Pesquisa da SBOC revela comportamentos e crenças da população em relação ao câncer

A população brasileira tem medo do câncer e sabe quais são os principais fatores de risco para doença. Mas quando se trata de agir para detectar precocemente ou evitar a enfermidade, o brasileiro deixa a desejar. A conclusão é de uma pesquisa inédita da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) divulgada durante o 20ª congresso da instituição, que ocorre de 25 a 29 de outubro no Rio de Janeiro.

O estudo, Panorama sobre Conhecimento, Hábitos e Estilo de Vida dos Brasileiros em relação ao Câncer, ouviu mais de 1,5 mil pessoas com mais de 18 anos dos 26 estados do país e DF com o intuito de fazer um retrato do nível de informação, conhecimento, crenças e hábitos com relação ao câncer.

A pesquisa revelou que, na visão do brasileiro, o tabagismo é o principal vilão para o câncer, sendo citado por 93% da base de entrevistados, seguido por herança genética (84%) e exposição ao sol (83%), fatores que realmente estão ligados ao desenvolvimento da doença.

Apesar deste alto grau de informação, ainda há resistência na tomada de atitudes preventivas. Ao mesmo tempo em que reconheceram os fatores de risco, os entrevistados disseram não agir de acordo.

Em relação ao papel do exercícios físico, por exemplo. Cerca de 80% dos entrevistados disseram saber que a atividade é importante para prevenção do câncer, mas apenas 69% disseram tomar essa atitude. O mesmo para a alimentação saudável com frutas e verduras: 83% reconheceram sua importância, mas apenas 66% dizem incorporar essa ideia em sua vida.

“A pesquisa nos mostrou que falta ação contra o câncer por parte da população”, diz Claudio Ferrari, Diretor de Comunicação da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. “O medo motiva muito pouco.”

Oportunidades de ação

A pesquisa também avaliou se o brasileiro conhece alguns dos principais sinais e sintomas do câncer. Mais de 20% dos entrevistados não reconheceram o sangue nas fezes, típico do câncer colorretal, como sinal de alerta para a doença. O mesmo ocorreu em relação à perda de peso (22%), ao sangue na urina (23%) e à dor no estômago.

A maioria dos entrevistados mencionou conhecer os cânceres de mama, próstata e pulmão. Mas tipos como o câncer colorretal são menos conhecidos. Ferrari identifica nesse resultado uma oportunidade de investir mais na disseminação sobre esse tipo de câncer, que pode ser prevenido com exames como a colonoscopia, que detecta pólipos antes de se tornarem tumores, e a exame de presença de sangue nas fezes.

“Identificamos a oportunidade de trabalhar o câncer colorretal”, diz o médico. “A população em geral não sabe que pode fazer pesquisa de sangue oculto nas fezes, algo que poderia ser feito de forma nacional para diminuir a incidência desse tipo de câncer.”

O estudo mostrou ainda que os brasileiros não fazem exames preventivos e que a principal justificativa é a falta de tempo (28%) e de plano de saúde (29%).

Cura e fé

Outro resultado interessante da pesquisa foi em relação à crença na cura do câncer. Os brasileiros se mostram otimistas em relação à doença: 80% acreditam na cura e reconhecem quimioterapia, radioterapia e cirurgia como as principais formas de tratamento. Quando segmentada por classe social, a crença na cura é maior entre a classe A (87%) e cai para 79% nas classes CDE.

A maior parte dos entrevistados, 73%, também citou a fé como importante fator para a cura. Quando perguntados sobre quais instituições são mais confiáveis para o combate do câncer, 88% mencionaram médicos, mas 70% também mencionaram diferentes igrejas.

“A fé é importante no tratamento. O indivíduo que tem esperança vai sofrer bem menos do que aquele que não acredita em nada, mas temos que ter cuidado para criar falsas esperanças em curas milagrosas que levem o paciente a abandonar o tratamento convencional”, disse Ferrari.

Grande parte dos entrevistados, 67%, também mencionou os tratamentos alternativos como muito importantes no tratamento da doença. “Alguns serviços de oncologia têm agregado terapias alternativas, como acupuntura, yoga, meditação e técnicas de relaxamento”, lembrou o presidente da instituição, Gustavo Fernandes. “Essas ferramentas são importantes, mas sempre tendo em vista que algumas delas não têm comprovação científica e que são complementares ao tratamento.”

Por Sofia Moutinho

Sofia Moutinho

Jornalista multimídia especializada na cobertura de saúde, ciência, tecnologia e meio ambiente. Formada em jornalismo na UFRJ com pós-graduação pela Fiocruz/COC.