Cigarros eletrônicos carregam a promessa de ajudar a cessação do tabagismo, mas evidências apontam riscos à saúde

por Rodrigo de Oliveira Andrade

Lançados com a promessa de ajudar os fumantes a se livrar do vício, os cigarros eletrônicos — ou e-cigarettes, como também são chamados — conquistam cada vez mais adeptos ao redor do mundo. De acordo com dados divulgados pela consultoria norte-americana P&S Market Research, o mercado global de cigarros eletrônicos deverá alcançar 48 bilhões de dólares até 2023. No entanto, os efeitos sobre a saúde humana associados ao uso contumaz desses dispositivos ainda dividem opiniões entre os especialistas.

Os cigarros eletrônicos foram criados em 2003 pelo farmacêutico chinês Hon Lik e logo se tornaram uma febre mundial, sobretudo na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos. “A ideia é que o aparelho, alimentado por uma bateria, simule o fumo por meio da produção de vapor inalável, com ou sem nicotina, o princípio ativo do tabaco associado à dependência química”, comenta João Gonçalves Pantoja, médico pneumologista da Rede D’Or. Ele explica que, na tragada, um sensor eletrônico detecta o movimento de ar e ativa o nebulizador, que transforma em vapor o líquido armazenado no aparelho.

É o caso do vaporizador Juul, lançado em 2015 nos Estados Unidos. “Os líquidos usados nos cigarros eletrônicos são bastante distintos em termos de composição química e aditivos”, afirma Pantoja. “Alguns são acrescidos de sabores, como chocolate, morango e menta, o que pode contribuir para um aumento do consumo desse dispositivo entre crianças e adolescentes”, alerta. No início deste ano, a Philip Morris, fabricante dos cigarros Marlboro, lançou o IQOS (acrônimo para I Quit Ordinary Smoking), uma nova modalidade de e-cigarettes, em que um cartucho de tabaco é aquecido para liberar o vapor.

“A principal ‘vantagem’ dos cigarros eletrônicos é que eles são capazes de disponibilizar nicotina e reproduzir sensação semelhante à inalação da fumaça produzida pelos cigarros comuns sem que haja a queima do tabaco. Isso reduz a liberação das mais de 8 mil substâncias tóxicas, como o monóxido de carbono, pesticidas e alcatrão, das quais pelo menos 250 são prejudiciais à saúde e mais de 50 conhecidas por desencadearem o surgimento de tumores”, esclarece Clarissa Baldotto, oncologista da Oncologia D’Or.

A queima do tabaco, seja no cigarro comum, charuto, narguilé ou outras formas de fumo, está associada ao surgimento de vários tipos de câncer (pulmão, cavidade oral, laringe, faringe, esôfago, estômago, pâncreas, fígado, rim, bexiga, colo do útero e leucemias) e é responsável por cerca de 30% das mortes pela doença. Fumantes chegam a ter 20 vezes mais risco de desenvolver câncer de pulmão, 10 vezes mais de ter câncer de laringe, e de duas a cinco vezes mais de desenvolver câncer de esôfago, em comparação com não fumantes.

Incertezas e veto

Existem hoje mais de 1,5 mil variedades de cigarros eletrônicos disponíveis no mercado mundial, com diferentes visuais. Os mais tradicionais, no entanto, são visualmente semelhantes ao cigarro comum, com a cor branca e amarela, e o mesmo formato alongado. Alguns modelos possuem uma lâmpada de LED na ponta para representar a brasa e podem ser carregados via USB.

Estima-se que os cigarros eletrônicos sejam até 95% menos tóxicos que os cigarros convencionais, segundo dados do relatório E-cigarettes: an evidence update, comissionado em 2015 pela Public Health England, do Departamento de Saúde e Assistência Social no Reino Unido.

