Pesquisa revela que, apesar de recompensante, papel de cuidador não profissional têm impactos na saúde física e mental

 

É natural que o paciente com câncer esteja no centro dos debates e do cuidado da doença. Porém, outro ator importante muitas vezes fica de lado: o cuidador. Familiares e amigos que desempenham esse papel também precisam de atenção e cuidados especiais. Uma pesquisa realizada no Brasil sobre esse tema alerta para as condições de saúde física e mental dos cuidadores não profissionais.

Divulgado durante o congresso Todos Juntos contra o Câncer, em mesa promovida pela Ong Oncoguia, o levantamento, parte do programa Embracing Carers da armacêutica Merk Brasil, traz dados de aproximadamente 600 respondentes entre 18 e 75 anos.

A maioria dos entrevistados afirma estar satisfeita com a posição de cuidador. Cerca de 70% afirmam que cuidar de uma pessoa amada ajuda a apreciar mais a vida e 57% dizem que ser um cuidador não profissional é recompensador, ainda que desafiador.

Jadyr Galera, marido de Elfriede, em tratamento para um câncer de mama metastático, é um exemplo de dedicação total. “Sou representante comercial e tenho um horário flexível de trabalho, o que me ajudou a estar presente em todos os momentos com a minha esposa. Porém, quando tenho compromissos agendados e preciso desmarcar para apoiá-la, eu não hesito. A minha prioridade é sempre ela”, comenta.

Grande parte dos entrevistados, mais de 70%, também relatam que o papel de cuidador os ajudou a aprender novas habilidades, que são úteis para outras situações de suas vidas.

Impactos físicos e econômicos

No entanto, a pesquisa revela também o lado negativo desse papel na saúde deles próprios. Cerca de 50% dos cuidadores não profissionais entrevistados afirmam que muitas vezes não têm tempo para agendar ou comparecer às suas próprias consultas médicas. Dois em cada cinco cuidadores não profissionais (44%) dizem colocar a saúde da pessoa de quem estão zelando acima da própria e 53% dos entrevistados relatam sentir-se cansados ​​a maior parte do tempo.

“O câncer é uma doença da família”, comenta Lycia Neumann, pesquisadora e doutoranda em saúde pública na Universidade de Pittsburg. “É natural que as pacientes tenham um cuidador principal e, na maioria das vezes, essa escolha é feita pela própria pessoa que assume esse papel. Mas muitas vezes o familiar fica sozinho nessa função.”

De acordo com a pesquisadora, o papel de cuidador traz impactos econômicos, por exemplo devido aos gastos com transporte para consultas e alimentação fora de casa; físicos, pelo cansaço; emocionais, pela ansiedade e tristeza com a doença e sociais. “Muitas vezes o cuidador se afasta da própria família, dos amigos e não acha certo ter esses momentos de lazer já que o paciente não tem”, comenta Neumann.

Saúde mental

Segundo a pesquisa, quase metade dos entrevistados (46%) cuida dos seus pais e, em média, os cuidadores não profissionais têm entre 45 e 55 anos e gastam 24 horas por semana cuidando da pessoa pela qual são responsáveis.

Outro dado importante diz respeito à saúde mental. Mais de 61% dos entrevistados afirmam precisar de cuidados médicos por conta de sua saúde mental.

“O câncer é uma doença crônica, possivelmente o compromisso de ser cuidador é algo que vai levar um tempo considerável”, pontua a Regina Liberato, psicóloga do Oncoguia. “Quando o cuidado já está além do limite, o cuidador começa a dar respostas impulsivas e se descontrola. É preciso prestar atenção a esses sinais de saturação, ver que não é possível dar conta de tudo sozinho, chamar ajuda. Isso não é fraqueza.”

 

 

 

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.