Mais de 800 estudos sobre Mieloma Múltiplo (MM) foram apresentados durante o 55º encontro anual da ASH, a Sociedade Americana de Hematologia, realizado em New Orleans de7 a10 de dezembro. No encontro, que reuniu a comunidade mundial de onco-hematologia, os progressos no tratamento de MM foram destaque, assim como os avanços na compreensão das vias de sinalização associadas a diferentes leucemias, incluindo a linfocítica crônica, a forma mais incidente da doença na população ocidental adulta.

Depois dos recentes avanços que permitiram aos pacientes ampliar o tempo de remissão do MM, esta 55ª ASH trouxe promessas ainda mais animadoras, que no curto prazo podem impactar os protocolos de tratamento. Entre as novidades está o trabalho de Thierry Facon e colegas (foto), a partir do estudo MM-020, apresentado com destaque na sessão plenária (Abstract 2).

O estudo FIRST (Frontline Investigation of Lenalidomide + Dexamethasone Versus Standard Thalidomide) envolveu 246 centros de pesquisa em 18 países (América do Norte, Asia e Europa), com um total de 1623 pacientes. O uso de lenalidomida (Revlimid) associado a baixas doses de dexametasona não apenas se revelou superior como terapia contínua, como mostrou resultados melhores na comparação com o regime standard de melfalano+ predinisona + talidomida, com ganhos significativos na sobrevida livre de progressão da doença e na sobrevida global.

Os pacientes foram randomizados em três braços, na proporção 1:1:1. O primeiro, identificado como braço A (n=535) recebeu lenalidomida de forma contínua, em ciclos de 28 dias, até a progressão da doença. O braço B (n=541) recebeu o mesmo regime pelo período de 72 semanas, o equivalente a 18 ciclos. O terceiro braço, identificado como braço C (n= 547) utilizou o regime MPT (melfalano+ predinisona + talidomida) por 72 semanas, compreendendo 12 ciclos.

O estudo recrutou pacientes com idade igual ou superior a 65 anos, ou aqueles não elegíveis para o transplante.

O endpoint primário foi a sobrevida livre de progressão (PFS) e os objetivos secundários da investigação consideraram sobrevida global (OS) e critérios como taxa de resposta global (ORR), duração de resposta (DOR) e qualidade de vida (QOL).

Após um follow up de  37 meses o estudo alcançou o endpoint primário, demonstrando redução de 28% no risco de progressão ou morte (HR = 0.72; p=0.00006). Na análise interina, o ganho de OS foi de 22% na comparação dos braços A e C (HR=0,78; p=0,01685) e todos os demais endpoints secundários apontaram a superioridade do uso da lenalidomida como terapia contínua associada a baixas doses de dexametasona. A taxa de ORR foi de 75% versus 62% (p < 0.00001) e DOR (HR =0.63; p < 0.00001). O perfil de toxicidade também foi considerado bastante aceitável.

O mieloma múltiplo é o segundo câncer hematológico mais incidente e durante muitas décadas teve opções bastante limitadas, o que levava os pacientes a uma sobrevida global entre três e cinco anos após o diagnóstico. Mas a realidade mudou radicalmente em um passado recente, em resposta a uma nova geração de agentes terapêuticos que ajudou a promover uma verdadeira revolução no panorama da doença.

É o caso de agentes como a lenalidomida e o bortezomibe, desenvolvidos a partir de uma compreensão maior do comportamento biológico do mieloma múltiplo, hoje mundialmente empregados como terapia-padrão.

Drogas-alvo em LLC

A crescente compreensão da biologia da leucemia linfocítica crônica (LLC) tem permitido ampliar a terapêutica com novas drogas-alvo que vêm com a promessa de ampliar a efetividade terapêutica, com menor toxicidade.

A nova geração de anticorpos anti CD-20 demonstrou surpreendentes resultados in vitro e nos ensaios clínicos, capazes de beneficiar até 50% dos pacientes, mesmo na doença refratária.  Um dos trabalhos em LLC destacado em sessão plenária durante o 55º encontro da ASH é da equipe alemã liderada por Valentin Goede, do Hospital Universitário de Colônia. O estudo comparou o uso de obinutuzumabe mais clorambucil (Clb) versus rituximabe isoladamente, em pacientes com LLC (Abstract 6).

A investigação considerou 781 pacientes com idade média de 73 anos, randomizados em três grupos de tratamento. Um braço recebeu o obinutuzumabe em combinação com a quimioterapia padrão clorambucil (braço A, n = 333); o segundo braço recebeu rituximabe e Clb (braço B, n = 330), e o terceiro foi tratado com Clb isoladamente (braço C, n = 118).

Os resultados mostram que o obinutuzumabe em combinação com o Clb demonstrou atividade superior ao tratamento com rituximabe e Clb, com ganhos de PFS (26,7 meses versus 15,2 meses), assim como na taxa de resposta global (78% vs 65%),com toxicidade aceitável.

“Os achados sugerem que o agente tem potencial para, eventualmente, substituir o rituximabe no tratamento de pacientes com LLC”, disse Goede.

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