhos ou com o meu marido’.”

Sou vaidosa e me lembro de que, quando me vi careca pela primeira vez, ameacei chorar. Mas engoli as lágrimas e tratei de me produzir. Em vez de me esconder, caprichava na maquiagem, colocava meus enfeites, colares e echarpes e saía para meus compromissos.

É importante a gente saber e se lembrar de que, se você não passa por cima do câncer, demonstrando muita alegria e fé verdadeira, o câncer passa sobre você.”

Alessandra Ziukevicius, 35 anos, professora e coordenadora de esportes, sua filha Lara e seu marido, Cléber.

Estar ao lado para o que der e vier. Essa foi a lição que aprendemos com o casal Alessandra Ziukevicius, 35 anos, professora e coordenadora de esportes, e seu marido, Cléber.

“Percebi que ele me amava não pelos meus lindos seios, mas pelo que eu era. Ainda me emociono quando lembro que Cleber fez treinamento de enfermagem só para saber como cuidar de mim. Ele levantava todos os dias às 5 da manhã, trocava os curativos, dava banho e até escovava meus cabelos. À noite, ao voltar do trabalho, repetia a dose. Foram meses em que contei muito com o meu marido.

Quando comentamos sobre a dificuldade que alguns companheiros tinham em segurar a barra e que havia até quem abandonasse suas mulheres, ele se espantou: “Não posso nem imaginar fazer diferente. Não acredito que existam pessoas assim, tão fracas. Perto de tudo que ela estava passando, o que fiz foi muito pouco. Cuidar o melhor possível de Alessandra e de nossa filha era o mínimo que eu podia fazer.”

Moema Gramacho, 51 anos, prefeita de Lauro de Freitas, Bahia.

Durante a campanha para seu segundo mandato, ela recebeu o diagnóstico. Teve de enfrentar os ataques sórdidos dos adversários políticos, que em golpes baixos usaram a doença para tentar derrotá-la. Mas com sua força e seu carisma, ela superou tudo e venceu – as eleições e o câncer.

“…Mas na primeira sessão o cabelo já começou a ir embora. Caiu a metade. Tinha um cabelão enorme, na cintura. Além de gostar dele, era minha marca registrada. Foi o momento mais complicado…. Quando passei a mão na cabeça e senti um punhado de cabelo, aí eu me toquei. Foi chocante. Senti uma impotência tão grande. Queria saber o que fazer para o vabelo não cair, mas não tinha jeito. Não tem nada que segure. Não podia optar. De fato, a coisa era séria.

Chorei muito! Minha filha e minha família me ajudaram a superar! Naquele momento, veio a lembrança de meu pai, ele teve de amputar as duas pernas e tinha vontade de viver. Então, mesmo com a minha vaidade, por que eu iria enfraquecer? Fui me convencendo: ´Vou viver um período sem o cabelo e pronto’.”

Dalva Sandes, atriz

“Senti tudo: dor, medo, solidão, depressão. Um dos grandes temores era perder a mama. É muito difícil a gente pensar que vai perder o seio. Para mim, era terrível. Por ser atriz, vivo da minha imagem, da integridade do meu corpo, e a notícia da mutilação era desesperadora. O pior foi um médico que queria que eu desistisse de colocar a próteses e me assustou dizendo friamente que o caso era grave. Repetia que a cicatriz ia ficar imensa e profunda em todo o meu colo e que o procedimento era assim mesmo. Senti que faltava o lado humano, a sensibilidade de perceber que, para mim, além da luta para salvar a minha vida, também era vital procurar maneiras de preservar a estética. Meu lado psicológico ficou muito abalado.”

“…quando acordei da cirurgia, a primeira coisa que fiz foi olhar para os meus seios e ver como tinha ficado a reconstituição. Fiquei aliviada, pois estava tudo certo. Fui vitoriosa e estou feliz. “

Um exemplo de superação

Quando nos encontramos com Dalva, ela ainda se recuperava – das feridas emocionais e também das físicas. Um episódio desse nosso encontro ficou gravado para nós. Em função das várias cirurgias e por ainda não ter feito a fisioterapia, ela não conseguia levantar completamente os braços. Foram removidos os linfonodos sentinela, localizados nas axilas, mas ela não nos falou sobre essas dificuldades de movimentos. Entusiasmada e feliz, ela se prontificou a fazer o que fosse preciso para retratar as emoções vividas. Assim, durante as sessões de fotos, várias vezes, ela pulou, voou e elevou os braços como não tinha feito até então. Era o mais verdadeiro retrato da superação. Tão intenso e verdadeiro que se traduziu na imagem de abertura que simboliza todo o projeto DE PEITO ABERTO.

O cuidar

O Humanismo na prática

O trabalho dos profissionais de saúde com consciência e postura humanista poderia ser resumido nestas duas palavras: razão e sensibilidade. A extrema acuidade científica convivendo em perfeita harmonia com o cuidado com o outro, no mais amplo sentido da palavra “cuidar”…

… No caso específico de nossa experiência com o câncer de mama, essa maneira diferenciada de cuidar tem um papel tão importante, tão vital, que pudemos por diversas vezes comprovar o seu poder transformador. A saúde a que nos referimos aqui não é a que representa apenas ausência de doença, mas, sim, a que significa uma “forma criativa de lidar com a vida”, como diz o filósofo japonês Daisaku Ikeda.

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