Teste de detecção pode ajudar a aumentar a sobrevida para esse grupo de pacientes

Grande parte dos pacientes com câncer de pâncreas é diagnosticada em estágio avançado da doença, o que faz com que somente 7% deles tenha sobrevida de cinco anos após o tratamento. A detecção precoce é o grande desafio desse tipo de neoplasia. Um novo teste de detecção da doença, com sensibilidade de 98%, promete mudar esse cenário e salvar vidas.

O exame é apresentado nesta edição da revista Science Translacional Medicine e foi fruto de uma análise de 746 amostras de plasma de pacientes com adenocarcinoma de pâncreas e controles. A partir daí, os pesquisadores isolaram células tumorais que reprogramaram para se tornaram células-tronco. Então analisaram que proteínas eram secretadas pelo tumor durante seu desenvolvimento. No final, foram identificadas 107 proteínas candidatas e uma análise mais profunda chegou na proteína THBS2 como um marcador da doença.

Os níveis dessa substância estavam elevados em 81 dos pacientes doentes estudados. Os pesquisadores também incluíram como marcador a proteína CA19-9, já apontada em outros estudos sobre câncer. Os resultados foram revalidados em uma fase posterior do estudo que analisou o plasma de 197 pacientes com a doença, 140 controles e 200 pacientes com outras complicações no pâncreas. Nas análises foi possível identificar o estágio da doença pela concentração das proteínas.

“Um resultado positivo para THBS2 ou CA19-9 no sangue bateu consistentemente e corretamente com todos os estágios de câncer que testamos”, diz o líder da pesquisa Ken Zaret, diretor do Penn Institute for Regenerative Medicine. “A concentração de THBS2 com CA19-9 detectou os estágios iniciais da doença como nenhum outro método disponível.”

Ferramenta revoluncionária

O exame serve como uma ferramenta de diagnóstico precoce para rastreamento em pessoas assintomáticas, mas com risco da doença e também para monitorar os pacientes que estão em tratamento. No grupo de risco estão pessoas com histórico familiar da doença, com parente de primeiro grau com o diagnóstico ou que tenham desenvolvido diabetes repentina após os 50 anos. Os pesquisadores acreditam que em breve a ferramenta já poderá ser usada na clínica.

“Pacientes com câncer de pâncreas são geralmente diagnosticados quando já é tarde para uma chance efetiva de tratamento, muitas vezes os sintomas só aparecem quando a doença já está avançada”, diz um dos autores do estudo,Robert Vonderheide, da Universitdade da Pennsylvania (EUA). “Ter um teste de detecção muda completamente o cenário para muitos pacientes.”

O oncologista clínico Lucianno Santos, do Acreditar, vê no estudo um grande avanço. “Há anos os pesquisadores tentam descobrir exames que possam ser utilizados como screening, aumentando assim o diagnóstico de lesões iniciais, mas até o momento não temos nada que possa ser utilizado na prática clínica, ou seja não temos nenhum protocolo embasado para detecção do câncer de pâncreas”, explica o médico, acrescentando que hoje o mais próximo de monitoramento que temos é o acompanhamento de populações especiais, como pacientes portadores de pancreatite crônica ou com histórico de lesões no pâncreas. “Caso os resultados sejam confirmados em estudos com maior população poderemos ter uma verdadeira revolução no manejo do câncer de pâncreas.”

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.