Estudo que será divulgado na ASCO sugere que reduzir tempo de tratamento com trastuzumabe pela metade preserva benefícios com menos efeitos colaterais

Estudo a ser apresentado na ASCO, maior evento de oncologia que acontece em Chicago entre 1 e 5 de junho, sugere que a dose de trastuzumabe para pacientes com câncer de mama inicial HER2 positivo pode ser reduzida pela metade sem prejuízo ao tratamento. A alteração do protocolo, além de diminuir custos, poderia cortar também pela metade os efeitos colaterais cardíacos da terapia.

Os resultados são do estudo de fase 3 Persephone, que analisou por cinco anos mais de 4 mil mulheres, das quais metade seguiu o tratamento padrão por 12 meses e metade o protocolo de seis meses. A taxa livre de progressão em quatro anos não teve grande variação, sendo de 89,4% no regime reduzido contra 89,9% no padrão.

No braço de seis meses, apenas 4% das pacientes tiveram que parar a medicação devido a problemas cardíacos, contra 8% no regime padrão.

“Trabalhamos muito próximos com representantes de pacientes nesse estudo”, disse em coletiva de imprensa a líder da pesquisa, Helena Earl, do Clinical Cancer Medicine da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. “Estamos confiantes de que esse é um marco em direção a redução da duração do tratamento.”

O trastuzumabe é usado no Brasil seguindo o protocolo de 12 meses usado no EUA. O primeiro ensaio clinico a testar a redução da terapia, FinHer, foi feito na Finlândia e reportou benefício semelhante do medicamento com o uso por apenas 9 semanas. Esse estudo foi o que gerou o interesse dos pesquisadores em testar o protocolo mais conservador de 6 meses para reduzir os efeitos colaterais.

Mudança clínica e menor custo

A oncologista clínica Candice Santos, do Núcleo de Hematologia Oncológica (Neoh), em Recife, acredita que o estudo tem grandes chances de mudar conduta clínica atual. “Parece um estudo com potencial de modificação de conduta que traz inúmeros benefícios às pacientes e aos serviços de saúde”, diz. “Para as pacientes em tratamento seria menos risco de toxicidade cardiovascular e menos deslocamentos aos Serviços de Saúde.”

O oncologista clínico Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or, destaca o papel do estudo na redução dos custos do tratamento. “Podemos ver esses resultados como muito importantes especialmente no cenário público, onde existe uma preocupação maior com custos, mas também no cenário privado onde a pressão de custos elevados só aumenta”, diz.

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Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.