“No entanto, apesar das vantagens aparentes, a venda e o consumo dos cigarros eletrônicos são proibidos no Brasil — ainda que seja fácil adquirir esses aparelhos, muitas vezes sem marca ou garantia de origem, em sites ou tabacarias”, destaca Clarissa.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou o veto ao produto em agosto de 2009, evocando o princípio da precaução, até que existam dados científicos que comprovem sua eficiência, eficácia e segurança. A decisão também se baseou em constatações do Food and Drug Administration (FDA), agência que regula o comércio de alimentos e remédios nos Estados Unidos, de que esses dispositivos liberariam substâncias tóxicas e cancerígenas — entre as quais formaldeído, acroleína e propanol —, diferentemente do que alegam seus fabricantes.

“Não há dados que comprovem a eficácia desses produtos como agentes para a cessação do tabagismo ou sua menor toxicidade em relação ao cigarro comum, ainda que as evidências toxicológicas da exposição aos cigarros sem combustão indiquem um cenário de menor risco à saúde quando comparados aos cigarros convencionais”, destaca a farmacêutica Sandra Helena Poliselli Farsky, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP).

Farsky iniciou recentemente um projeto de pesquisa que pretende avaliar o impacto das substâncias produzidas pelo IQOS, da Philip Morris, no desenvolvimento de artrite reumatoide, doença associada ao hábito de fumar que leva à deformidade e à destruição das articulações e cuja prevalência na população é de 0,5% a 1%. Segundo ela, os estudos publicados nos últimos anos divergem quanto aos efeitos associados ao uso prolongado dos e-cigarettes. Mas uma coisa é certa: eles não são inócuos”, destaca.

Perigos em estudo

Nos últimos anos, vários trabalhos apresentaram novas evidências que sugerem que esses dispositivos podem desencadear reações alérgicas e irritações na boca e na garganta, tosse, dor de cabeça, dispneia e vertigem, além de síndromes inflamatórias e respiratórias. Em um artigo publicado em agosto na revista científica Thorax, pesquisadores norte-americanos verificaram que o vapor do cigarro eletrônico interfere no funcionamento dos macrófagos alveolares, comprometendo sua capacidade de defesa contra infecções bacterianas no trato respiratório.

No estudo, eles vaporizaram fluidos de cigarros eletrônicos em células pulmonares coletadas de indivíduos não fumantes sem histórico de asma ou outra doença pulmonar obstrutiva crônica. Após 24 horas de exposição, o número total de células viáveis expostas à vaporização havia diminuído significativamente em comparação com as células que não foram submetidas ao vapor dos cigarros eletrônicos.

“Nossos achados sugerem que o fluido vaporizado dos e-cigarettes pode prejudicar a função das células imunes do pulmão humano de maneira similar à observada em fumantes de cigarros tradicionais, de modo que as pessoas  que consomem esse produto correm o mesmo risco de  desenvolver doenças pulmonares crônicas”, destacou à revista Onco& Rahul Mahid, pesquisador da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e um dos autores do estudo. Os resultados, segundo ele, também servem de alerta aos governos e órgãos reguladores, que devem “se manter céticos sobre os cigarros eletrônicos e refletir isso nas políticas em torno dos avisos de publicidade e segurança”.

Da mesma forma, outro estudo, apresentado também em agosto durante o 256º Encontro Nacional & Exposição da American Chemical Society (ACS, na sigla em inglês), uma das maiores sociedades científicas do mundo, constatou que o uso prolongado dos e-cigarettes é  capaz de danificar o DNA das células da boca, o que pode desencadear o surgimento de tumores de língua, céu da boca, faringe e amígdala, genericamente chamados de tumores de cabeça e pescoço. Também há casos de intoxicação pela ingestão acidental de seus cartuchos, especialmente entre crianças, ou de aparelhos que superaqueceram enquanto suas baterias carregavam, provocando incêndios e explosões.

Para Marcus da Matta, doutor em patologia pela Faculdade de Medicina da USP, a melhor forma de reduzir o dano do tabagismo é a cessação total do uso de todos os tipos de fumo. O médico João Paulo Lotufo vai na mesma linha. Para ele, é preciso abolir os dois tipos de cigarro, uma vez que ambos são nocivos à saúde. “Fumar cigarro normal equivale a se pendurar na janela do 20º andar de um edifício, enquanto fumar cigarro eletrônico equivale a se pendurar na janela no 10º andar. As alturas são diferentes, mas  o tombo é equivalente”, comenta Lotufo, que é coordenador do projeto antitabágico do Hospital Universitário da USP.

Alternativas para parar de fumar

Sandra Farsky esclarece que hoje existem vários métodos que podem auxiliar as pessoas que querem parar de fumar, como chicletes e adesivos que contêm nicotina e medicamentos  específicos para a interrupção do tabagismo. Os dois primeiros métodos se baseiam no princípio da Terapia de Reposição de Nicotina (TRN). “A  ideia é administrar pequenas doses da substância, retirando-a do organismo aos poucos e auxiliando a reduzir a crise de abstinência e a fissura por fumar.”

A vantagem dessas estratégias é que elas fornecem ao usuário doses controladas de nicotina, sem que ele inale as outras substâncias que seriam liberadas caso consumisse um cigarro tradicional. Pantoja explica que o adesivo, após ser colado na pele, libera pequenas quantidades  e nicotina no organismo por 24 horas. “O ideal é que ele seja aplicado pela manhã para liberar a substância na corrente sanguínea durante o dia.” Os chicletes de nicotina agem
da mesma forma, liberando a substância na boca. Em ambos os casos, a nicotina, que não é tóxica, cai na corrente sanguínea e em menos de 10 segundos chega ao cérebro.

Existem poucos trabalhos que comparam a eficácia do adesivo e a dos chicletes. Uma estratégia usada, sobretudo com as pessoas mais dependentes, é aplicar o adesivo e fornecer-lhes alguns chicletes para que sejam usados caso elas sintam algum sintoma de abstinência muito desconfortável. Os cigarros eletrônicos também liberam quantidades controladas de nicotina, que é rapidamente absorvida pelos pulmões e pela mucosa oral e transportada pela corrente sanguínea até o cérebro. Ainda não se sabe se os e-cigarettes são mais eficazes que os chicletes e os adesivos.

Nesse sentido, Pantoja destaca que é preciso cautela e mais estudos acerca dos cigarros eletrônicos. A epidemia do tabaco, segundo ele, é uma das maiores ameaças à saúde pública mundial, matando mais de 7 milhões de pessoas por ano, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de 6 milhões dessas mortes se devem ao consumo prolongado do cigarro, ao passo que cerca de 890 mil são resultado da exposição ao fumo passivo.

“Qualquer nova estratégia que ajude a diminuir a exposição às substâncias tóxicas do cigarro
comum precisa ser mais bem esmiuçada, de modo que seja usada com responsabilidade, sem estimular seu uso entre os mais jovens”, diz. “Ainda que o cigarro eletrônico seja prejudicial à saúde, parece ser consenso que o convencional é mais nocivo, de modo que, para dar auxílio a quem não consegue abandonar o tradicional, talvez tenha lógica usar o eletrônico”, completa Pantoja.

Quase metade dos fumantes brasileiros quer parar de fumar, segundo dados de pesquisa do Projeto Internacional de Avaliação das Políticas de Controle do Tabaco (ITC) divulgada em 2017 pelo Instituto Nacional de Câncer José Gomes Alencar (Inca). A principal motivação apontada para largar o vício foi a preocupação com a própria saúde, seguida de “dar exemplo para as crianças”, da preocupação com os efeitos da fumaça na saúde de não fumantes próximos e do preço dos cigarros.

Seja qual for o método empregado na cessação do tabagismo, ele precisa ser acompanhado de orientação médica e psicológica, além do apoio da família e dos amigos. Isso é fundamental para que a pessoa mude seu padrão de comportamento em relação à dependência psicológica adquirida após anos fumando. “A ideia é que as terapias de reposição de nicotina, inclusive os cigarros eletrônicos, auxiliem as pessoas para que parem de fumar definitivamente”, destaca Clarissa Baldotto. “Do contrário, só estariam substituindo uma droga por outra”, completa.